terça-feira, março 15, 2011

O Super-Homem de JMS


Com menos de seis meses, J. Michael Straczynski deixa o título mensal Superman. Alguns sites, como o Comics Alliance, já chutaram o balde em relação o arco Grounded. De verdade eu ainda aguardo o fim de história e do arco completo para tecer minhas considerações. Como sabemos que Chris Roberson deve continuar escrevendo o arco com a ajuda dos plots do JMS, o melhor é aguardar. JMS provavelmente está mais preocupado agora com sua saúde, motivo dos atrasos de Superman #704 e #705, o roteiro do filme Thor e o novo Superman: Earth One.

Não creio que o Straczynki prejudicou o Super-Homem. Nem em Grounded, que ainda não acabou, e muito menos em Earth One. Só acho que ele perdeu um bela oportunidade. Lhe deram as ferramentas, as melhores que a DC tem, para fazer um grande trabalho. E ele desperdiçou.

Não vou nem comentar o que ele fez com o Homem-Aranha, não li e não leio o Aranha atual. O Aranha pra mim morreu quando o Steve Ditko deixou o personagem. Faz tempo. Ditko era o Aranha, e vice-versa. Diferente da DC, a Marvel foi, na sua origem, uma editora autoral. Quando Kirby e Ditko pararam de produzir o seu melhor para o editor Stan Lee, a Casa das Idéias deixou de existir.

Voltando ao Earth One. A DC, Berganza e Didio, colocaram um artista de boa qualidade para dar vida à origem do Straczynki. Shane Davis não é um Neal Adams, nem de longe, mas também não é o Rob Liefeld. A arte final de Sandra Hope e as cores de Barbara Ciardo impressionam. Todo o tratamento do hardcover impressiona. Eu já vi a DC fazendo coisa mais bem produzida, mas pela pequena bagatela de US$ 19,99 foram poucas nessa qualidade gráfica tão boa. Claramente a DC estava apostando, e ainda está, que Earth One vai abrir o caminho da editora nas livrarias, longe das comic shops, para fazer frente, e que dirá seguir os passos, aos livros da juventude de hoje em dia: Harry Potter, Twilight, Guardians of Ga'Hoole, etc. A DC gastou dinheiro para produzir um produto para um público diferente. Mas como a experiência com Alex Ross e seus tablóides no final dos anos 90 já demonstrou: uma andorinha não faz verão. Que dirá uma andorinha sem qualidade.

Me parece, que o problema de Earth One é o mesmo que Superman Returns. Tem originalidade, tem qualidade, mas apenas na primeira parte da história. No primeiro ato, Straczynki mostra que "PUTA" escritor ele é. O jovem Clark Kent que ele cria é algo de primoroso. Mas quando chega as cenas de confronto e ação, obrigatórias (eu acho), ele se perdeu: Clichês, um vilão tosco, flashbacks mal colocados. Até a arte do Davis está fraca e parada nas cenas de ação...

O segundo ato é todo perdido, de verdade ninguém que conhece o Super-Homem sente o menor suspense no confronto. A Lois, que deveria ser a chave da história (sempre), está totalmente apagada. O Jimmy e o Perry aparecem mais que ela. Já o terceiro ato tenta recuperar um pouco, mas não rola, pois o JMS quis mostrar que sabia escrever como jornalista e nos presenteou um texto super bobo de Clark Kent e outro bobinho de Lois Lane.

O problema maior disso tudo é que com a "mecânica" do sistema de solicitações da Diamond Comics que rege o mercado de quadrinhos americano, essa pequena besteira chamada Earth One vendeu que nem água para o preço e formato apresentado. A DC, e seus novos editores executivos, ficaram maravilhados com a grana que fizeram com a pré-venda. E encomendaram outro Earth One pro JMS, que não é bobo nem nada, correu da dificuldade que é escrever um gibi mensal (que dirá dois gibis mensais, contando com Wonder Woman) para tentar repetir a proeza.

Quanto a Grounded, erraram desde o começo, pagaram pra ele todo o dinheiro do mundo, tanto que economizaram no artista. Me desculpem os brasileiros que curtem Eddy Barrows, mas a arte dele é fraca para um arco dessa pretensão. Claramente a DC o escolheu pois nosso cambio deixa o trampo dele, e de outros, baratinho, e como já estavam gastando os tubos com o salário hollywoodiano do JMS.

Em março de 2010, eu deixei um comentário no The Source sobre a escolha do Barrows:

Fora a baixa de qualidade, tanto ele, quanto JMS, não foram capazes de entregar nem 6 meses de revistas em seqüência. Superman #704 e #706 foram feitas por outros escritores e artistas. Barrows teve que pedir ajuda para completar Superman #705, e sejamos sinceros o trabalho de Wellington Dias e Eber Ferreira nestas edições não é o que se espera para o Homem de Aço. E agora outro escritor vai ter que ficar com o problema, e resolver...

Coitado do Chris Roberson, praticamente todos os reviews sobre Superman #707 clamam a edição como uma das piores edições do Super-Homem em muitos anos. Bom, Superman #707 não é a pior história do Super-Homem de todos os tempos como apregoaram muitos críticos, alias é impressionante como a Internet e os blogs estão criando uma geração tão crítica. Superman #707 talvez seja a pior revista do arco Grounded, que vem numa descendente incrível, e com certeza é a pior história do Super-Homem dos últimos 5 anos.

É ruim pois nem Stracynski e nem Chris Roberson conseguiram entender que o Super-Homem é um personagem de literatura fantástica, de ficção científica, que funciona melhor em parábolas sobre a vida real do que quando escrita como um drama realístico. Denny O'Neil descobriu isso logo quando fez sua reformulação do Super-Homem em 1971. Stracynski deveria saber disso por gostar e conhecer tanto o personagem, e também por ter escrito parábolas lindas em Babylon 5. Chris Roberson ainda é um ilustre desconhecido, não dá pra saber o quanto ele "ajudou" nessa história em particular.

A revista também é ruim por causa da arte dos cearenses Allan Goldman e Eber Ferreira. As cores do terceiro brasileiro, Marcelo Maiolo, estão boas, mas a arte em si é realmente fraca. Parece ter sido feita as pressas. É pior do que todo o trabalho que Eddy Barrows estava fazendo no começo do arco. Realmente parece que a DC resolveu torrar o dinheiro no escritor hollywoodiano e economizou nos artistas.

Mas o que estraga a edição é a falta de capacidade dos escritores em fazer uma história de ambiguidade moral com o Super-Homem. Que falta eu sinto de Elliot S! Maggin, um dos únicos escritores do Super-Homem que conseguiu fazer temas reais funcionar com o Homem de Aço. Teve Jerry Siegel, claro, Buziek, Paul Dini, Mark Millar... Parece que Stracynski e Roberson confundiram o Super-Homem com George Bush, ou pior, com o EUA da atualidade. E o Super-Homem não é um estadunidense. Se eles queriam provocar controversia, que fizesse com qualidade.

Nenhum comentário: