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terça-feira, março 31, 2026

Super-Homem nos dias de hoje

Super-Homem nos dias de hoje

Se existe um personagem capaz de atravessar gerações, mídias e mudanças culturais sem perder sua essência, esse personagem é o Superman. Mais do que um herói de capa vermelha, ele é um símbolo — de esperança, de valores e, para muitos, de uma conexão pessoal que vai muito além das páginas dos quadrinhos ou das telas do cinema.

Neste espaço, eu compartilho essa relação construída ao longo de décadas: uma jornada que começa na infância, passa por coleções, filmes, debates e experiências profissionais, e chega até uma visão mais madura sobre o que o Superman realmente representa. No texto “O Homem que conhece o Super-Homem”, você vai entender como essa conexão se formou, não como fã ocasional, mas como alguém que viveu e estudou o personagem de forma profunda.

O Homem que conhece o Super-Homem

Já em “As melhores aventuras do Superman no cinema”, o foco muda para a tela grande: uma análise das diferentes interpretações do herói ao longo do tempo, dos clássicos com Christopher Reeve até versões mais recentes, mostrando como cada geração encontra o seu próprio Superman, algo que reflete a forma como o personagem acompanha a vida de cada fã .

As melhores aventuras do Superman no cinema

Nesta entrevista, compartilho não apenas minha trajetória como colecionador e estudioso do personagem, mas também minha visão sobre o significado cultural do Superman. Falo sobre como o herói evoluiu ao longo das décadas, por que ele continua relevante no mundo atual e como diferentes versões — nos quadrinhos, cinema e TV — dialogam com o público de cada época. Mais do que uma análise técnica, a conversa revela o lado pessoal dessa relação: como o Superman deixa de ser apenas ficção e se torna parte da identidade de quem cresce com ele.


Superman ainda é um grande ícone da cultura pop?

Se você também acredita que o Superman é mais do que um personagem, ou quer entender por que ele continua relevante depois de tanto tempo, esses textos e a entrevista são um excelente ponto de partida.








sábado, julho 19, 2025

O legado do "Snyderverse"


O legado do "Snydervese" 

O universo de filmes de Zack Snyder, frequentemente chamado de “Snyderverse”, ocupa um lugar único e complexo na história do cinema de super-heróis. Mais do que uma simples sequência de filmes, ele representa uma visão autoral, artística e ousada dentro de um gênero frequentemente dominado por fórmulas prontas e interesses comerciais. Snyder trouxe um estilo visual e temático distinto ao Universo DC, retratando seus heróis não como aventureiros simplificados, mas como figuras mitológicas lidando com identidade, trauma e dilemas filosóficos.

A base do “Snyderverse” começou com O Homem de Aço (Man of Steel, 2013), uma reinicialização do Super-Homem que redefiniu o personagem para a era moderna. Este filme marcou uma colaboração crucial entre Zack Snyder e Christopher Nolan, que atuou como produtor e coautor da história ao lado de David S. Goyer, o roteirista, diretor e produtor norte-americano conhecido por seu trabalho em adaptações de quadrinhos e ficção científica de tom sombrio e sofisticado. Um dos seus primeiros grandes sucessos foi Dark City (1998), que coescreveu com Alex Proyas, um filme cult de ficção científica noir que influenciou profundamente obras posteriores como The Matrix.

Goyer também foi o principal roteirista da trilogia Blade (1998–2004), estrelada por Wesley Snipes, que teve papel essencial na legitimação dos filmes de super-heróis voltados para um público adulto antes mesmo do surgimento do Universo Cinematográfico Marvel. Essas obras demonstram a habilidade de Goyer em criar mundos densos, sombrios e estilizados, combinando ação e filosofia com tramas envolventes, características que ele levaria também para os filmes do Batman dirigidos por Christopher Nolan.

Vindo do sucesso de crítica e público da trilogia O Cavaleiro das Trevas, Nolan trouxe não apenas sua sensibilidade criativa, mas também sua credibilidade na indústria para o projeto. Sua influência ajudou a ancorar o Super-Homem em um mundo mais realista e emocionalmente ressonante, conferindo um nível de prestígio e rigor narrativo que elevou o filme para além de uma típica história de origem. Snyder, por sua vez, pegou os alicerces temáticos de Nolan e os traduziu em uma visão cinematográfica marcada pela reverência, pelo isolamento e pela complexidade moral.

Com a expansão do universo em Batman vs Superman: A Origem da Justiça (Batman v Superman: Dawn of Justice, 2016), as ambições narrativas se tornaram ainda mais audaciosas. Com roteiro escrito por Chris Terrio, roteirista vencedor do Oscar por Argo. A participação de Terrio trouxe uma abordagem mais estruturada e literária ao roteiro, recheando o filme de simbolismo, subtextos políticos e conflitos morais. Batman vs Superman explorou as consequências do poder sem controle, os perigos do medo e o peso do legado, posicionando seu confronto central como um embate de ideologias, e não somente uma luta física. Nolan permaneceu creditado como produtor executivo, com participação criativa mínima, dando espaço para Snyder e Terrio conduzirem a narrativa.

Apesar de dividirem a crítica, esses filmes conquistaram um público massivo. O Homem de Aço arrecadou mais de 660 milhões de dólares no mundo todo, enquanto Batman vs Superman ultrapassou os 870 milhões.

Em 2017, enquanto Zack Snyder enfrentava a devastadora perda de sua filha Autumn por suicídio, os executivos da Warner Bros., incluindo Walter Hamada e Geoff Johns, aproveitaram-se da tragédia para afastá-lo de Liga da Justiça. Embora o motivo oficial fosse seu luto, diversas fontes indicam que a decisão já estava tomada nos bastidores devido à recepção dividida de Batman vs Superman. Em vez de oferecer apoio, os produtores agiram com frieza e cálculo, usando o momento de vulnerabilidade extrema de Snyder como pretexto para substituí-lo e remodelar o filme de acordo com interesses comerciais. Joss Whedon foi então trazido para refilmar e alterar profundamente a obra, ignorando a visão autoral de Snyder. A forma como Hamada, Johns e outros lidaram com a situação foi amplamente criticada como um exemplo flagrante de oportunismo e desumanidade por parte da indústria, trocando integridade artística e empatia por controle corporativo e lucro fácil.

O filme Liga da Justiça, finalizado por Joss Whedon após a saída forçada de Zack Snyder, é amplamente considerado um fracasso artístico e narrativo. O resultado final é uma obra desconexa, marcada por um tom instável que tenta mesclar comédia leve com uma trama originalmente densa e épica, resultando em uma experiência superficial e sem coesão. As refilmagens apressadas, o uso excessivo de efeitos visuais inacabados e a presença de diálogos forçados e piadas deslocadas contribuíram para enfraquecer os personagens e banalizar seus conflitos. A mutilação da visão original de Snyder em favor de um produto mais “acessível” acabou esvaziando o impacto dramático da história e alienando tanto o público quanto os fãs. A tentativa de imitar o estilo colorido e infantil da Marvel, sem compreender sua essência revelou-se desastrosa, deixando Liga da Justiça de Whedon como um símbolo da interferência corporativa mal calculada e da mediocridade imposta por comitês executivos.

Dessa forma, a culminação da trilogia de Snyder só veria com Liga da Justiça de Zack Snyder (Zack Snyder’s Justice League, 2021), um épico de quatro horas que restaurou sua visão original após sua saída conturbada da versão lançada nos cinemas em 2017, quando o roteiro de Chris Terrio retornou e desenvolvendo completamente arcos emocionais mais coerentes, especialmente para personagens como o Ciborgue e Flash, que haviam sido apagados da versão de cinema.

O caminho até esse lançamento é uma história à parte. Quando Snyder se afastou da produção e a Warner Bros. lançou a versão grotesca de Whedon, surgiu um movimento popular massivo em resposta, o #ReleaseTheSnyderCut. Impulsionado por fãs apaixonados, celebridades e pelo próprio Snyder, o movimento conseguiu convencer a Warner Bros. a financiar e lançar a versão original na HBO Max. Após assistirem à versão de Whedon, Nolan e a produtora Deborah Snyder aconselharam Zack a não a ver, considerando a experiência emocionalmente devastadora. Embora Nolan já não estivesse envolvido diretamente, ele apoiou Snyder nos bastidores.

Liga da Justiça de Zack Snyder tornou-se um marco na história do entretenimento, não apenas por sua qualidade, mas pelo que simbolizou: o poder do engajamento dos fãs, o valor da integridade criativa e o potencial das plataformas de streaming em resgatar obras comprometidas. Apesar de não ter estreado nos cinemas, foi o título mais assistido da HBO Max em seu lançamento e foi amplamente reconhecido como superior à versão de 2017.

Mais do que seu conteúdo narrativo, o “Snyderverse” desafiou as convenções do gênero de super-heróis. Teve a ousadia de levar seus personagens a sério, às vezes até demais, e os tratou como figuras mitológicas em um mundo moralmente ambíguo. O Super-Homem foi retratado como um messias relutante; o Batman, como um vigilante envelhecido e traumatizado em busca de redenção; e Mulher-Maravilha, Aquaman e Ciborgue ganharam uma dignidade e profundidade mais próximas da fantasia épica do que da ação convencional.

Embora a Warner Bros. tenha eventualmente se afastado da rota traçada por Snyder e seguido uma abordagem mais fragmentada, sua influência permaneceu impregnada no DNA dos filmes posteriores da DC. Suas escolhas de elenco, o tom e a linguagem visual moldaram as versões de Aquaman, Flash e principalmente o sucesso Mulher-Maravilha que o público abraçou esses filmes solo. E talvez o mais importante: os filmes de Snyder provaram que o gênero de super-heróis pode aspirar à profundidade temática e à ressonância mitológica, e não apenas ao entretenimento leve e cheio de piadas.

Em paralelo, o sucesso estrondoso de crítica e público de Coringa (Joker, 2019), dirigido por Todd Phillips, não apenas surpreendeu o mercado como também desafiou a lógica dominante dos filmes de super-heróis. Ao invés de seguir a fórmula padrão das franquias, Phillips apostou numa abordagem sombria, introspectiva e autoral, explorando temas como doença mental, desigualdade social e alienação urbana. A narrativa, centrada num personagem perturbado e tragicamente humano, evocou a linguagem do cinema de autor dos anos 1970, e encontrou eco entre plateias globais. O tom sombrio, a densidade psicológica e a estética realista de Coringa remetem diretamente ao estilo visual e temático cultivado por Zack Snyder no universo DC, especialmente em Batman vs Superman, onde heróis são retratados como figuras mitológicas inseridas num mundo brutal e complexo. Ainda que os estilos sejam distintos, ambos compartilham a ambição de levar os quadrinhos para territórios adultos e provocativos. Distinto do besteirol típico da Marvel.

A influência de Martin Scorsese em Coringa é central para compreender sua profundidade estética e narrativa. Embora ele tenha se afastado formalmente da produção, Scorsese atuou como mentor de Phillips, e sua obra, em especial Taxi Driver (1976) e O Rei da Comédia (1982), moldou diretamente a construção do protagonista vivido por Joaquin Phoenix. Além disso, a presença de sua funcionária e produtora Emma Tillinger Koskoff e do amigo Robert De Niro no elenco e na produção reforçam esse elo criativo, funcionando como ponte viva entre os dois cineastas. A equipe de Coringa contou com colaboradores próximos a Scorsese, o que ajudou a transpor para o universo dos quadrinhos a densidade moral e o realismo cru típicos do cineasta nova-iorquino. É importante lembrar que o próprio Scorsese tem sido um crítico feroz da Marvel, argumentando que seus filmes são “parques de diversões”, desprovidos de risco artístico ou substância dramática. Coringa, nesse contexto, funciona como uma resposta, um exemplo de que filmes de quadrinhos podem e devem carregar complexidade e provocar reflexão, quando tratados com liberdade autoral.

Esse mesmo espírito de ousadia já havia sido cultivado por Zack Snyder em sua visão do universo DC, ainda que sem o reconhecimento imediato da crítica. Como Phillips, Snyder sempre tratou o material de origem com seriedade, apostando em dilemas morais, questões filosóficas e uma estética visual carregada, quase operística. A rejeição inicial de sua abordagem por parte da Warner e o subsequente sucesso de Coringa escancararam uma contradição dentro do estúdio: enquanto um filme sombrio e autoral arrecadava mais de um bilhão de dólares e recebia o Leão de Ouro em Veneza, além dois Oscars em indicações ao prêmio máxima do cinema mundial, o mesmo tipo de visão havia sido rejeitada poucos anos antes, quando vinha de Snyder. Assim, o sucesso de crítica e público de Coringa reafirmou o valor de uma abordagem adulta aos quadrinhos e, paradoxalmente, consolidou o legado estético e temático de Zack Snyder como um precursor subestimado dessa nova fase do cinema baseado em quadrinhos.

O valor do “Snyderverse” reside não apenas em estilo cinematográfico distinto, mas no que ele representa: a convergência entre visão autoral e espetáculo blockbuster; o impacto de vozes colaborativas como as de Nolan, Terrio e Goyer; e o papel crescente das comunidades de fãs na definição do destino das obras criativas. Seja admirado por sua ambição ou criticado por seus excessos, o universo DC de Zack Snyder redefiniu o que um épico de super-heróis pode ser, e deixa um legado que continuará sendo debatido por muitos anos.

- Fabio Marques, 19 de julho de 2025


sexta-feira, março 25, 2016

Zack Snyder introduz o universo DC no cinema



Zack Snyder introduz o universo DC no cinema

Estréia essa semana a continuação do filme O Homem de Aço de 2013. No primeiro Zack Snyder e o David S. Goyer, diretor e roteirista, apresentaram o novo Super-Homem num filme com sua origem na roupagem de um verdadeiro filme de ficção científica, que discute o velho dilema entre inato e adquirido. Seria o Homem de Aço humano por conta de sua criação por Jonathan e Martha ou kryptoniano por ter sido concebido por Jor-El e Lara. No novo filme, Snyder e seus roteiristas Goyer e Chris Terrio não perdem tempo em transformar a grande luta dos heróis principais numa discussão sobre como o poder corrompe, tanto homens como deuses.

O filme introduz um novo Batman, com direito a uma releitura de sua origem e seus dramas interiores. O Homem Morcego há muito deixou de ser um vigilante de Gotham e focou em sua vida civil de filantropo, milionário e CEO das empresas Wayne. Mas os eventos do filme anterior, principalmente a destruição e a matança provocada pela luta entre Zod e Super-Homem, fazem a verdadeira identidade de Bruce Wayne retornar.

Enquanto narra a volta do Cavaleiro das Trevas, Snyder também mostra como Metropolis e o mundo passou a lidar com a onipresença, a onipotência e a benevolência do Homem de Aço, dois anos se passam e a vida dos personagens prosseguiram. Clark, Lois e Perry continuam seus trabalhos no Planeta Diário. Lex Luthor aproveitou os eventos em Gotham para tornar mais presente sua marca e influência na Cidade do Amanhã.

Henry Cavill, Amy Adams, Lawrence Fishburne, Diane Lane retornam aos papéis que fizeram no primeiro filme. Cavill está mais solto no papel do herói, mas parece mais confortável nas poucas cenas que tem como Clark Kent. Fishburne tem mais tempo pra desempenhar a importância no seu papel de editor, e parece saber muito mais sobre os desdobramentos da trama que os demais personagens. É interessante a dinâmica entre chefe e empregado no modo como Clark se relaciona com Perry, em reflexo de como Bruce interage com o Alfred, interpretado pelo talentoso Jeremy Irons, bem melhor do que as versões prévias do mordomo, especialmente melhor que Michael Caine. A surpresa do elenco é a vivacidade e inteligência emocional empregada por Jesse Eisenberger no papel do milionário vilão Lex Luthor. Claro que o trabalho anterior dele em A Rede Social de David Fincher ajuda na concepção de um gênio do mal crível para nosso mundo atual.

Visualmente o filme lembra muito todos os filmes de Snyder, a fotografia, o uso de câmera lenta em excesso, cenas de lutas perfeitamente coreografadas, a intercalação do foco das lentes do que está em primeiro plano e do que está no fundo. É uma continuação digna e superior de O Homem de Aço, música, cenários, vestuário e tom sombrio remete ao realismo soturno que Snyder empregou no filme do kryptoniano. Os temas e a narrativa evoluiu um pouco, na tentativa de abranger um mundo mais complexo. A DC/Warner claramente decidiu que seu novo universo cinematográfico será mais sério, dramático e realista, diametralmente distante da leveza e do humor dos filmes produzidos pela concorrência Marvel/Disney, especialmente os últimos Homem Formiga e Avengers 2: A Era de Ultron. Inclua nisso também o filme Deadpool, de humor displicente e auto-crítico produzido pela Fox. Que mais lembra uma paródia adolescente do que um filme de heróis.

As influências dos quadrinhos no filme são óbvias e até gritantes. Talvez isso seja um problema para o grande público. Mas pra quem conhece e gosta, é um prato cheio. Snyder bebeu muito do período entre 1986 e 1996 do universo DC, a famosa Era de Ferro da editora. Da mesma forma que ele fez em 300, tem-se referências visuais diretas dos painéis desenhados por Frank Miller na seminal minissérie O Cavaleiro das Trevas de 1986, as cenas de lutas entre os dois personagens principais é uma homenagem pura e simples do quarto capítulo da lendária obra. A coreografia da luta parece retirada dos layouts desenhados por Miller e finalizados por Klaus Janson. O arco de histórias publicado nas quatro revistas do Super-Homem, entre 1992 e 1993. A Morte do Super-Homem, concebida pela grupo liderado por Mike Carlin e formado por Dan Jurgens, Brett Breeding, Jerry Ordway, Roger Stern, Louise Simonson, Tom Grummett e Jackson Guice, também é referenciada largamente nas cenas que o monstro Doomsday é finalmente revelado.

Outra grande referencia é a obra-prima de Elliot S! Maggin, Curt Swan e Murphy Anderson, "Must There be a Superman?" publicada em Superman #247 de janeiro de 1972. Essa história da Era de Bronze explica por que a humanidade não pode ter alguém resolvendo todos seus problemas.

Claro que há surpresas e diferenças entre o filme e o que foi originalmente criado nos quadrinhos. Não daria pra comprimir 3/4 de século de cronologia dos Melhores do Mundo em 2 horas e 33 minutos. Snyder tentou. E talvez esse seja o maior erro. O filme tem uma estrutura fracionada, pois tenta mastigar mais do que deveria. Há muitas cenas soltas que simplesmente existem pra chamar os próximos filmes da Liga da Justiça e o grande vilão que irá protagonizar esses longas. Para o público comum essas cenas não fazem sentido, apenas confundem e atrapalham o ritmo e fuidez da história principal.

Além de Cavaleiro das Trevas e A Morte do Super-Homem, a minissérie Homem de Aço de John Byrne continua a ser fonte de inspiração para esse mundo. Mas Snyder, Goyer e Terrio também demonstram conhecimento do universo pré-Crise. O Lex Luthor desse filme é CEO da LexCorp, como criado por Byrne e Marv Wolfman, mas também o jovem cientista louco dos gibis do Superboy na Era de Prata. Ele não tem medo e nem vergonha de sujar as mãos, e se deliciar com tudo isso, quando necessário. Mas apesar do vilão ser o condutor da trama, das reviravoltas, e do MacGuffin do filme, cabe às personagens femininas as cenas mais emocionantes e a resolução dos maiores conflitos. Diane Lane continua forte e pragmática no papel de Martha Kent. Gal Gadot rouba praticamente todas as cenas de ação em que aparece e mostra como foi acertada sua escolha como Mulher Maravilha.

A personagem central do filme na verdade é a atrevida e impetuosa Lois Lane, com pouco tempo de tela, Amy Adams consegue trazer humanisno e sensibilidade à personagem feminina mais importante de todo universo DC. Lois continua teimosa, explosiva, e irrestivelmente intrometida, como ela sempre foi. Desde que Adams a interpretou em O Homem de Aço, a repórter do Planeta Diário ganhou contornos mais tridimensionais. Encontra-se uma personagem que não está mais preocupada apenas com um furo de matéria, nem em revelar a identidade secreta do Super-Homem, ou casar com ele, nem mesmo disputar uma pauta com seu colega, muito menos ser a donzela em perigo esperando pelo príncipe encantado. Ela é uma mulher madura do século 21, profissional, independente, resolvida e apaixonada. Capaz de proteger sua vida pessoal e seu amado companheiro, mais do que ele próprio acha que é necessário. Essa Lois Lane ama tanto Clark Kent como o Super-Homem, mas não é ingênua em acreditar que é possível ser uma simples namorada de um super-herói.

Ela é a chave para tudo nesse filme e nos próximos filmes da Liga da Justiça. Quando Jerry Siegel sonhou o Super-Homem no verão de 1933 em Cleveland, antes mesmo de seu amigo Joe Shuster o desenhar pela primeira vez, Jerry o fez para impressionar uma garota com quem estudava no Glennville High School. Na mente do garoto de 17 anos se ele tivesse poderes sobrehumanos embaixo da sua aparência comum, nerd e pacata, talvez a jovem Lois Amster reparasse nele. Talvez ele seria especial. Assim Siegel colocou todas as características que ele mais admirava nas mulheres do cinema e da ficção nessa jornalista que criava e coube a Joe traduzir a imagem da imaginação deles em forma física no papel. A musa inspiradora foi Jolan Kovacs, uma jovem modelo. Seu nome profissional era Joanne Carter, e ela ficaria conhecida na história anos depois como Joanne Siegel, eterna companheira de Jerry. 

Lois Lane é a razão da existência do Super-Homem, a única personagem dos quadrinhos de super-heróis que existe desde Action Comics #1, e assim sendo Snyder, Goyer e Terrio mostram que fizeram a lição de casa e tiveram ajuda de Geoff Johns. produtor executivo, chefe criativo da DC e escritor de inúmeros gibis. A eterna namorada do Homem do Amanhã é o coração e a âncora emocional do filme, e é dela a cena emocionalmente mais forte.

O próprio título e a campanha promocional leva acreditar que teremos um grande confronto, a Warner tenta vender a grande batalha entre os dois heróis, pois só assim o grande público será fisgado. Emocionalmente não é mostrado um conflito entre os dois mas uma reafirmação das suas semelhanças morais. É apresentado o nascimento do respeito mútuo e da amizade entre Bruce e Clark, a fundação da Liga da Justiça, a introdução de novas ameaças e novos personagens que a massa não conhece. Desse ponto de vista, a narrativa é confusa para esse público que não está acostumado com terras paralelas, Tubos de Explosão, Caixas-Mães, parademônios, e sonhos premonitórios. Já os fãs, os leitores frequentes se deliciarão com a montanha de novos elementos introduzidos e na promessa do que será o novo universo DC nos cinemas.

Ping, Ping, Ping...


Fabio Marques, 23/4/2016
super-homem.com



domingo, janeiro 31, 2016

Batman v Superman Teaser Comentado

Batman v Superman Teaser Comentado

Em Julho de 2015, estive nos estúdios da TV Geração Z no programa Café Panorâmico, com os jornalistas Rogério Victorino e Paulo Gustavo, para comentar o segundo tesar do novo filme do Homem de Aço, Batman V Superman.

Café Panorâmico Parte 1

Café Panorâmico Parte 2

quarta-feira, outubro 16, 2013

WB Animation e Zack Snyder celebram os 75 anos do Super-Homem


Superman 75th Anniversary Animated Short
by Zack Snyder, DC Comics and WB

quinta-feira, agosto 08, 2013



MAN OF STEEL PREQUEL

DC COMICS, New York, June, 2013


Story by David S. Goyer, Geoff Johns and Zack Snyder
Script by Sterling Gates
Pencils by Jerry Ordway
Inks by Jerry Ordway, Bob McLeod, Joe Rubinstein and Bob Wiacek
Colors by Hi-Fi
Letters by Rob Leigh
Edited by Kristy Quinn

(C) 2013, DC Comics. All right reserved.

 MAN OF STEEL The Prequel (June-2013).cbr


As vésperas do lançamento do longa-metragem O Homem de Aço, a DC Comics lançou uma revista em quadrinhos, apenas em formato digital, com a "prequel" do filme. Essa edição não está a venda e nunca esteve disponível para ser adquirida, ela foi dada apenas para aqueles que compraram os ingressos de pré-estréia para o filme vendidos na rede americana de supermercados Walmart dos EUA.


sexta-feira, julho 12, 2013


Um Super-Homem para uma Nova Geração

O Homem de Aço é o filme do Super-Homem que o grande público estava pedindo desde o fim da franquia com o ator Christopher Reeve. Durante os últimos 26 anos, o público pediu por um filme como esse. E o novo filme de Zack Snyder tem tudo que o público contemporâneo esperava de um filme de super-heróis: efeitos visuais de última geração, ação inquietante, um roteiro provocador, controverso e realista. Mas apesar de tudo isso, o filme não empolga como poderia.

A produção do diretor Zack Snyder e do produtor Christopher Nolan não diverte e não é alegre. A história apresentada no filme narra os acontecimentos que formam o pequeno Kal-El no super-herói que todos conhecemos, mas é uma história de sofrimento, de alienação e de escolhas difíceis. No roteiro criado David S. Goyer não há alegria em ser o maior super-herói de todos.

Da mesma forma que Batman Begins, a primeira incursão de Nolan no mundo dos quadrinhos, “Superman Begins” mostra a origem do personagem e passa literalmente o filme inteiro explicando as motivações que levaram o pequeno sobrevivente do planeta Krypton a decidir ser um herói. E que decisão difícil é essa! Vemos também a difícil decisão de Jor-El e Lara ao enviar o pequeno Kal-El para a Terra. A conflituosa relação entre o menino Clark Kent e seu pai adotivo Jonathan Kent. A vida sofrida que o jovem adulto Clark Kent decide ter para tentar se descobrir. Como na Jornada do Herói desenvolvida pelo antropólogo americano Joseph Campbell em 1949, Clark não aceita quem ele é e recusa, num primeiro momento, o chamado para a aventura que sua origem sobrenatural o qualifica. Assim cabe a ele se descobrir e procurar um novo mentor após a perda do seu pai adotivo.

Goyer, Nolan e Snyder fazem um excelente trabalho nos primeiros dois terços do filme ao criar uma história de ficção científica quase perfeita ao expor o público o eterno debate psicológico entre o inato e o adquirido. Somos frutos da nossa genética ou da nossa formação? O Super-Homem é Kal-El? O sobrevivente alienígena, filho do maior cientista de Krypton? Ou ele é Clark Kent? O filho de um simples fazendeiro do Kansas? Nesse filme essa difícil decisão cabe ao herói, ele acaba por escolher quem ele é.
Toda essa estruturação da vida do herói não é nem original e nem incomum para a mitologia do Super-Homem, apesar do roteiro de David S. Goyer tomar diversas liberdades com os mitos sagrados do Super-personagem, a grande maioria dessas liberdades são claramente baseadas em HQs, filmes e seriados que povoam os mais de 75 anos do personagem. Na realidade, apesar de parecer diferente e inovador, não existe muita novidade nos elementos construtivos da história. As diferenças dessa versão do Super-Homem estão mais no tom e no clima do mundo apresentado ao público do que nos fatos apresentados. Da mesma forma que foi feito em Batman Begins, Nolan e Goyer beberam diretamente de diversas fontes dos quadrinhos pra criar a trama do filme. E não necessariamente os melhores quadrinhos do personagem e com certeza não as melhores partes dos quadrinhos escolhidos.

Em O Homem de Aço, trechos completos de diálogos e cenas visuais foram adaptados das minisséries Grandes Astros Superman, de Grant Morrison e Frank Quietly, e de Superman: O Legados das Estrelas, de Mark Waid e Leinil Yu Francis. Mas a maior influência foi a fase escrita e desenhada por John Byrne entre 1987 e 1989, em especial a minissérie O Homem de Aço e o arco conhecido como A Saga da Super-Moça apresentado em Superman #21-22 e Adventures of Superman #444. Durante sua passagem nas revistas do Super-Homem, o britânico Byrne “marvelizou” o personagem criado por Siegel e Shuster, humanizando-o e dando explicações científicas para seus poderes e suas motivações. Para muitos fãs antigos do personagem, Byrne tirou a grandeza única e heróica do personagem, deixando-o comum e enfraquecido. Alguns críticos do novo filme, disseram o mesmo sobre as decisões que o herói faz na trama.
Talvez uma forma de qualificar esse novo filme, seja fazer a mesma coisa que fizeram com a produção dirigida por Bryan Singer em 2006: Superman, O Retorno. Foi dito que Singer fez uma grande homenagem ao filme original dirigido por Richard Donner, e que o herói interpretado por Brandon Routh não batia em ninguém no filme e que ele não dava um único soco. Realmente, de várias formas, Superman, O Retorno e O Homem de Aço são dois filmes diametralmente diferentes. Enquanto o filme de Singer peca pelo excesso de emoção, o filme de Snyder peca pela falta de emoção, em nenhum momento no grande clímax que se apresenta no terço final do filme, seu herói mostra um único ato de compaixão, o que se apresenta é um personagem frio e sem a menor humanidade.

Enquanto o roteiro de Michael Dougherty e Dan Harris exagera na originalidade em mostrar um kryptoniano tentando ter uma vida normal e simples de pai e marido ao tentar resgatar seu relacionamento complicado com Lois Lane, o roteiro de Goyer mostra o que todo filme de super-herói sempre apresenta: sua origem, seu conflito interior e um final de violência e destruição. Ao final de Superman, O Retorno é fácil ver pessoas comovidas e genuinamente emocionadas quando o herói abre seu coração para seu filho. Em O Homem de Aço, o final é tão controverso que muita gente sai chocada com toda a brutalidade apresentada. Mas existem similaridades entre os dois filmes, ambos tentam traçar um paralelo entre o super-herói e o mito de Jesus. Singer conta o Segundo Advento de Cristo, Snyder repete os evangelos e mostra a origem do salvador e o início de seu ministério. Enquanto as referências religiosas em O Retorno são sutis, em Homem de Aço, elas são descaradas, o filme chega a dizer que o Super-Homem tem 33 anos, por exemplo. Mesmo nessa similaridade de referência, há diferenças de tom e clima. Se o filme original de Donner se parece com O Evangelo Segundo São Mateus de Pasolini, por sua verosimilidade, o filme de Singer é quase blasfemo como A Última Tentação de Cristo de Scorsese, ao mostrar Lois Lane como mãe de uma criança ilegítima. E seguindo dessa forma o filme de Snyder é a versão ultra-violenta similar A Paixão de Cristo de Gibson.

Apesar de não ser um filme perfeito do Super-Homem, o novo longa é uma boa introdução ao personagem para a audiência atual dos cinemas, O Homem de Aço, como Batman Begins, apresenta um jovem personagem aprendendo a ser um super-herói, toda uma nova geração de fãs irá conhecer o personagem dessa forma. Essa uma das características mais marcantes do personagem. Em seus 75 anos, ele sempre foi muito flexível ao ser adaptado ao zeitgeist e as novas mídias. Sempre foi capaz de aglutinar mudanças apresentadas fora dos quadrinhos. A sua versão original criada nos anos 30, o Super-Homem não voava, não trabalhava no Planeta Diário, não tinha kryptonita como sua maior fraqueza, seu chefe não era Perry White e Jimmy Olsen não existia, todos esses elementos vieram na série de rádio, a primeira adaptação do personagem fora dos quadrinhos. Por exemplo, foi apenas no filme de 1978 que o emblema de seu peito teve origem em Krypton, até então nos quadrinhos era apenas a letra “S”. Dessa forma, em breve teremos elementos do novo filme sendo adaptados de volta para os quadrinhos, como por exemplo o fato de Lois Lane ser a primeira a descobrir sua identidade secreta antes mesmo que ela exista, ou o fato novo de Perry White ser um afro-americano, que alias já aconteceu nos quadrinhos desenhados por Art Baltazar quando do anúncio de Lawrence Fishburne no papel antes mesmo do filme chegar as telas. E realmente há novidades suficientes para reformular o Super-Homem mais uma vez para toda uma nova geração.

Tecnicamente o filme é deslumbrante, os efeitos visuais são de primeira linha, a fotografia fria e azulada traz um clima realista desde Krypton até a destruição de Metropolis. A trilha sonora quase militarista do alemão Hans Zimmer foge da gloriosa melodia wagneriana de John Williams, criando algo totalmente novo e diferente. No elenco um time de primeira linha em volta de um novato no papel principal. Temos o vencedor do Oscar Russell Crowe como Jor-El, o pai kryptoniano do herói. Já como seu pai adotivo temos o também o vencedor do Oscar Kevin Costner. Para o importante papel de Lois Lane, a indicada quatro vezes para o Oscar, Amy Adams. Como principal antagonista, Michael Shannon, também já indicado ao Oscar fazendo o General Zod. Perry White é interpretado pelo indicado ao Oscar, Lawrence Fishburne, e Diane Lane, mais uma indicada ao Oscar, encarna a mãe adotiva Martha Kent.

Essa fórmula de colocar um elenco premiado em volta do principiante Henry Cavill é a mesma feita pelos Salkind na produção do primeiro longa com Christopher Reeve. Na época, tanto a crítica como o público ficaram confusos ao ver Marlon Brando e Gene Hackman encabeçando o elenco, enquanto o ator desconhecido era o protagonista. A idéia dos Salkind era dar credibilidade ao projeto, pois nos anos 70 um filme baseado numa história em quadrinhos não era uma coisa levada a sério. Christopher Nolan e Zack Snyder, mesmo já sendo famosos por filmes baseados em quadrinhos, resolveram ter certeza que não seria por falta de um bom elenco que o filme fracassaria. E fizeram bem.

Russell Crowe parece se divertir muito como o grande mentor intelectual do filme e do personagem principal, traz bastante de sua persona Gladiador para o papel de Jor-El. O roteiro inova ao colocar nas mãos de Ayelet Zurer, a versão mais completa de Lara de todas as versões do Super-Homem, dentro e fora dos quadrinhos, e a aclamada atriz israelita não decepciona e aproveita a oportunidade magnificamente no pouco tempo de tela que tem. Kevin Costner, é o coração do filme, ele é a âncora emocional do público e cabe a ele construir o desenvolvimento do pequeno Clark Kent no protótipo de herói que o filme apresenta. A sempre bela Diane Lane faz uma Martha mais jovem que suas pares anteriores, mas consegue ser a rede de segurança que o complexo Kal/Clark precisa ter para crescer. Na vida adulta essa figura amorosa será substituída por Lois Lane.

Amy Adams é definitivamente a melhor Lois Lane já apresentada num longa-metragem de cinema. Superior em profundidade dramática a Phillys Coates, Margot Kidder e Kate Bosworth, Adams acrescenta à sempre forte personalidade da personagem mais uma faceta, uma ternura graciosa quase angelical. Essa Lois é tenaz e carreirista, como todas as anteriores, capaz de enfrentar grandes riscos para conseguir suas incríveis materias jornalísticas que a aclamaram com um Pullitzer, mas sabe claramente a diferença entre certo e o errado, sabe instintivamente que a vida privada das pessoas vale mais do que um furo de reportagem.

Já o novato Henry Cavill, apesar de não ter todo o charme emprestado de Cary Grant que Christoper Reeve mostrou na sua passagem como o Super-Homem, também não é o herói extremamente emotivo que Brandon Routh e esteticamente intocável mostrado no filme de 2006. Seu sotaque britânico não atrapalha, sua forma física impecável dão credibilidade ao poder de um Homem de Aço. Cavill faz um personagem sofrido, humano e por vezes falho na sua nova tarefa de herói, que teve que lutar muito pra se encontrar e que terá que continuar lutando para provar à humanidade que ele é de confiança e pode ser o maior herói de todos.

Fabio Marques, 12/07/2013.