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sexta-feira, julho 24, 2026

Whitney Ellsworth: Nasce o Super-Homem de Massa

 

Whitney Ellsworth: Nasce o Super-Homem de Massa
por Fabio Marques (24/Julho/2026)


A história dos quadrinhos tem o hábito de recompensar o espetáculo em detrimento da gestão. Pergunte a um leitor casual quem "construiu" a mitologia do Super-Homem, e a resposta quase certamente será Mort Weisinger: arquiteto da Fortaleza da Solidão, do Brainiac, da Cidade Engarrafada de Kandor, da Múltiplas Cores de Kryptonita e da densa continuidade que definiu a Era de Prata. Pergunte quem tornou o Super-Homem possível como instituição cultural capaz de sustentar essa expansão posterior, e a resposta honesta é um nome bem menos familiar ao leitor geral: Whitney Ellsworth.

Nascido em 1908, no Brooklyn, e chegou aos quadrinhos por um caminho quase artesanal: aprendeu desenho num curso por correspondência da YMCA local e, entre 1927 e o início dos anos 1930, trabalhou como assistente em tiras sindicalizadas de jornal: Dumb Dora, Just Kids e Embarrassing Moments. Ingressou na National Allied Publications no fim de 1934, ainda sob a direção do fundador Malcolm Wheeler-Nicholson, como editor assistente, subindo a editor associado entre 1936 e 1938, período em que também desenhava e escrevia séries próprias, como Little Linda e Billy the Kid. Depois de um breve afastamento na Califórnia por volta de 1937 e 1938, retornou à empresa, já então sob o comando de Harry Donenfeld e Jack Liebowitz. Foi exatamente nesse retorno que o "carro da família": o Super-Homem, lançado em 1938, acabou em suas mãos: Vin Sullivan, o editor original do personagem desde Action Comics #1, rompeu com Donenfeld e Liebowitz em 1940 após uma disputa sobre royalties de um encarte especial que ele mesmo havia proposto para a Feira Mundial, e deixou a empresa.

Ellsworth, ao contrário de Sullivan, não tinha reivindicações comerciais pendentes contra os donos da editora, já havia provado versatilidade como desenhista, roteirista e editor em mais de meia década de casa, e representava exatamente o tipo de continuidade de baixo risco que Donenfeld e Liebowitz precisavam para um ativo que já era, àquela altura, o motor comercial de toda a National. Sullivan, por sua vez, permaneceria muito próximo de Jerry Siegel e Joe Shuster mesmo depois da saída: quando os dois criadores deixaram a DC em 1947, após o processo movido para reaver os direitos do Super-Homem, foi justamente com Sullivan, então à frente de sua própria editora, a Magazine Enterprises, que reencontraram um espaço editorial, publicando ali Funnyman (1948), com Sullivan atuando como seu editor uma segunda vez.

Ellsworth editou o Super-Homem de 1940 a 1959: quase duas décadas completas, mais tempo do que qualquer outro editor na história do personagem, incluindo Weisinger. Ainda assim, sua reputação foi achatada por um atalho historiográfico: como as inovações de Weisinger na Era de Prata são tão vívidas e citáveis, fãs posteriores: e até algumas obras de referência, atribuem retroativamente o período editorial de transição dos anos 1950 a Weisinger sozinho, deixando Ellsworth como uma espécie de interino, a mão firme que manteve a cadeira aquecida até a chegada do "verdadeiro" arquiteto. Isso não é apenas impreciso; inverte a relação real entre as contribuições dos dois homens. Weisinger construiu uma mitologia sobre uma fundação. Ellsworth construiu a fundação, e os sistemas de distribuição que permitiram que essa fundação alcançasse milhões de pessoas que jamais haviam aberto um gibi.

Ellsworth sucedeu Vin Sullivan em 1940, herdando um Super-Homem que, em sua forma original e autoral de Siegel e Shuster, se aproximava mais de um justiceiro social do que da figura que gerações posteriores reconheceriam, um personagem que arremessava senhorios corruptos contra paredes e ameaçava especuladores de guerra com algo próximo do prazer. O primeiro e mais consequente ato de Ellsworth como editor não foi aditivo, mas corretivo: ele começou a suavizar essa agressividade inicial, redirecionando o Super-Homem das narrativas policiais realistas para o humor e o absurdo fantástico, do qual a introdução de Mister Mxyzptlk em Action Comics #64 (1943) é o exemplo mais duradouro, e, de forma crucial, institucionalizou a regra segundo a qual o Super-Homem não mata. A virada mais dura para a ficção científica propriamente dita, com vilões cósmicos e ameaças de escala planetária, viria depois, já sob a gestão de Weisinger. Essa regra não existia como doutrina consolidada antes de Ellsworth. Tornou-se uma depois, e tem sobrevivido de uma forma ou de outra a todo editor, roteirista e reboot de continuidade desde então.

O argumento mais forte em favor da importância histórica de Ellsworth, no entanto, não é editorial, mas estrutural. Muito antes de "franquia transmídia" existir como termo de indústria, Ellsworth funcionava como o tecido conjuntivo entre todos os meios em que o Super-Homem aparecia, e o fazia de forma simultânea, não sequencial.

A tira diária do Super-Homem estreou em 16 de janeiro de 1939, distribuída pelo McClure Syndicate, ainda sob a gestão editorial de Vin Sullivan, que foi o editor do Super-Homem até 1940. Dito isso, o lançamento em si foi mais uma operação do próprio McClure Syndicate do que uma "curadoria" editorial da DC Comics, nem com Sullivan no sentido estrito: foi M.C. Gaines, ligado ao McClure, quem articulou a entrada do material nos jornais, com Jerry Siegel escrevendo e Joe Shuster desenhando. Sullivan, como editor da National naquele momento, era o responsável institucional do lado da editora, mas não há registro de envolvimento direto dele na escrita ou supervisão de conteúdo da tira propriamente dita.

A partir de 1940, quando Ellsworth assume a editoria após a saída de Sullivan, seu envolvimento se torna direto e documentado: ele é creditado como roteirista anônimo da tira ao longo dos anos 1940, e aparece formalmente listado como um dos escritores nas edições coletadas modernas (ao lado de Siegel, Alvin Schwartz e Bill Finger, publicadas pela The Library of American Comics). Ou seja — a tira nasceu no período de Sullivan, mas foi Ellsworth quem de fato a supervisionou e escreveu para ela durante a maior parte de sua existência.

Em outubro de 1939, pouco mais de um ano após a estreia do Super-Homem, Jack Liebowitz e Harry Donenfeld criaram a Superman, Inc., uma subsidiária separada da National criada especificamente para administrar o licenciamento comercial do personagem: merchandising, promoções, rádio e, mais tarde, televisão, mantendo esses lucros apartados do restante da editora. À frente da operação estava Robert Maxwell, ex-redator de pulps de Donenfeld, responsável por negociar o licenciamento do nome e da imagem do Super-Homem junto a fabricantes e emissoras. Ellsworth não integrava a direção comercial da Superman, Inc.; seu papel era complementar ao de Maxwell, funcionando como o guardião editorial do personagem nos produtos que a subsidiária licenciava. Essa parceria fica documentada de forma concreta em pelo menos dois momentos: Maxwell e Ellsworth dividiram a adaptação do roteiro que se tornaria Superman and the Mole Men (1951) a partir do material radiofônico, e os dois aparecem como desenvolvedores conjuntos da série de televisão Adventures of Superman, da qual Ellsworth assumiria a produção entre 1953 e 1958. Em outras palavras: a Superman, Inc. cuidava de vender o Super-Homem; Ellsworth cuidava de garantir que aquilo que estava sendo vendido continuasse, em espírito, o mesmo personagem.

Dessa forma, na série de rádio da Mutual Network, Ellsworth atuou como representante da National Comics junto a The Adventures of Superman, havendo documentação de que contribuiu com roteiros durante os anos de guerra, um nível de envolvimento direto que vai além da simples supervisão passiva de licenciamento. Isso importa porque o seriado radiofônico não foi um tie-in menor; foi um laboratório que gerou alguns dos elementos mais duradouros do personagem. A caracterização definitiva de Perry White, Jimmy Olsen como personagem coadjuvante nomeado, a Kryptonita como recurso narrativo e a cadência da narração de abertura ("Faster than a speeding bullet...") têm origem no programa de rádio, não nas páginas dos quadrinhos. O papel de Ellsworth como elo de ligação significava que a National Comics dispunha de um mecanismo para absorver de volta, na continuidade impressa, essas inovações nascidas no rádio: um ciclo de retroalimentação entre mídias que exigia alguém posicionado exatamente onde Ellsworth estava posicionado.

George Lowther, um dos principais roteiristas do programa de rádio, publicou em 1942 The Adventures of Superman, o primeiro romance do Super-Homem, ilustrado por Joe Shuster. O livro tem peso histórico que vai além da curiosidade editorial: foi ali que a origem do personagem ganhou, pela primeira vez, uma forma coesa e definitiva: batizando os pais adotivos como Eben e Sarah Kent e fixando a grafia "Jor-El", consolidando em prosa elementos que os quadrinhos até então tratavam de forma dispersa. É tentador incluir esse livro entre as realizações de Ellsworth, dado seu envolvimento com o rádio, mas não há nenhuma documentação de que ele tenha editado o romance. Atribuir-lhe esse crédito seria o mesmo erro que a narrativa centrada em Weisinger comete ao tirar de Ellsworth méritos que são dele. O romance entra nesta história como prova do poder criativo e midiático que o rádio gerava, um poder que Ellsworth ajudou a viabilizar.

Essa mesma função de elo de ligação se estendeu à animação, na qual atuou como representante da DC junto aos estúdios Fleischer e, depois, Famous Studios, produções que deram ao Super-Homem seu poder visual mais icônico na tela. A decisão de dar ao Super-Homem animado a capacidade de voar, em vez de apenas saltar, como nos quadrinhos do período, partiu do próprio estúdio Fleischer, por razões práticas de animação, não de Ellsworth. Seu papel foi de custódia: supervisionar a relação da DC com a produção para que a mudança fosse absorvida de forma coerente na identidade do personagem, em vez de tratada como uma contradição. O fato de esse voo ter se tornado permanente, inclusive na continuidade dos quadrinhos, é em si uma demonstração de quanta influência um editor corretamente posicionado podia exercer simplesmente ao optar por não resistir a uma boa ideia vinda de fora de seu próprio meio.

Esse mesmo padrão se repete no cinema e na televisão: consultor editorial nos seriados da Columbia Superman (1948) e Atom Man vs. Superman (1950); desenvolvedor da história de Superman and the Mole Men (1951), o primeiro longa-metragem do personagem; e, de forma mais substancial, produtor e editor de roteiro de Adventures of Superman, a série de televisão estrelada por George Reeves, que durou a maior parte de seis temporadas e apresentou o Super-Homem a uma geração que jamais leria um gibi. Nenhum outro editor do Super-Homem, antes ou depois, deteve essa amplitude de autoridade multimídia simultânea.

Os dois seriados da Columbia devem sua espinha dorsal diretamente ao rádio, não apenas de forma vaga: o de 1948, com a vilã "Spider Lady", reproduz o arco radiofônico "The Scarlet Widow" (setembro–outubro de 1945), enquanto Atom Man vs. Superman (1950) adapta o arco "The Atom Man" (outubro–dezembro de 1945), incluindo a própria caçada pela Kryptonita que estruturava as duas histórias no rádio. Há, porém, uma mudança de identidade que vale registrar: no rádio, o Atom Man era o soldado nazista Heinrich Milch, transformado pelo cientista Der Teufel ao injetar Kryptonita líquida em suas veias — Lex Luthor jamais apareceu na série radiofônica. Foi o serial de 1950 que substituiu o vilão nazista por Lex Luthor sob a máscara, criando ali a primeira aparição do arqui-inimigo do Super-Homem em live-action. Dado que Ellsworth atuava como consultor editorial da DC nos dois seriados, com controle sobre roteiro e produção, é razoável atribuir a ele a decisão de trocar o vilão de guerra pelo personagem já consagrado nos quadrinhos, ainda que não haja registro documental que confirme diretamente sua autoria da escolha. Essa mesma disciplina editorial em relação a Luthor se manteria, de forma inversa e sem exceção, na série de televisão Adventures of Superman: nenhum dos vilões clássicos dos quadrinhos: nem Luthor, nem Brainiac, nem Mister Mxyzptlk, foi utilizado nos roteiros entre 1952 e 1958, substituídos majoritariamente por gângsteres e cientistas genéricos. A Kryptonita, criada no radio para dar férias para o ator Bud Collyer, ao contrário do que se costuma supor, não esteve ausente da série de TV: apareceu em pelo menos seis episódios ao longo das seis temporadas: "The Defeat of Superman" (1953), "Panic in the Sky", "Superman Week", "The Deadly Rock", "The Magic Secret" e "The Gentle Monster", mas seu uso foi pontual, num contraste marcante com a profusão de variantes do mineral que Weisinger introduziria nos quadrinhos a partir de 1954.

Qualquer relato rigoroso sobre a gestão de Ellsworth precisa resolver uma tensão historiográfica honesta, em vez de simplesmente encobri-la. Historiadores dos quadrinhos que trabalham a partir dos créditos de indicia e de bancos de dados distinguem entre o editor creditado e o editor de fato responsável pela produção, e, por esse critério, Mort Weisinger já vinha assumindo parte substancial da produção cotidiana dos títulos do Super-Homem bem antes de 1959. As histórias oficiais da DC, por outro lado, simplesmente listam Ellsworth como editor até 1959 e Weisinger a partir de 1959, uma linha do tempo mais limpa, porém menos granular.

A abordagem responsável não é escolher um vencedor entre esses dois enquadramentos, mas sustentar ambos ao mesmo tempo: Ellsworth permaneceu como editor principal e creditado da linha do Super-Homem até 1959, essa é a data defensável para qualquer cronologia, ao mesmo tempo em que se reconhece, no corpo da análise, que a responsabilidade editorial nos quadrinhos foi crescentemente compartilhada ao longo da década, com Weisinger assumindo papel cada vez maior no desenvolvimento das histórias antes de sua sucessão oficial. Isso não é uma evasiva; é o que de fato costuma acontecer em transições editoriais longas, nos quadrinhos ou em qualquer outro campo, e tratar a passagem de bastão como um evento binário e limpo em 1959 achata uma década de história institucional real.

Do que se segue disso, porém, decorre um ponto de rigor crítico frequentemente pulado: conceitos da Era de Prata: a Fortaleza da Solidão, o Brainiac, a Cidade-Garrafa de Kandor, a mitologia expandida da Família do Super-Homem do final dos anos 1950 e dos anos 1960, pertencem de facto à gestão editorial de Weisinger e aos roteiristas que trabalhavam sob sua direção, não a Ellsworth. Um perfil crítico que tenta creditar retroativamente a Ellsworth conceitos desenvolvidos depois que sua primazia editorial já havia arrefecido não presta homenagem ao seu legado; dilui o argumento que de fato deveria ser feito em seu favor. Ellsworth não precisa de crédito emprestado da Era de Prata. Sua realização real é estrutural, não conceitual: ele construiu o arcabouço multimídia: elo com o rádio, supervisão da animação, consultoria no cinema, produção televisiva: sobre o qual a construção mitológica de Weisinger poderia depois ser sobreposta e monetizada em todos os formatos que o personagem ocupava.

Em seu ensaio "Il mito di Superman" (1962), Umberto Eco descreveu o Super-Homem como um mito de consumo de massa que existe num presente eterno e iterativo: um personagem que não pode envelhecer, casar ou mudar de forma definitiva, porque precisa permanecer sempre disponível para novo consumo serial, história após história, edição após edição. Essa condição estrutural, que Eco analisa como fenômeno textual, é também, e talvez sobretudo, um fenômeno editorial, e sua origem remonta diretamente à gestão de Ellsworth. Foi ele quem padronizou a identidade editorial do Super-Homem através de dezenas de títulos simultâneos, quem impôs a moral inequívoca e a não-progressão narrativa que tornam o personagem infinitamente repetível, e quem construiu a infraestrutura multimídia: quadrinhos, rádio, animação, cinema, televisão; que multiplicou esse consumo serial em escala industrial antes de qualquer outro editor do período. O "Super-Homem de massa" que Eco teoriza décadas depois é, em termos práticos, o produto direto do modelo editorial que Ellsworth institucionalizou entre 1940 e 1959.

Essa fundação não foi obra de Ellsworth sozinho à mesa de um escritório: ele a construiu através de uma equipe de roteiristas e desenhistas fantasmas que, ao contrário de Siegel e Shuster, raramente recebiam crédito nas próprias páginas, mas cuja mão definiu visualmente o Super-Homem por quase toda a década de 1940 e metade dos anos 1950. Wayne Boring, que já contribuía como assistente, no The Shuster Studios, desde o final dos anos 1930, tornou-se sob Ellsworth o principal artista do personagem a partir de meados da década de 1940, responsável por consolidar a anatomia mais monumental e menos cartunesca que substituiria o traço original de Shuster como referência visual dominante. Ele foi acompanhado por John Sikela e, a partir de 1948, por Curt Swan, cujo estilo mais clássico e proporcional se tornaria, já na transição para a gestão de Weisinger, a referência definitiva da Era de Prata, outro caso, como o do voo do estúdio Fleischer, em que uma contribuição gestada sob Ellsworth só revelaria todo o seu peso histórico depois que ele já não estava mais à frente da linha editorial. Al Plastino, que ingressou no time em 1948, coube boa parte do trabalho de tirinha diária e das capas ao longo da década seguinte. No roteiro, ao lado da presença constante, mas oficialmente anônima, do próprio Ellsworth, trabalharam Alvin Schwartz, Bill Finger, emprestado pela linha editorial do Batman para escrever Super-Homem em diversas ocasiões e já na virada para os anos 1950, William Woolfolk e Don Cameron, este último responsável por boa parte do desenvolvimento do jovem Clark Kent que desembocaria em Superboy.

O ponto de maior síntese narrativa dessa equipe é a reformulação da origem publicada em Superman #53 (julho–agosto de 1948), roteirizada por Bill Finger e desenhada por Wayne Boring: "The Story of Superman's Life". Até então, a origem do personagem havia sido recontada de forma fragmentada e inconsistente desde Action Comics #1, sem uma versão canônica única às páginas dos quadrinhos, foi justamente o romance de Lowther, seis anos antes, que havia proposto pela primeira vez uma narrativa coesa, ainda que fora do meio quadrinístico propriamente dito. Finger e Boring devolveram essa coesão ao formato original, fixando em imagem a sequência que se tornaria padrão para décadas de recontagens seguintes: a destruição de Krypton, o lançamento da nave, a adoção pelos Kent, a descoberta gradual dos poderes na juventude. É razoável supor que uma decisão editorial dessa magnitude, consolidar pela primeira vez, em quadrinhos, uma origem definitiva, passasse pela aprovação direta de Ellsworth como editor responsável pela linha, ainda que, como no caso da troca de vilão nos seriados da Columbia, não haja documentação que confirme sua autoria específica da escolha.

Também sob a editoria de Ellsworth, Finger roteirizou o primeiro encontro narrativo propriamente dito entre Super-Homem e Batman como parceiros de história, e não apenas como personagens de capas compartilhadas: "The Mightiest Team in the World", em Superman #76 (maio–junho de 1952), que inaugura o que se tornaria a fórmula recorrente da dupla, mais tarde perpetuada em World's Finest Comics. É um exemplo adicional do mesmo padrão estrutural que rege toda a gestão Ellsworth: a decisão de cruzar as duas maiores propriedades da editora não nasceu de um mandato de "universo compartilhado" no sentido moderno do termo, esse vocabulário é anacrônico para 1952, mas da mesma lógica pragmática de maximizar o valor comercial de ativos já consolidados que orientou toda a sua gestão de licenciamento fora dos quadrinhos.

Do lado dos coadjuvantes, é também sob Ellsworth que Lois Lane é infantilizada e deixa de ser essencialmente a repórter combativa e cética das histórias de Siegel e Shuster do final dos anos 1930 e passa a operar dentro do triângulo amoroso mais estável, e mais reiterável de mês a mês, que a manteria como par romântico fixo de Clark Kent e Super-Homem ao longo de toda a década de 1940, um formato de recorrência que se encaixa diretamente na leitura de Eco sobre o personagem que não pode progredir de forma definitiva. Perry White e Jimmy Olsen, cuja caracterização nasceu no rádio, como já observado, ganham nos quadrinhos sob Ellsworth sua consolidação gráfica e de nome definitivos, deixando de ser presenças ocasionais para se tornarem membros fixos do elenco de apoio do Daily Planet: o próprio nome do jornal, aliás, substituindo o Daily Star das primeiras histórias de Siegel e Shuster, é uma adaptação editorial do nome usado no seriado radiofônico, absorvida de volta aos quadrinhos dentro do mesmo ciclo de retroalimentação entre mídias já descrito.

No campo dos vilões e ameaças recorrentes, a era Ellsworth se define menos pela escala cósmica que caracterizaria a Era de Prata do que pelo registro cômico e não-letal inaugurado com Mxyzptlk: além do Prankster (1942), do Toyman (1943), e da insuportável Susie Tompkins(1943), soma-se a essa linhagem uma primeira aparição embrionária de Bizarro em Superboy #68 (1958), sob roteiro de Otto Binder e arte de George Papp: criação que fica exatamente na fronteira cronológica que o texto já identificou como zona de responsabilidade compartilhada entre Ellsworth e Weisinger, e que por isso resiste a uma atribuição limpa a qualquer um dos dois. Titano, o "chimpanzé super" de origem radioativa que estrearia em Superman #127 (1959), pertence já a um registro distinto: o da ficção científica de escala monstruosa que Weisinger consolidaria como marca própria da década seguinte, e serve aqui de contraponto, não de exemplo: é precisamente o tipo de criação que o rigor deste argumento exige manter fora da conta de Ellsworth.

 

Em 1954, o psiquiatra alemão radicado nos Estados Unidos Dr. Fredric Wertham publicou Seduction of the Innocent, atribuindo aos quadrinhos um papel causal na delinquência juvenil. O livro alimentou as audiências no Senado americano naquele mesmo ano e levou a indústria a criar o Comics Code Authority como resposta defensiva. Ellsworth, que já era editor do Super-Homem havia catorze anos, não precisou se adaptar a essa nova exigência: desde o início dos anos 1940, por convicção editorial própria, sua linha já seguia os princípios que o CCA viria a tornar obrigatórios: o Super-Homem nunca mata, o crime realista cedeu lugar ao humor fantástico, a conduta do personagem permaneceu sempre moralmente inequívoca. A auto-regulação do CCA teve pouco efeito nos quadrinhos do Homem de Aço, Ellsworth já praticava as condutas por quase uma década inteira, sem precisar de Wertham para lhe dizer o que um personagem de consumo de massa podia ou não fazer.

O argumento em favor de Whitney Ellsworth não é o de que ele tenha sido um contador de histórias mais inventivo do que Mort Weisinger: não foi, e nenhum relato sério deveria afirmar o contrário. O argumento é que Ellsworth resolveu um problema mais difícil e bem menos glamoroso: manter um único personagem coerente, apropriável e comercialmente explorável simultaneamente em quadrinhos, tiras de jornal, rádio, animação, cinema e televisão, por quase vinte anos: ao mesmo tempo em que trabalhava diretamente com Jerry Siegel e Joe Shuster durante a década formativa do personagem e administrava as consequências da saída de ambos da National em 1947. Weisinger herdou um personagem já pronto para receber mitologia. Ellsworth é a razão de esse personagem existir, em qualquer forma reconhecível, para recebê-la.

Esse tipo de realização institucional não gera painéis memoráveis nem origens de vilões citáveis por si só, e é exatamente por isso que eras editoriais mais chamativas tendem a apagá-la por omissão. Os dois marcos mais citados da virada do Super-Homem em direção ao supervilão moderno, aliás, caem precisamente na fronteira entre as gestões de Sullivan e Ellsworth, e a coincidência não é trivial: o Ultra-Humanoide, primeiro vilão recorrente do personagem, estreou em Action Comics #13 (junho de 1939), ainda sob Sullivan. Lex Luthor, que o substituiria como arqui-inimigo definitivo, apareceu em Action Comics #23 (abril de 1940), exatamente quando Sullivan saía e Ellsworth assumia. Escrito e desenhado por Siegel e Shuster como sempre, Luthor se consolidou como presença recorrente já dentro da estrutura editorial de Ellsworth, não a de Sullivan. É também sob essa estrutura que Siegel e Shuster deixam de ser autores exclusivos do personagem: à medida que Ellsworth expandia o número de títulos e contratava uma equipe crescente de redatores e desenhistas de apoio, a dupla criadora se tornou peça de uma operação cada vez mais industrial, processo que culminaria, em 1947, na saída de ambos após o litígio pelos direitos do Super-Homem. Reconhecer em Ellsworth a arquitetura moral e a infraestrutura multimídia que ele de fato construiu, sem lhe atribuir invenções que pertencem a seu sucessor ou a colaboradores como George Lowther, não é pedantismo: é a diferença entre tratar a história dos quadrinhos como mitologia e tratá-la como história.

No final da década de 1950, a presença de Ellsworth na linha editorial do Super-Homem diminuiu de forma gradual, não abrupta. Ele manteve o cargo de Diretor Editorial da National, mas seu trabalho já se concentrava em Hollywood havia anos: desde 1951, dividia o tempo entre Nova York e a Costa Oeste, produzindo Superman and the Mole Men e depois atuando como produtor e editor de roteiros de Adventures of Superman. Com sua presença cada vez mais distante da redação em Nova York, Weisinger absorveu progressivamente a rotina editorial dos quadrinhos, até assumir oficialmente a linha em 1959 e inaugurar ali a Era de Prata. Não houve, portanto, sucessão, houve divisão de trabalho que se tornou sucessão com o tempo: Ellsworth transformando o Super-Homem em fenômeno multimídia enquanto Weisinger se dedicava de corpo inteiro às revistas que herdariam essa infraestrutura. Ellsworth permaneceu na Califórnia até o início dos anos 1960, ainda desenvolvendo projetos como os pilotos de Superpup (1958) e The Adventures of Superboy (1961), antes de encerrar uma associação de mais de duas décadas com a empresa que ele, mais do que qualquer editor depois dele, havia ensinado a vender o mesmo personagem para sempre.

Whitney Ellsworth morreu em 7 de setembro de 1980, em North Hollywood. Em 1985, foi reconhecido postumamente pela própria DC Comics como um dos homenageados de Fifty Who Made DC Great, publicação comemorativa dos cinquenta anos da editora: um gesto tardio, mas institucional, do tipo que a historiografia de fãs demorou mais a conceder. Fora dos escritórios da DC, o nome de Ellsworth sobrevive de forma mais discreta, quase como referência interna entre quem conhece a fundo essa história: em Smallville (2001–2011), o interesse amoroso de Lana Lang na primeira temporada chegou a ser batizado de Whitney Ellsworth ainda em fase de roteiro, nome preservado na novelização do piloto, Arrival, antes de o sobrenome ser trocado para Fordman por razões de produção. Já em Deadwood (2004–2006), da HBO, o ator Jim Beaver, biógrafo de George Reeves, obteve do produtor David Milch permissão para batizar seu personagem, um garimpeiro sem nome fixo, de Whitney Ellsworth, em tributo ao produtor sobre quem havia escrito. Não é uma estátua nem uma capa de revista, mas é o mesmo tipo de reconhecimento discreto que definiu toda a carreira de Ellsworth: visível apenas para quem sabe onde olhar.

sábado, dezembro 28, 2024

Dr. Wertham contra o Super-Homem


Dr. Wertham contra o Super-Homem
por Fabio Marques

O infâme Dr. Fredric Wertham foi um psiquiatra preocupado com o que ele via como a decadência moral da juventude americana nos anos 40 e 50. Ele se tornou um dos críticos mais proeminentes dos quadrinhos no meio do século XX. Em seu livro de 1954, Sedução do Inocente, Wertham acusou os quadrinhos de promover delinquência juvenil, comportamento violento e desvios sexuais. Entre seus alvos estava o Super-Homem, da DC Comics, um personagem criado, ironicamente, para representar esperança, justiça e integridade moral.

Wertham afirmava que as habilidades sobre-humanas e a justiça vigilante do Super-Homem incentivavam as crianças a rejeitar a autoridade e adotar comportamentos imprudentes. Ele argumentava que a capacidade de Superman de desafiar leis convencionais poderia inspirar os jovens leitores a agir fora das normas sociais. Em uma passagem particularmente infame, Wertham sugeriu que os feitos de força de Superman poderiam incitar fantasias de poder entre os jovens impressionáveis, levando-os a um caminho de ilegalidade.

Fredric Wertham fez comparações extremamente controversas entre o Homem de Aço, criado pelos judeus Jerry Siegel e Joe Shuster, e ideologias opressivas, incluindo o nazismo, as S.S. e a supremacia branca, em suas críticas aos quadrinhos. Ele alegava que o Super-Homem representava uma figura autoritária que promovia a idéia de uma "raça superior" devido às suas habilidades sobre-humanas e invulnerabilidade, interpretando o personagem como um reflexo de ideais elitistas e antidemocráticos.

Wertham chegou a afirmar que o emblema do "S" no peito do personagem evocava uma conexão simbólica com as temidas S.S. nazistas, e que as narrativas envolvendo o herói derrotando inimigos mais fracos reforçavam mensagens de dominação racial e cultural. Essas interpretações, no entanto, ignoravam completamente as raízes do personagem como um defensor da justiça social, criado por dois jovens judeus, Jerry Siegel e Joe Shuster, que criaram o Super-Homem como uma resposta às ameaças fascistas da época e como um símbolo de esperança e igualdade.

As alegações de Wertham não se limitavam ao Super-Homem; ele condenava todos os quadrinhos de super-heróis, sugerindo que glorificavam a violência e minavam os valores tradicionais. Ele argumentava que a representação de heróis maiores que a vida, lutando contra vilões, poderia dessensibilizar as crianças para as consequências do mundo real, fomentando um apetite por agressão.

Joe Shuster, co-criador do Superman ao lado do roteirista Jerry Siegel, enfrentou sua própria dose de controvérsia nos anos pós-guerra. No final da década de 1940 e início da década de 1950, Shuster já não estava mais associado aos quadrinhos do Super-Homem devido a disputas com a DC Comics sobre direitos e compensação. Cego dos dois olhos e lutando financeiramente, Shuster recorreu a outras formas de ilustração para sobreviver. Entre seus trabalhos menos conhecidos estava a série de quadrinhos fetichistas Nights of Horror, uma coleção de ilustrações underground que retratavam temas de bondage e sadomasoquismo.

Embora Nights of Horror fosse obscuro, e o envolvimento de Shuster desconhecido do público pois ele colaborou anonimamente, a série foi considerada pornográfica e foi alvo de intenso escrutínio durante o julgamento dos Brooklyn Thrill Killers, uma gangue de adolescentes que, em 1954, cometeu uma série de crimes violentos, incluindo assassinato, em Nova York. O líder da gangue, Jack Koslow, afirmou que Nights of Horror havia influenciado seu comportamento, provocando indignação generalizada. O julgamento sensacionalista e a cobertura da mídia ligaram as ilustrações aos atos brutais da gangue, alimentando ainda mais os argumentos de Wertham sobre os perigos dos quadrinhos e do conteúdo lascivo.

Embora a conexão de Shuster com Nights of Horror fosse tangencial aos crimes, Wertham e seus aliados exploraram o caso para argumentar que os quadrinhos e a mídia relacionada corrompiam as mentes jovens. A ligação era, no mínimo, tênue; os crimes dos Brooklyn Thrill Killers estavam enraizados em questões sociais e psicológicas mais profundas, em vez da influência de material underground de nicho. No entanto, o incidente deu mais força à campanha de Wertham.

A campanha implacável de Wertham, amplificada pela indignação pública e pela cobertura sensacionalista da mídia, levou a audiências no Senado sobre delinquência juvenil e quadrinhos em 1954. Temendo a intervenção do governo, os editores estabeleceram o Comics Code Authority, um órgão autorregulador que impôs diretrizes rigorosas ao conteúdo dos quadrinhos. O Super-Homem e outros heróis, que já eram símbolos de moralidade, foram ainda mais higienizados para se alinharem aos novos padrões. O outrora vibrante meio dos quadrinhos entrou em um período de estagnação criativa, com os editores evitando qualquer conteúdo que pudesse atrair controvérsia.

Shuster, por sua vez, mergulhou ainda mais no obscurantismo. A mancha de sua ligação com Nights of Horror nunca foi conhecida naquela época, embora seu trabalho em Super-Homem tenha ganhado novo reconhecimento nas décadas seguintes.

Com o passar do tempo, os argumentos de Fredric Wertham foram amplamente desacreditados. Seus métodos de pesquisa revelaram-se profundamente falhos, baseados em evidências anedóticas, dados seletivos e conclusões sensacionalistas. Estudos posteriores não encontraram nenhuma ligação definitiva entre os quadrinhos e a delinquência juvenil, destacando, em vez disso, que tal comportamento geralmente derivava de fatores econômicos, familiares e sociais.

A cruzada de Wertham contra os quadrinhos pode ter nascido de uma preocupação genuína com a juventude, mas foi, em última análise, equivocada e prejudicial. Wertham não era apenas um psiquiatra com preocupações sobre a juventude, ele também demonstrava uma clara ambição de se tornar uma figura pública influente. Sua cruzada contra os quadrinhos, especialmente a publicação de Sedução do Inocente em 1954, foi estrategicamente projetada para atrair atenção nacional e consolidar sua reputação como um defensor da moralidade. Ele frequentemente fazia declarações sensacionalistas e usava argumentos chocantes para capturar o interesse da mídia e do público. Numa época marcada pelo McCarthismo e a caça as bruxas na política americana, Wertham aproveitou o crescente pânico moral da época para se colocar no centro das discussões sobre delinquência juvenil, testemunhando em audiências no Senado e aparecendo em jornais e revistas de grande circulação. Embora suas intenções possam ter sido parcialmente altruístas, o desejo de notoriedade permeava suas ações, e sua abordagem muitas vezes exagerada e desonesta sugere que ele estava tão interessado em promover sua própria fama quanto em proteger a juventude.

O Super-Homem, longe de ser uma influência corruptora, perdurou como um ícone global de virtude e inspiração. O personagem serviu como modelo para gerações, demonstrando os valores de compaixão, coragem e justiça. Da mesma forma, os crimes hediondos dos Brooklyn Thrill Killers não podem ser atribuídos de forma justa a Nights of Horror ou a qualquer outra forma de mídia; a conexão foi um bode expiatório conveniente, e não uma causa substancial.

Sua vilificação do Super-Homem e da indústria de quadrinhos sufocou a criatividade e deturpou o potencial do meio como uma força para o bem. Hoje, o Homem de Aço permanece como um testemunho do poder duradouro da narrativa e da resiliência de criadores como Jerry Siegel e Joe Shuster, cuja visão continua a inspirar o mundo.

terça-feira, fevereiro 18, 2020

As Melhores Histórias de Quadrinhos do Super-Homem: A Morte do Super-Homem

As Melhores Histórias de Quadrinhos do Super-Homem

The Death of Superman
"The Death of Superman"
Superman vol. 1 #149 (Novembro de 1961)

Escrita por Jerry Siegel
Desenhada por Curt Swan
Finalizada por George Klein
Letras por Ira Schnapp
Editada por Mort Weisinger
Capa por Curt Swan e George Klein
Editor Executivo Whitney Ellsworth

Publicada no Brasil em:
Superman BI 1ª Série #32 (EBAL, Julho de 1970)
Coleção Invictus #17 (Nova Sampa, Março de 1995)
Superman Antologia (Panini Comics, Novembro de 2020)

O que aconteceria se o co-criador do Super-Homem escrevesse a derradeira história do Homem de Aço. E no final das contas essa é a premissa de “The Death of Superman” escrita por ninguém mais, ninguém menos que o próprio Jerry Siegel. Depois de ter processado a National Publications em 1948, Siegel e Shuster perderam seu contrato de exclusividade que tinham desde 1938 e deixaram o Super-Homem para nunca mais voltar...

Até que, 11 anos depois, Joanne Siegel, antiga namorada de Joe, esposa de Jerry e modelo original da Lois Lane, telefonou para o editor do Super-Homem Mort Weisinger e exigiu que Mort desse uma oportunidade para seu marido voltar a escrever quadrinhos na DC. Weisinger permitiu que ele voltasse a escrever histórias, mesmo do Homem de Aço, com a condição que ele recebesse o mesmo valor por página que qualquer outro escritor freelancer e que nunca mais voltasse a falar sobre os direitos autorais do personagem kryptoniano. Durante essa fase anônima, onde ele não creditado como autor das histórias, Siegel novamente revolucionou seu personagem.

Publicada na título mensal do herói em novembro de 1961, Jerry dividiu a história em três partes, nela ele visita ínumeros os mitos e personagens do Homem de Aço, alguns criados por ele e Shuster, outros criados durante sua ausência. Mas principalmente, nessa história imaginária, ele transforma Lex Luthor no mais brutal e maquiavélico vilão dos quadrinhos. Luthor cria um plano final, sagaz e diabólico, para eliminar seu arqui-inimigo definitivamente. E tem sucesso, no fim da história o Super-Homem morre e continuo morto. E diferente de qualquer outro vilão de quadrinhos, filmes ou séries, Luthor não faz um grande monólogo para contar seu plano. Ele se aproveita da bondade e ingenuidade do Super-Homem para atraí-lo e traí-lo. E finalmente quando ele aniquila o Homem de Aço com uma dose mortal de kryptonita, além de ficar ao lado do corpo esverdeado e moribundo, ele força de forma sádica que os melhores amigos do herói: Lois, Jimmy e Perry; vejam a morte em pessoa e ao fim, numa frieza brutal, ele verifica clinicamente que o kryptoniano está morto e comemora a vitória na frente de todos. Mesmo a capa original da revista é pesada para os dias de hoje. Só se pode imaginar como o Comics Code Authority aprovou uma capa tão mórbida.

O texto de Siegel, como sempre, é simples e cadenciado mantendo o leitor preso a narrativa até o final revelador e surpreendentemente arrepiante, a construção da história é típica do auge da Era de Prata, principalmente para uma história imaginária, mas devido ao tema que explora, essa narrativa é especialmente emotiva e intensamente madura para uma história da fase editada por Weisinger, é patente que Siegel definitivamente queria matar o Super-Homem, talvez devido aos vários anos de ostracismo profissional que ele vivia. Talvez fosse mágoa por tudo que Donenfeld e Liebowitz tinha feito ele passar. Talvez fosse a tristeza de ter visto seu personagem ter sido tirado de suas mãos.

Para acompanhar o texto de Siegel, Weisinger acertadamente escalou o principal artista da editora, Curt Swan. Nada tão perfeito poderia ter aconteceido, o lendário desenhista do Super-Homem, que fez o personagem por 30 anos praticamente ininterruptos, entrega uma obra-prima visual. É possível sentir toda a carga emocional nas linhas clássicas de Swan. E apesar de melodramática, a arte é leve, perfeita e bonita, George Klein capricha na arte-final e evita sair do traço original de Swan, mantendo o estilo clássico e icônico do artista.

E uma pena que no Brasil, que essa história só tenha sido republicada por aqui em preto-e-branco tanto pela EBAL em maio de 1970 quanto na última vez pela Nova Sampa na Coleção Invictus #17 no longíquo março de 1995. Nos EUA, a DC Comics já a republicou sete vezes com especial destaque nos encadernados de aniversário de 50 anos e 75 anos do personagem celebrando as melhores histórias do Super-Homem de todos os tempos.

Sendo a primeira vez que o Super-Homem morre nos quadrinhos é interessante reparar como essa história influenciou as sagas gigantes dos anos 90: Morte do Super-Homem, Funeral para um Amigo e Retorno do Super-Homem. Ao "matar" o Super-Homem em 1992, o editor Mike Carlin e sua turma de artistas e escritores liderados por Dan Jurgens claramente trouxeram inúmeras referências, idéias e homenagens dessa história original de Jerry Siegel.

por Fabio Marques (17/02/2020)

Superman #149 (DC Comics, November 1961)
Superman #149
"The Death of Superman"
DC Comics, November 1961



terça-feira, fevereiro 04, 2020

Superman & Lois, a nova série do Super-Homem




Superman & Lois, a nova série do Super-Homem

A atriz Elizabeth Tulloch e o ator Tyler Hoechlin, da série de TV Supergirl, reprisam seus papéis como o super herói mais famoso do mundo e a jornalista mais famosa de Metrópolis na nova série Superman & Lois no canal americano CW.
Superman & Lois é um dos dois shows desse ano 2020 que já ganharam um "pickup" logo de início da temporada do canal The CW (o reboot de Walker, Texas Ranger, estrelado por Jared Padalecki, de Supernatural, é o outro). Depois do sucesso do mega-crossover Crise nas Terras Infinitas, não é de admirar que essa adição da rede ao seu crescente repertório de séries baseadas na DC Comics seja de pessoas conhecidas do Arrowverse, o produtor executivo de Flash e o ex-showrunner Todd Helbing e os produtores Greg Berlanti e Geoff Johns, estão por trás do programa, que é obviamente baseado nos personagens criados por Jerry Siegel e Joe Shuster.
Nessa nova roupagem, teremos o primeiro casal dos quadrinhos em um novo estágio da vida. Enquanto que em Smallville de Alfred Gough e Miles Millar era sobre a adolescência de Clark Kent, e a série dos anos 90 de Deborah Joy Levine Lois & Clark: The New Adventures of Superman mostrou o início do relacionamento e o casamento do casal icônico, Superman & Lois mostrará os dois personagens lidando com todo o estresse, as pressões e as complexidades que advêm de serem pais que trabalham.
Quando a série começa, Lois Lane ainda está trabalhando no Planeta Diário, enquanto Clark Kent acaba de ser demitido após um plano de demissões em massa no jornal. Sua mãe adotiva Martha Kent mora sozinha na fazenda onde ele cresceu em Smallville após o falecimento de seu marido Jonathan Kent. Lois e Clark são pais de gêmeos, Jonathan e Jordan Kent, com treze anos, eles são muito diferentes, tanto fisicamente quanto psicologicamente. Jonathan, interpretado por Jordan Elsass, é o popular, um atleta que está prestes a entrar no principal time do colégio, enquanto Jordan, interpretado por Alexander Garfin, é mais introvertido, propenso a ansiedade e muito dedicado aos computadores e videogames. Eles não sabem quem realmente é o pai deles... ainda. E eles podem ou não ter herdado seus poderes.
O pai de Lois, o general Samuel Lane, também está na série e sabe sobre os poderes do genro. Lana Lang também tem papel importante na nova série. Ela é trabalha num banco e ainda mora em Smallville, com o seu marido bombeiro Kyle Cushing e suas filhas, Sarah, de quatorze anos, e Sophie, de oito anos. E vivem um drama familiar: Kyle é alcólatra e Sarah tentou tirar a própria vida há um ano.
Já o Super-Homem tem um novo inimigo nesta nova versão da história, que aparece como The Stranger (O Estranho) no episódio piloto, cuja verdadeira identidade é revelada no final do episódio...

sexta-feira, fevereiro 08, 2019

StarCon 2019: DC Comics na TV



Star Con 2019

Em 2 de fevereiro de 2019, a Nova Frota organizou a StarCon 2019: Os Mundos de Doug Jones, convidando a visitar o Brasil um dos maiores atores de fantasia e ficção da atualidade, que interpreta o comandante Saru de Star Trek: Discovery.

O evento foi realizado no Teatro Eva Wilma em São Paulo, e além da presença de Doug Jones, a convenção contou com dois palcos paralelos, onde ocorreram as tradicionais atrações como painéis com especialistas em cultura pop e ciência, atividades de palco e do show musical com a Banda PAD.

No palco externo, tive a oportunidade de fazer um bate-papo com Thiago A. Maldonado (Diário do Capitão) e Thiago Cardim (Judão) onde conversamos sobre as séries da DC Comics do Universo Arrowverse exibidos pela Warner: Supergirl, Arrow, Legends of Tomorrow, Flash e sobre as séries Titans e Doom Patrol exibidos pelo Netflix
Área Externa - Promenade

13:15h - Painel sobre o Arrowverse da DC Comics na televisão


15:00h - Painel sobre a série de TV Jovens Titãs



Fotos da StarCon 2019








MIS: Super-Homem 80 anos


MIS: Super-Homem 80 anos

No sábado, dia 15 de dezembro, tive a oportunidade de participar do evento Além da Telinha – Especial Superman 80 anos no Museu da Imagem e do Som de São Paulo. A atividade fez parte da programação paralela da megaxposição Quadrinhos, que traz a história das HQs do Brasil e do mundo com uma expografia imersiva e lúdica.

Os fãs do super-herói poderam relembrar sua jornada de 80 anos com uma programação especial, das 11h até às 18h. Foram exibidos três momentos do Superman das telas: As aventuras do Super-Homem (versão anos 50), Superman II The Richard Donner Cut e The Lois e Clark, As Novas Aventuras do Superman. Junto com Thiago A. Maldonado (Diário do Capitão) e Fernando Afonso (Nova Frota) discutimos a evolução do personagem nos quadrinhos, no cinema e na televisão.









  

Loja Monstra: Superman 80 anos

Bate-papo: Joe Shuster e os 80 anos de Superman

No dia 9 de Novembro de 2018, a Editora Aleph em parceria com a Loja Monstra lançou a graphic novel "A História de Joe Shuster: O artista por trás do Superman" de Thomas Campi e Julian Voloj, com a participação de Sidney Gusman (Universo HQ), Manoel de Souza (Revista Mundo dos Super-Heróis e Carol Pimentel (Mythos Editora) para um bate-papo sobre essa jornada que revolucionou a indústria do entretenimento.

Apesar de estar na platéia fui convidado pelo grande Sidney Gusman a falar de como Jerry Siegel e Joe Shuster criaram o primeiro e maior super-herói dos quadrinhos. Tive a oportunidade de narrar a minha própria experiência de estar em Glennville, Cleveland onde o Homem de Aço nasceu. Também compartilhei fatos e eventos das entrevistas que fiz com os autores da Graphic Novel.


segunda-feira, dezembro 03, 2018

Joe Shuster: Entrevista Exclusiva com Thomas Campi

Joe Shuster
Entrevista Exclusiva com Thomas Campi

Todo mundo conhece o Super-Homem, mas nem todo mundo conhece a história dos dois jovens de Cleveland que criaram o Super-Homem. Baseado em material de arquivo e fontes originais, " A história de Joe Shuster: O artista por trás do Superman" conta a história da amizade entre o escritor Jerry Siegel e o ilustrador Joe Shuster e o coloca no contexto mais amplo sobre a origem da indústria americana de quadrinhos.

Em “A História de Joe Shuster: O Artista por trás do Superman”, Julian Voloj e o artista Thomas Scampi traçam um retrato intimista sobre a vida e a obra de Joe Shuster, o primeiro artista do gênero de super-heróis que junto com ser amigo Jerry Siegel criaram o Super-Homem.

Com a publicação de “Joe Shuster” no Brasil pela Editora Aleph em 25 de outubro de 2018, e em homenagem aos 80 anos da publicação da revista Action Comics #1 (DC Comics) que introduziu o Super-Homem em abril de 1938, entrevistamos o artista Thomas Campi. 


Thomas Campi é um premiado artista italiano, que após de viver 6 anos na China, agora é reside permanentemente em Sydney, Austrália. Thomas faz quadrinhos há mais de 18 anos e seu trabalho foi publicado na Itália, Espanha, França, Bélgica, Alemanha, Suíça, Canadá, Brasil, Coréia, EUA, Reino Unido por editoras como Sergio Bonelli Editore (Itália), Ediciones La Cúpula, LeLombard (França-Bélgica), Dupuis (França-Bélgica), Munhakdongne (Coréia), Coconino (Itália), NBM-Papercutz (EUA), SelfMadeHero (Reino Unido), entre outras.

As graphic novels publicadas pela Dupuis "Les Larmes De Seigneur Afghan", escrita por Pascale Bourgaoux e Vincent Zabus, e Macaroni!, também com roteiro de Zabus, receberam o prêmio Cognito como Melhor Documentário em Graphic Novel na Feira do Livro da Bélgica em Bruxelas em 2014 e 2016, respectivamente.

Em 2014, Thomas recebeu o Prêmio Comic de Ouro do International Spectrum Fantastic Art 21 e em 2015 também foi reconhecido com um Prêmio Ledger de Bronze na Austrália.

Sua última exposição individual foi “Les Petites Gens” no Comic Strip Museum de Bruxelas, na Bélgica. Sua graphic anterior “Magritte-Ceci n'est pas une biographie" de Vincent Zabus, foi publicado em francês pela editora Le Lombard com o apoio do Museu Magritte (Bruxelas, Bélgica) e foi traduzida em italiano (Coconino Press), alemão (Carlssen) e inglês (SelfMadeHero).

A graphic novel "Joe Shuster" escrita por Julian Voloj e desenhada por Campi, recebeu o prêmio Carlos Gimenez na categoria "Melhor Trabalho Internacional" anunciado na Heroes Comic Com em Madrid. "Joe Shuster" já publicada em 7 línguas diferentes em 8 países distintos.

Atualmente, ele está desenhando a graphic novel “L'Eveile” (O Despertar) novamente em  parceria com Vincent Zabus que será publicado pela Delcourt
Super-Homem.COM

Como surgiu a ideia para Joe Shuster?

Essa é para o Julian, acho eu.




Você é fã do Super-Homem?

Eu nunca fui um grande fã de super-heróis, apesar de ter visto muitos dos filmes. Eu sempre estive mais interessado em histórias sobre pessoas normais, mais intimista se você quiser.


Siegel e Shuster foram os fanboys originais, você se identifica com eles?


Sim, absolutamente Eu era como eles. Eu ainda estou. Uma pessoa com um "fogo" por dentro, a paixão por histórias em quadrinhos, por arte e contar histórias, é tudo que eu queria fazer e é tudo o que quero fazer. Minha criança interior ainda está muito viva!

Eu sou um artista profissional há cerca de 20 anos, e quando vejo alguns dos meus artistas favoritos e tenho a chance de conversar com eles, eu me comporto como um fanboy, só quero fazer todas as perguntas que eu sempre quis e, claro, quero pedir um esboço.


A história trata de um período bem específico da vida de Joe Shuster, da adolescência até o ano de 1975, quando os créditos do Super-Homem voltaram para eles. Por que você escolheu esta época da longa vida dele?


Esta é mais para o Julian.


A maioria dos livros sobre criação do Super-Homem se concentra principalmente em Siegel, seu livro tenta uma nova maneira de olhar, da perspectiva de Shuster. Você pode falar sobre essa decisão e as dificuldades em pesquisar sua vida, especialmente entre 1948 e 1975?

Do meu ponto de vista, a dificuldade era encontrar uma maneira de desenhar e representar Siegel e Shuster, já que eu não conseguia encontrar as fotos de todas as fases de suas vidas. Eu tive que criar minha própria versão deles, inspirada pelas fotos e alguns vídeos que eu tinha. Meu foco não era fazer retratos, com rostos realistas, mas traduzir nos desenhos todas as emoções e a atmosfera daqueles velhos tempos.


A quantidade de tempo e trabalho dedicados à pesquisa é claramente notável! É possível ver grandes influências de livros como "Superboys" de Brad Ricca, a Biografia do Larry Tye, até mesmo “Homens do Amanhã” de Gerard Jones. Por quanto tempo você pesquisou antes mesmo de começar o livro? Alguma outra referência principal?

Outra para o Julian.



Você teve a chance de viajar para os locais apresentados no livro? Cleveland? Nova Iorque? Toronto? Você trabalhou apenas em fotografias e poucas imagens disponíveis daquela época?

Infelizmente, eu tive que trabalhar apenas com referência a fotos, mas fiz o meu melhor. Para essas cidades, foi muito fácil encontrar boas fotos, desenhos e vídeos. Mais uma vez, meu foco não foi apenas desenhar todos os detalhes e visões fotográficas das cidades, mas quero dar ao leitor a impressão de um certo tempo, atmosfera e humor.

Somente quando o livro já estava publicado nos EUA, tive a chance de ir a Nova York e finalmente visitei alguns dos lugares que desenhei no livro, foi muito emocionante.



Como foi o processo de trabalho entre vocês dois neste livro? Vocês tiveram um roteiro completo antes de começar? Ou vocês trabalharam em uma versão inicial foram colaborando juntos?

O processo para "Joe Shuster" foi um pouco diferente de todos os quadrinhos que eu já fiz antes. Uma das razões é que eu e Julian moramos em fusos horários diferentes. Eu estou em Sydney enquanto ele está em Nova York, o que dificulta ter conversas telefônicas ou pelo Skype frequentes em relação a roteiros e storyboards, algo que geralmente faço quando estou trabalhando com escritores.

A narração de Julian é cheia de emoção e baseada em uma pesquisa muito sólida, também é escrita em prosa sem especificação de painéis e número de páginas. Ele confiava em minhas habilidades de contar histórias, o que trouxe uma liberdade inspiradora à minha criatividade e à maneira como eu queria contar essa história. Comecei a ler e editar o roteiro durante as noites e fins de semana, pois na época em que o recebi estava trabalhando em outro livro.

Enquanto lia as páginas, comecei a pensar em como eu queria dar à história e aos meus desenhos seu próprio ritmo, então dividi o roteiro de Julian em painéis e acrescentei notas e descrições de como imaginei uma cena. Eu não queria definir tudo com uma linha, nem mesmo nos primeiros passos da criação da página, é por isso que depois de esboçar os storyboards eu simplesmente os pintei sem desenhar, tentando dar uma sensação mais pictórica à final. página, algo que poderia sugerir um determinado humor, descrever um momento sem usar muitos detalhes que poderiam ter preenchido a página, mas não adicionando qualquer emoção.

Entrevista conduzida por Fabio Marques para o site Super-Homem.COM  (3/12/2018).
Leia também a entrevista exclusiva com o escritor Julian Voloj.


Jerry Siegel e Joe Shuster, em West Los Angeles, Califórnia, Janeiro de 1979

A História de Joe Shuster: O Artista por trás do Superman

de Julian Voloj e Thomas Scampi
Editora Aleph, 25 de outubro de 2018
Tradução de Marcia Men
ISBN 978-8576574200
http://www.editoraaleph.com.br/