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quinta-feira, março 26, 2026

As Melhores Histórias de Quadrinhos do Super-Homem: "Must There be a Superman?"

 

As Melhores Histórias de Quadrinhos do Super-Homem

"Must There be a Superman?"
Superman vol. 1 #247 (Janeiro de 1972)

Escrita por Elliot S! Maggin
Desenhada por Curt Swan
Finalizada por Murphy Anderson
Letras por John Costanza
Editada por Julie Schwartz
Capa por Curt Swan e Murphy Anderson

Publicada no Brasil em:
Superman Série 4 #5 (EBAL, Janeiro de 1973)
Coleção DC 70 Anos #1 (Panini, Maio de 2008)
Coleção DC 75 Anos #3 (Panini, Janeiro de 2011)
Superman Antologia (Panini, November de 2020)


“Must There be a Superman?”
não é apenas mais uma pergunta. Não é apenas o nome de mais uma história publicada do Super-Homem nos anos 70. Superman vol.1 #247 é a estreia de Elliot S! Maggin nesse personagem, que ele revolucionaria. A história é um ponto de inflexão silencioso e profundo, que mudou o Homem de Aço para sempre. É um daqueles momentos em que um personagem aparentemente imutável é forçado a se olhar no espelho e, por um instante raro, hesitar. Desenhada por Curt Swan e finalizada por Murphy Anderson, a edição sintetiza uma mudança profunda que estava acontecendo não apenas nos quadrinhos, mas na própria cultura americana do início dos anos 1970.

Estamos falando de um período marcado pela Guerra do Vietnã, pelo desgaste moral do governo de Richard Nixon, pela erosão da confiança nas instituições e pelo avanço da contracultura. O otimismo simplista da Era de Prata já não era mais suficiente. A América começava a duvidar de si mesma, e inevitavelmente seus heróis também precisavam mudar. E o Super-Homem, símbolo máximo de certeza moral, não podia mais ser apenas o salvador infalível. Ele precisava confrontar uma pergunta incômoda: até que ponto ajudar é também impedir o crescimento?

Esse deslocamento editorial coincide com o fim da Era de Prata e o início da Era de Bronze, um momento de transição dentro da própria DC Comics. A saída de Jack Kirby da Marvel Comics e sua chegada à DC, iniciando o Quarto Mundo em Superman’s Pal, Jimmy Olsen #133 (1970), introduz uma energia nova, mais mítica, mais ambiciosa, mas também mais conectada com temas de poder, opressão e liberdade. Paralelamente, a aposentadoria de Mort Weisinger encerra uma era de controle editorial rígido sobre o personagem criado por Jerry Siegel e Joe Shuster, mais de 30 anos antes. Em seu lugar, Julius Schwartz assume e promove uma renovação, trazendo Denny O'Neil, Cary Bates e, crucialmente, Maggin. Não é apenas uma troca de nomes, é uma mudança de mentalidade. O veterano Schwartz traz sangue novo e jovem para revolucionar o mais antigo de todos os super-heróis.

Elliot S! Maggin não era um roteirista convencional de quadrinhos. Jovem, politicamente ativo, intelectualmente inquieto, com formação superior e acadêmica em literatura e com forte inclinação filosófica, ele trouxe ao Super-Homem uma densidade que o personagem raramente havia experimentado. De origem judaica, Maggin carrega consigo uma tradição cultural profundamente ligada a debates éticos, responsabilidade moral e justiça social. Politicamente alinhado e filiado ao Partido Democrata, ele não apenas escrevia sobre ideais, ele os vivia, chegando a se candidatar a cargos públicos em New Hampshire e New York. Essa formação não é um detalhe biográfico irrelevante; ela transborda diretamente para suas histórias. O último filho de Krypton de Maggin não é apenas um herói, ele é um dilema filosófico ambulante, uma figura que precisa constantemente justificar sua própria existência em um mundo que já não aceita respostas simples.

Visualmente, essa complexidade encontra sua tradução perfeita na arte de Curt Swan, talvez o mais definitivo de todos os desenhistas do Super-Homem. Swan não era um artista de excessos ou estilizações radicais. Seu traço era clássico, limpo, equilibrado, mas profundamente humano. Seus personagens têm peso, têm presença, têm uma fisicalidade que ancora até as situações mais fantásticas. E quando essa base é finalizada por Murphy Anderson, formando o lendário “Swanderson”, o resultado é quase ideal. Anderson acrescenta precisão, elegância e clareza, refinando o traço de Swan sem nunca o sufocar. Juntos, eles criam um Super-Homem que não é apenas icônico, é crível. E isso é essencial para uma história que depende menos de ação e mais de introspecção.

No centro da edição está um momento definidor. A fala do Super-Homem: “You don’t need a Superman! What you really need is a super-will to be guardians of your own destiny!”, é mais do quer um discurso. É uma ruptura. Pela primeira vez, de forma explícita, o personagem reconhece que sua própria existência pode ser um problema. Há aqui uma camada política evidente: em plena era de intervenção americana ao redor do mundo, a ideia de um salvador externo que resolve crises alheias ganha um tom ambíguo, quase crítico. Mas há também uma dimensão filosófica e até teológica. O Super-Homem, tradicionalmente visto como uma figura messiânica, recusa esse papel. Ele não quer ser um deus. Ele rejeita a dependência. Em termos quase existencialistas, ele afirma que o verdadeiro sentido da humanidade está na autonomia, na responsabilidade individual e coletiva.

Essa ideia, de que o herói deve se conter e permitir que os humanos enfrentem seus próprios desafios, é profundamente radical para a época. E, de forma quase inacreditável, nasce também de uma contribuição externa ao próprio meio profissional: um jovem Jeph Loeb, ainda criança, teria sugerido a Elliot S! Maggin a premissa que daria origem à história. Esse detalhe não é apenas uma curiosidade, ele é revelador. Porque mostra como a pergunta central da edição, “e se o Superman estiver fazendo demais?”, não vem de um cinismo adulto ou de uma desconstrução posterior, mas de uma intuição quase pura sobre responsabilidade e autonomia. Décadas depois, o próprio Loeb retornaria ao personagem já como escritor profissional, e essa semente conceitual ecoa de forma mais ampla em obras como Kingdom Come, de Mark Waid e Alex Ross, onde o Super-Homem novamente confronta os limites de sua intervenção em um mundo que precisa caminhar sozinho. O Super-Homem não pode ser uma figura paternalista para humanidade. A tensão entre poder e responsabilidade, entre agir e permitir, entre salvar e deixar crescer, já está toda aqui, em janeiro de 1972, e em parte nasce da pergunta simples de um garoto que enxergou o problema antes de muitos adultos.

A história parte de um enredo aparentemente simples, mas profundamente simbólico. Após salvar a terra ao desviar esporos alienígenas, o Super-Homem é levado pelos Guardiões do Universo até OA, onde não enfrenta um vilão, mas uma acusação. Sua presença constante na Terra estaria impedindo o desenvolvimento natural da humanidade, tornando-a dependente de sua intervenção.

A partir dessa premissa, o conflito se desloca do campo da ação para o da reflexão. O conflito não é físico, mas ético e filosófico. Kal-El revisita suas ações, observa como sua ajuda molda o comportamento humano e chega à conclusão central: ao resolver todos os problemas, ele pode estar, paradoxalmente, enfraquecendo aqueles que tenta proteger.

Ao final, a história não oferece uma solução simplista, mas uma mudança de postura. O Super-Homem decide conscientemente intervir menos, permitindo que a humanidade enfrente seus próprios desafios e desenvolva sua autonomia. É nesse ponto que a narrativa revela sua verdadeira importância: não se trata de um herói que salva o mundo, mas de um herói que aprende quando não a salvá-lo. Essa inversão redefine o papel do herói e antecipa discussões que se tornariam centrais nas décadas seguintes.

Ao ponderar sobre Maggin e sua influência no Super-Homem é falar muito sobre permanência, consistência e, acima de tudo, definição autoral em um personagem que historicamente passou por muitas mãos. Maggin permaneceu por mais de catorze anos contínuos escrevendo o personagem, de 1972 até 1986, tornando-se o principal arquiteto do personagem durante a Era de Bronze. Não se trata apenas de longevidade, mas de volume e impacto, nesse período foram 19 edições de Action Comics, 48 edições de Superman, 3 edições anuais do título e participações fundamentais em outras revistas da linha, como World’s Finest, The Superman Family, Justice League of America e DC Comics Presents. Nesse período, ele ajudou a deslocar o personagem de um modelo puramente reativo e fantástico para algo mais reflexivo, mais político, de relevância social óbvia, mais humano e, paradoxalmente, mais universal.

Se o Super-Homem criado por Jerry Siegel e Joe Shuster carregava, nos anos 30 e 40, uma pulsão quase socialista, enfrentando desigualdades e abusos de poder com um ímpeto direto e popular, as décadas de 50 e 60, nas mãos de Mort Weisinger o transformaram em algo mais domesticado, alinhado a um ideal de estabilidade que dialogava com o espírito do New Deal e, gradualmente, com uma postura mais conservadora, quase republicana, refletindo o clima da Guerra Fria e da ordem estabelecida. É com Elliot S! Maggin que o personagem é reposicionado não como instrumento do status quo, mas como agente de consciência. Maggin não retorna exatamente ao radicalismo original, mas encontra um ponto de equilíbrio ideológico mais sofisticado, um herói que acredita em justiça social, responsabilidade coletiva e autonomia individual. Em termos contemporâneos, é um Super-Homem social-democrata, alguém que não governa, mas que lidera, que não impõe, mas também não se omite diante das estruturas que produzem desigualdade, recolocando o personagem, de forma clara, do lado certo da história.

Editorialmente talvez seu gesto mais significativo tenha sido levar o Super-Homem para muito além dos quadrinhos. Com os romances Last Son of Krypton (1978) e Miracle Monday (1981), ambos publicados pela Warner Books e best-sellers à época, Maggin não apenas expandiu o mito, como também consolidou uma abordagem literária do personagem, aprofundando sua psicologia e estabelecendo elementos duradouros, como a própria ideia do “Miracle Monday”. Décadas depois, ele retornaria ao universo com o romance Kingdom Come (1998), uma novelização da minissérie em quadrinhos que dialoga diretamente com os temas que ele próprio ajudou a plantar nos anos 70, e mais recentemente com LexCorp (2024), já em um contexto completamente diferente da indústria, mas ainda orbitando as mesmas questões de poder, responsabilidade e moralidade. O que Maggin construiu ao longo dessas décadas não foi apenas uma fase produtiva, mas um corpo coeso de pensamento sobre o Homem de Aço, algo raro em um personagem serializado, onde a continuidade costuma diluir autoria.

No romance de Last Son of Krypton (1978), publicado a sombra do marketing brutal do filme de Richard Donner, Maggin ultrapassa os limites do formato mensal e trata o herói kryptoniano como literatura de primeira linha, o romance não é apenas uma adaptação expandida do personagem, mas uma consolidação de sua visão autoral: um Super-Homem pensante, filosófico, profundamente consciente de seu papel no mundo. O livro foi best-seller, e mais importante, foi legitimador. Ele mostrou que o personagem podia existir fora do circuito dos quadrinhos sem perder densidade, sem simplificação. Maggin estrutura o mito com uma lógica interna mais sofisticada, trabalha melhor a dualidade Clark/Kal-El e reforça a ideia do herói como figura moral, não apenas física. É, em muitos sentidos, o blueprint do Super-Homem moderno, que nasceu seis anos antes em “Must There Be a Superman?” especialmente no que diz respeito à interioridade do personagem.

Essa abordagem não ficou restrita às mídias de papel. Durante o desenvolvimento de Superman: The Movie (1978), o editor Julie Schwartz e a presidente da DC Jenette Kahn escalaram Maggin para atuar nos bastidores suportando o escritor Mario Puzo, autor de The Godfather, na construção do roteiro para os produtores Alexander e Ilya Salkind. Essa colaboração é frequentemente subestimada, mas é crucial. Puzo, que não entendia coisa alguma sobre quadrinhos, trouxe a estrutura épica, mas foi Maggin que trouxe o entendimento do personagem. A ideia de tratar Super-Homem com seriedade, com peso quase mítico, dialoga diretamente com o que Maggin já vinha fazendo nos quadrinhos. O super-herói do cinema, interpretado por Christopher Reeve, deve muito mais a Maggin do que normalmente se reconhece, especialmente na construção de um herói que inspira não pela força, mas pela integridade moral.

Ainda no cinema recente, ecos da influência de Maggin podem ser vistos no roteiro do filme Batman v Superman: Dawn of Justice, escrito pelo vencedor do Oscar Chris Terrio e David S. Goyer, dirigido por Zack Snyder, onde o Homem de Aço também é confrontado com a ideia de que suas ações têm consequências globais, políticas e morais, e que talvez ele não devesse agir, e que suas ações podem aleijar o amadurecimento da humanidade. No controverso filme de 2016, discussão é aberta por Charlie Rose, fazendo a si próprio, que entrevista a Senadora Finch, interpretada pela vencedora do Oscar Holly Hunter. Rose pergunta: “Must There be a Superman?” e a senadora democrata do Kentucky responde: “There is.”

Dentro dos quadrinhos, essa mesma maturidade se manifestaria em outras histórias fundamentais escritas por Maggin como por exemplo a edição Superman #400, com arte feita por inúmeros gênios da nona arte: Steranko, Jack Kirby, John Byrne, Howard Chaykin, Steve Ditko, Brian Bolland, Al Williamson, Jack Davis, Frank Miller, Walter Simonson, Bernie Wrightson, Will Eisner, Klaus Janson, Moebius, Bill Sienkiewicz, entre tantos outros, uma edição comemorativa, com introdução do lendário Ray Bradbury, que funciona quase como um manifesto sobre o significado do personagem ao longo do tempo. Ali, o Super-Homem não é apenas um herói, mas um símbolo que atravessa gerações, reinterpretado em múltiplos futuros possíveis. Essa visão é complementada pelo romance Miracle Monday, talvez a obra mais pessoal de Maggin. Nele, o autor cria um feriado fictício que ninguém lembra conscientemente, mas que todos celebram inconscientemente, ligado a um sacrifício do Super-Homem que ressoa em um nível quase espiritual. É uma ideia profundamente teológica, quase mística, que reforça o herói como um arquétipo de esperança e da redenção, mas sem nunca o reduzir a uma figura divina paternalista e simplista. É uma das interpretações mais sofisticadas do personagem já feitas fora dos quadrinhos.

A influência de Maggin se estendeu muito além de sua própria produção. Sua leitura do Homem de Aço como ideia moral e não apenas heroica ecoa diretamente em obras posteriores. Elementos conceituais podem ser percebidos em Superman #300, que inspiraria décadas depois Superman: Red Son de Mark Millar, ao explorar o impacto do contexto político e moral na formação do herói. Como já exposto, a problemática levantada em Superman #247 reverbera claramente em Kingdom Come, de Mark Waid e Alex Ross, ao discutir o papel de liderança do personagem em um mundo que já não o compreende. Sua influência direta também passa por conexões menos óbvias, como o fato de ter sido o primeiro editor da dupla Jeph Loeb e Tim Sale, quando estrearam juntos em Challengers of the Unknown (1991), uma relação que, indiretamente, ajuda a moldar obras seminais como Superman For All Seasons (1998). E, finalmente, sua abordagem mais humana e introspectiva do personagem é perceptível em Superman: Birthright, obra-prima de Mark Waid, que retoma elementos estruturais e emocionais já trabalhados por Maggin em Last Son of Krypton e Miracle Monday.

As histórias de Elliot S! Maggin foram fundamentais para amadurecer o Super-Homem na Era de Bronze. Ele não desconstrói o personagem, isso viria acontecer depois, a partir de 1985, com Alan Moore, Frank Miller, Grant Morrison, John Byrne e outros, mas Maggin o problematizou primeiro. Ele introduziu dúvida onde antes havia certeza. Ele transformou o Super-Homem de resposta em pergunta. Esse pioneirismo é sem dúvida o maior valor de “Must There be a Superman” publicada em Superman vol. 1 #247. Não é uma história de ação memorável. Não é uma saga épica. Não tem supervilão a ser vencido. É algo bem mais raro, uma história em que o Super-Homem para e pensa. Em que ele reconhece seus limites não físicos, mas morais. Em que ele entende que salvar o mundo não é apenas impedir desastres, mas também saber quando não agir. Antes que os anos 80 viessem desmontar os super-heróis, Maggin já havia feito algo mais sutil, e mais importante. Ele os fez crescer.

por Fabio Marques (26/3/2026)

terça-feira, fevereiro 18, 2020

As Melhores Histórias de Quadrinhos do Super-Homem: A Morte do Super-Homem

As Melhores Histórias de Quadrinhos do Super-Homem

The Death of Superman
"The Death of Superman"
Superman vol. 1 #149 (Novembro de 1961)

Escrita por Jerry Siegel
Desenhada por Curt Swan
Finalizada por George Klein
Letras por Ira Schnapp
Editada por Mort Weisinger
Capa por Curt Swan e George Klein
Editor Executivo Whitney Ellsworth

Publicada no Brasil em:
Superman BI 1ª Série #32 (EBAL, Julho de 1970)
Coleção Invictus #17 (Nova Sampa, Março de 1995)
Superman Antologia (Panini Comics, Novembro de 2020)

O que aconteceria se o co-criador do Super-Homem escrevesse a derradeira história do Homem de Aço. E no final das contas essa é a premissa de “The Death of Superman” escrita por ninguém mais, ninguém menos que o próprio Jerry Siegel. Depois de ter processado a National Publications em 1948, Siegel e Shuster perderam seu contrato de exclusividade que tinham desde 1938 e deixaram o Super-Homem para nunca mais voltar...

Até que, 11 anos depois, Joanne Siegel, antiga namorada de Joe, esposa de Jerry e modelo original da Lois Lane, telefonou para o editor do Super-Homem Mort Weisinger e exigiu que Mort desse uma oportunidade para seu marido voltar a escrever quadrinhos na DC. Weisinger permitiu que ele voltasse a escrever histórias, mesmo do Homem de Aço, com a condição que ele recebesse o mesmo valor por página que qualquer outro escritor freelancer e que nunca mais voltasse a falar sobre os direitos autorais do personagem kryptoniano. Durante essa fase anônima, onde ele não creditado como autor das histórias, Siegel novamente revolucionou seu personagem.

Publicada na título mensal do herói em novembro de 1961, Jerry dividiu a história em três partes, nela ele visita ínumeros os mitos e personagens do Homem de Aço, alguns criados por ele e Shuster, outros criados durante sua ausência. Mas principalmente, nessa história imaginária, ele transforma Lex Luthor no mais brutal e maquiavélico vilão dos quadrinhos. Luthor cria um plano final, sagaz e diabólico, para eliminar seu arqui-inimigo definitivamente. E tem sucesso, no fim da história o Super-Homem morre e continuo morto. E diferente de qualquer outro vilão de quadrinhos, filmes ou séries, Luthor não faz um grande monólogo para contar seu plano. Ele se aproveita da bondade e ingenuidade do Super-Homem para atraí-lo e traí-lo. E finalmente quando ele aniquila o Homem de Aço com uma dose mortal de kryptonita, além de ficar ao lado do corpo esverdeado e moribundo, ele força de forma sádica que os melhores amigos do herói: Lois, Jimmy e Perry; vejam a morte em pessoa e ao fim, numa frieza brutal, ele verifica clinicamente que o kryptoniano está morto e comemora a vitória na frente de todos. Mesmo a capa original da revista é pesada para os dias de hoje. Só se pode imaginar como o Comics Code Authority aprovou uma capa tão mórbida.

O texto de Siegel, como sempre, é simples e cadenciado mantendo o leitor preso a narrativa até o final revelador e surpreendentemente arrepiante, a construção da história é típica do auge da Era de Prata, principalmente para uma história imaginária, mas devido ao tema que explora, essa narrativa é especialmente emotiva e intensamente madura para uma história da fase editada por Weisinger, é patente que Siegel definitivamente queria matar o Super-Homem, talvez devido aos vários anos de ostracismo profissional que ele vivia. Talvez fosse mágoa por tudo que Donenfeld e Liebowitz tinha feito ele passar. Talvez fosse a tristeza de ter visto seu personagem ter sido tirado de suas mãos.

Para acompanhar o texto de Siegel, Weisinger acertadamente escalou o principal artista da editora, Curt Swan. Nada tão perfeito poderia ter aconteceido, o lendário desenhista do Super-Homem, que fez o personagem por 30 anos praticamente ininterruptos, entrega uma obra-prima visual. É possível sentir toda a carga emocional nas linhas clássicas de Swan. E apesar de melodramática, a arte é leve, perfeita e bonita, George Klein capricha na arte-final e evita sair do traço original de Swan, mantendo o estilo clássico e icônico do artista.

E uma pena que no Brasil, que essa história só tenha sido republicada por aqui em preto-e-branco tanto pela EBAL em maio de 1970 quanto na última vez pela Nova Sampa na Coleção Invictus #17 no longíquo março de 1995. Nos EUA, a DC Comics já a republicou sete vezes com especial destaque nos encadernados de aniversário de 50 anos e 75 anos do personagem celebrando as melhores histórias do Super-Homem de todos os tempos.

Sendo a primeira vez que o Super-Homem morre nos quadrinhos é interessante reparar como essa história influenciou as sagas gigantes dos anos 90: Morte do Super-Homem, Funeral para um Amigo e Retorno do Super-Homem. Ao "matar" o Super-Homem em 1992, o editor Mike Carlin e sua turma de artistas e escritores liderados por Dan Jurgens claramente trouxeram inúmeras referências, idéias e homenagens dessa história original de Jerry Siegel.

por Fabio Marques (17/02/2020)

Superman #149 (DC Comics, November 1961)
Superman #149
"The Death of Superman"
DC Comics, November 1961



domingo, novembro 20, 2011

A Vida do Super-Homem, EBAL, Outubro de 1983


A VIDA DO SUPER-HOMEM

EBAL, Rio de Janeiro, Outubro de 1983


DE KRYPTON À TERRA,
A ESPETACULAR SAGA DO MAIOR HERÓI DE OS TEMPOS!

EDIÇÃO COMEMORATIVA DOS 45 ANOS
DA PRIMEIRA APARIÇÃO DO SUPER-HOMEM


Diretor-Presidente: Adolfo Aizen
Diretor-Superinitendente: Paulo Adolfo Aizen
Diretor Editorial: Naumim Aizen
Diretor Industrial: Fernando Albagli
Tradução: Lúcia Machado
Supervisão Editorial: Otacílio d'Assunção Barros
Publicado no Brasil: Outubro de 1983

A VIDA DO SUPER-HOMEM foi publicada, no original,
na revista Action Comics, n.° 500, de oulubro de 1979



ACTION COMICS #500
DC COMICS, New York, October, 1979

"The Life of Superman"
Capa: Ross Andru e Dick Giordano
História: Martin Pasko
Desenhos: Curt Swan e Frank Chiaramonte
Cores: Adrianne Roy
Supervisão e Edição: Julius Schwartz

(C) 1983, DC Comics. Todos os direitos reservados.

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sexta-feira, fevereiro 13, 2009

Faster than a speeding bullet, more powerful than a locomotive, able to leap tall buildings in single bound...



O Maior de Todos

Há leitores que desdenham do Superman, mas é sempre bom lembrar que o gênero de super-heróis só existe porque ele foi criado. Confira nesta matéria a evolução do Homem de Aço nos quadrinhos

Por Fabio Alexandre Rocha Marques


A história do Superman, o primeiro e maior super-herói do mundo, começou bem antes de 1938, quando surgiu nas páginas de Action Comics 1. Fruto da imaginação de dois adolescentes judeus de Cleveland, o escritor Jerry Siegel e o artista Joe Shuster, ele foi criado em 1933 e teve um processo de desenvolvimento complicado e demorado.

Ainda no colegial, os autores publicavam um fanzine de contos de ficção científica chamado Science Fiction que era mimeografado e distribuído para os leitores pelo correio. No terceiro número, em janeiro de 1933, Siegel escreveu o conto The Reign of the Super-Man, sob o pseudônimo de Herbert S. Fine, ilustrado por Shuster. A história futurista lembrava 1984, de George Orwell, e era sobre um vilão careca com poderes mentais sobre-humanos que dominava uma cidade.

Inspirado até certo ponto pelos textos do filósofo alemão Friedrich Nietzsche, Siegel era fascinado pelo conceito de um ser com habilidades fantásticas. Ao final do mesmo ano, com a ajuda de seu amigo Shuster, o roteirista transpôs o personagem para a mídia que estava tomando os corações e mentes dos jovens norte-americanos: as histórias em quadrinhos.

Para isso, desenvolveram uma nova versão. O vilão careca foi abolido, pois Siegel e Shuster sabiam que não teria apelo suficiente. Então, bolaram uma HQ completa com um herói de cabelos negros e força sobre-humana: The Superman. Empolgados, levaram a criação para um editor, que recusou o trabalho na hora! Segundo ele, apesar do óbvio talento de ambos, o personagem era fantástico demais para ter sucesso.

Revoltado, Shuster destruiu toda a revista. Sobrou apenas a capa. Mesmo assim, ele e seu parceiro acreditavam que o personagem eventualmente poderia vingar. Dessa forma, partiram para uma outra reformulação e uma nova mídia: as tiras de jornais.

A versão final do Superman surgiu numa noite de 1934, quando Siegel, febril, acordou no meio da madrugada com novas idéias tão fantásticas e que surgiam em sua mente tão rapidamente, que ele não conseguia voltar para a cama. Então, ele escreveu material suficiente para várias semanas em tiras de jornais e as levou para Shuster, que no mesmo dia as desenhou. 24 horas depois estava tudo pronto. Faltava “apenas” convencer alguém a publicar.

Agora, o Superman era um ser de outro planeta. Siegel foi um dos primeiros a criar um alienígena benevolente. Outra característica distinta dessa nova versão foi uso de uma identidade secreta. Tímidos, porém criativos, os autores eram o estereótipo do fã de ficção científica: imaginavam que mesmo atrás de uma aparência pacata, poderiam ter habilidades e poderes maravilhosos. Por isso criaram Clark Kent, um tranqüilo repórter de jornal cujo nome homenageava dois astros de Hollywood, Clark Gable e Kent Taylor.

Ao desenhar um personagem tão espetacular, Shuster imaginou que as roupas usadas por acrobatas circenses, coladas ao corpo e com uma sunga sobre as calças, seriam futuristas e definiriam bem o corpo superdesenvolvido. Com a intenção de fazer o herói “pular” para fora das páginas dos jornais, o desenhista usou as cores primárias da impressão colorida (vermelho, azul, preto e amarelo) e acrescentou uma capa para expressar movimento e velocidade.

Nos meses e anos seguintes à sua criação, o Superman foi apresentado a praticamente todos os editores de jornais e syndicates dos Estados Unidos, e foi sempre recusado. Apesar disso, Shuster e Siegel conseguiram empregos para criar histórias em quadrinhos para uma editora de revistas, a National Comics (atual DC Comics).

Certo dia, em 1938, as tiras do Superman estavam sobre a mesa de Sheldon Mayer, editor do McClure Syndicate, empresa que distribuía tiras para vários jornais norte-americanos, que estava tentando convencer seu chefe Max Charles Gaines a publicar a criação de Shuster e Siegel em algum periódico. Então, Jack Liebowitz, dono da National telefonou para Gaines em busca de novos personagens para uma nova revista chamada Action Comics.

M.C. Gaines enviou as páginas do Superman para Vin Sullivan, editor da National, que achou o personagem diferente e resolveu lhe dar uma chance. As tiras totalizaram 13 páginas e foram publicadas na edição de estréia da Action Comics.

O sucesso foi estrondoso. Os 200 mil exemplares de tiragem se esgotaram nas bancas e milhares cartas de leitores chegaram aos escritórios da National. Os distribuidores ficaram sedentos por novas revistas. Rapidamente, os editores perceberam que tinham algo grande nas mãos e pagaram a mísera quantia de 130 dólares pela primeira história e pelos direitos do Superman. Siegel e Shuster aceitaram em troca de um contrato de trabalho e exclusividade por dez anos.

Após sete edições, a revista que deveria trazer HQs de ação com vários personagens passou a ser só do Superman. Logo, todas as editoras de quadrinhos dos EUA miraram no novo gênero. Nos anos seguintes, dezenas de seres superpoderosos pintaram nas bancas. A Fawcett Comics bolou o Capitão Marvel em 1940; e a própria National, para ampliar os negócios, encomendou ao artista Bob Kane um outro herói. E surgiu o Batman, com a ajuda do escritor Bill Finger.

O Superman ainda não era o personagem de hoje. Ele não voava, apenas dava saltos enormes sobre os prédios de Metrópolis, baseada na cidade do clássico mudo de Fritz Lang. Também não era um campeão do politicamente correto – em muitas das primeiras histórias, tratava os vilões de forma irresponsável e perigosa. Vários terminavam machucados e praticamente aleijados! Para Siegel e Shuster, era uma punição justa pelos crimes cometidos.

Apesar de o herói nunca ter matado ninguém nessa época, a editora decidiu que ele deveria ter uma conduta mais condizente com seus poderes incríveis. Para tal, escalou Whitney Ellsworth como editor do personagem. Siegel e Shuster foram proibidos de produzir histórias em que o Superman fizesse uso excessivo de sua força.

Nessa época, o herói ainda não tinha visões de raios-X ou de calor. Esses poderes só surgiram com a série de rádio que ganhou em 1940, na Mutual Network. Dos coadjuvantes conhecidos atualmente, apenas Lois Lane apareceu desde a primeira Action Comics. Ela e Clark trabalhavam no jornal metropolitano Daily Star para o editor George Taylor.

Jimmy Olsen, Perry White e o Planeta Diário também seriam criados nos episódios de dez minutos da série radiofônica. Até a kryptonita, fragmento do planeta Krypton que explodiu, utilizado de forma ostensiva na atual série Smallville, foi apenas um artifício usado pelos escritores do rádio para dar uma semana de folga ao ator Bud Collyer, que fazia a voz do Superman. Assim, após ser afetado pelo minério alienígena, o herói ficou sete dias sofrendo e gemendo para os ouvintes – tudo feito por outra pessoa, enquanto o astro principal curtia seu merecido descanso.


Siegel e Shuster indignados

Apesar de avessos a tantas alterações no seu personagem original, Siegel e Shuster acabaram adotando algumas idéias criadas no rádio ou na série animada criada pelos Estúdios Fleischer veiculada nos cinemas em 1941.

Durante a Segunda Guerra Mundial, enquanto o Superman aparecia lutando contra nazistas e japoneses nas capas das revistas (isso não aconteceu nas histórias), Siegel e Shuster foram chamados para servir a pátria. Durante esse período, a National escalou outros escritores e artistas (destaque para Wayne Boring) para fazerem as aventuras.

Assim, sem o aval dos seus criadores, em janeiro de 1945, a editora publicou na revista More Fun Comics 101, uma história sobre a juventude do Clark Kent e o surgimento do personagem conhecido como Superboy. Ao voltarem do front, Siegel e Shuster ficaram enfurecidos com a liberdade tomada pela National e a processaram.

Eles ganharam a lide e embolsaram dez mil dólares, além de receberem um pedido de desculpa. Mas permitiram que a editora continuasse a publicar histórias com o Superboy. Na concepção original de ambos, Clark Kent só teria decidido se tornar o Superman quando seus pais adotivos faleceram, ou seja, já adulto.

Em 1948, aproveitando o fim do contrato de exclusividade e ressentida, a National demitiu Siegel e Shuster e montou uma equipe chefiada por Whitney Ellsworth para criar novas histórias do Homem de Aço. Três anos depois, Ellsworth foi substituído por Mort Weisinger, para que pudesse desenvolver o Superman para a TV.

Fã inveterado de ficção científica, Weisinger é responsável pelas principais inovações no personagem desde sua criação. Praticamente sozinho, criou as várias cores da kryptonita (em várias cores), a Supergirl (prima do Superman vinda de Krypton), Krypto, o Supercão, os vilões de Krypton, a zona fantasma, a Fortaleza da Solidão e Metallo, além de transformar Lex Luthor no maior inimigo do herói.

Nesse período, o Superman desenvolve novas habilidades e sua gama de superpoderes cresce de modo incrível. No final dos anos 50, passa a ter visões telescópica, microscópica e infravermelha, supersopro e – pasme! – superventriloquismo! Sua velocidade também aumenta absurdamente: além de quebrar a barreira do som, ele poderia ir mais rápido que a luz e até quebrar a barreira do tempo! Surgem ainda outros sobreviventes de Krypton, como toda a cidade de Kandor, miniaturizada pelo andróide Brainiac.

Logo, os fãs da personagem começaram a questionar: “Se tanta gente sobreviveu à explosão, como Jor-El e Lara, os pais do Superman, não conseguiram?” Essas inconsistências podiam passar despercebidas ao leitor casual, mas não para os que acompanhavam todas as revistas. Assim, as vendas começam a cair.


A primeira reformulação

Para resolver o problema da queda de vendas, a National colocou o editor Julius Schwartz para substituir Mort Weisinger, que estava se aposentando. Em 1956, Schwartz revolucionara os quadrinhos da editora ao desenvolver o conceito de Terras Paralelas para corrigir certos problemas da cronologia dos personagens. Assim, ele respondia a perguntas do tipo: “Se Clark Kent se tornou o Superman apenas adulto, na década de 30, como pode ter sido o Superboy antes disso, como foi mostrado nas HQs dos anos 40 e 50?”

A explicação era “simples”: o Superman de 1938 era uma versão do herói da Terra-2; e o corrente era o da Terra-1. Isso provocou novas histórias imaginárias, como a Terra-3, onde todos os heróis eram vilões e o único combatente do mal era Lex Luthor. Nos anos 60, ao criar a Liga da Justiça juntando todos os grandes personagens em um único título, Schwartz recuperou as vendas da editora.

Logo que tomou posse, em 1971, Schwartz trouxe o escritor Denny O’Neil, que tinha remodelado a Mulher Maravilha em 1968, para reformular o Superman. Para o editor, as vendas estavam em queda porque o personagem era poderoso demais e nada podia vencê-lo.

Então, na nova versão do herói, apresentada em Superman 233, o Homem de Aço teve seus poderes cortados pela metade por uma explosão nuclear que também transformou todas as kryptonitas do planeta em ferro. Além disso, Denny O’Neil e seus companheiros, Cary Bates e Elliot S! Maggin escreveram histórias com um pano de fundo mais social e utópico, em que o Superman deixava de ser salvador do mundo para se tornar um exemplo para os humanos.

Mas outras mudanças estavam a caminho. Em 1985, ao completar 50 anos, a DC Comics decidiu fazer uma limpeza na casa e corrigir todos os problemas de cronologia que as várias Terras trouxeram. Após tanto tempo, o universo de seus personagens tinha se tornado um emaranhado de histórias imaginárias, e muitos leitores achavam as histórias da editora eram confusas demais. Ou seja, era impossível pegar o bonde andando.

Por isso, o escritor Marv Wolfman e o artista George Pérez desenvolveram a minissérie de doze partes Crise nas Infinitas Terras, na qual o cósmico Anti-Monitor passa a destruir todas as Terras existentes. Os super-heróis e vilões das várias realidades se juntam para salvar o multiverso e, no fim, vários morrem e só uma Terra sobrevive.

Assim, tudo que aconteceu nos 50 anos anteriores foi jogado fora e todos os personagens foram reformulados.

Para a última história do Superman antes da “recauchutagem”, Schwartz convocou o britânico Alan Moore e o desenhista Curt Swan. Na trama imaginária (e não são todas?) Whatever Happened to the Man of Tomorrow? (O que aconteceu ao Homem do Amanhã?), o roteirista narra o que aconteceria se o Homem de Aço tivesse de enfrentar todos os seus inimigos de uma vez. A aventura é considerada a melhor do personagem em todos os tempos.

Com os novos rumos, em 1986 a DC começou a reformulação de seus personagens. Batman foi recriado por Frank Miller; George Pérez deu à Mulher-Maravilha uma nova origem, mais ligada à mitologia greco-romana; Mike Baron mudou radicalmente o estilo do Flash etc. Enquanto isso, o artista britânico radicado no Canadá John Byrne ficou com a tarefa mais ingrata: remodelar o herói mais antigo e mais emblemático da editora.

Conhecido por seu radicalismo, Byrne não deixou por menos. Na minissérie The Man of Steel (publicado aqui na revista em formatinho Super-Homem, da Abril), deu vida a um Superman mais plausível, menos poderoso, com diversas explicações para seus poderes e origens.

Entre as principais mudanças implementadas estavam: o fim de todos os sobreviventes de Krypton, do Superboy e das kryptonitas coloridas; um Clark Kent mais importante que o Superman; o surgimento de um novo Luthor, agora não mais um supervilão obcecado em destruir o Homem de Aço e conquistar o mundo, mas um mega-empresário no estilo de Cidadão Kane; e uma nova Lois Lane, mais preocupada com suas matérias para o Planeta Diário do que em descobrir a identidade secreta do herói. Além disso, nessa nova versão os pais adotivos de Clark Kent não morreram e estão presentes na sua vida, para ajudá-lo e aconselhá-lo.

Nessa nova fase, ainda em 1986, o Superman encontra a nova versão do Bizarro (sua duplicata imperfeita), aprende sobre sua origem kryptoniana e define seu relacionamento com o Batman. Agora, eles possuíam formas diametralmente diferentes de combater o crime; não eram mais amigos, mas nutriam um respeito profundo mútuo.

Enquanto as primeiras histórias pós-Crise iam sendo contadas, notava-se que John Byrne tinha uma missão: ser inovador e diferente de tudo feito antes, mesmo que isso implicasse em modificar o personagem. Assim, em outubro de 1988, na sua última história como escritor, Byrne fez o Homem de Aço matar pela primeira vez em 50 anos.

O Superman se torna júri, juiz e carrasco de três kryptonianos liderados pelo General Zod. Muitos fãs de longa data se sentiram traídos ao ver seu ídolo maculado e as vendas caíram drasticamente.

Na tentativa de reverter o quadro, dois anos depois, o editor Mike Carlin decide mexer com a eterna namorada do Superman. Lois Lane é pedida em casamento por Clark Kent e aceita sem saber ainda que ele era o herói – o que ocorreria após dois meses. A manobra surtiu efeito, as vendas subiram, mas nada comparado com o que viria a seguir...

Em 1992, durante uma das reuniões entre Mike Carlin e seus artistas e escritores, alguém sugere, brincando, matar o personagem. O editor gosta da idéia e encarrega seu time de desenvolver a trama. Liderado por Dan Jurgens, o grupo cria o vilão Apocalypse (Doomsday, no original), uma máquina de matar que destrói tudo que vê pela frente.

A mídia especializada, especialmente a Wizard americana, abraça a idéia e o burburinho se torna enorme. Nos meses que precedem a história, a morte do Superman passa a ser o assunto do momento, sendo discutido por apresentadores de TV e pessoas que nunca leram um gibi.

Quando a revista Superman 75 chega ao mercado, a procura é tão grande, que esgota seis tiragens, totalizando mais de quatro milhões de exemplares. Obviamente, a morte não seria definitiva. E seis meses depois, o Homem de Aço volta, mas não antes de a DC lançar quatro Supermen: um afro-americano, um adolescente, um ciborgue e outro alienígena.

Em 1993, essa versão pós-Crise foi adaptada para a TV em As Novas Aventuras do Superman. Tentando atrair também o público feminino, a série fica no ar por quatro anos e, em outubro de 1996, exibe o casamento do casal de repórteres, na mesma semana em que a revista The Wedding of Superman (O Casamento do Super-Homem, Abril) chega às bancas americanas.

No mesmo ano, a DC Comics lança a minissérie O Reino do Amanhã, escrita por Mark Waid e pintada por Alex Ross, que mostra o futuro do Homem de Aço. A história narra o retorno dos super-heróis mais velhos para lutar com uma geração de jovens combatentes do crime violentos e inconseqüentes.

Esse resgate nostálgico dos personagens clássicas firma-se como uma tendência no final dos anos 90 e início do novo século. Tanto que, em 2001, a Warner Bros. lança a série de TV Smallville, focada na adolescência do Homem de Aço e que retoma dezenas de elementos dos quadrinhos do Superboy pré-Crise, como o fato de Lex Luthor e Clark Kent terem sido amigos na juventude.

O sucesso foi imediato e duradouro. Tanto que começou a influenciar as HQs. Por isso, em 2003, a DC Comics reformulou de novo a origem do Superman, acrescentando os elementos de Smallville, na minissérie Superman – O Legado das Estrelas escrita por Mark Waid e desenhada por Leinil Francis Yu. A obra mistura todas as origens do herói. Alguns fãs gostaram, outros odiaram, afinal, a confusão para os leitores foi grande.

Para completar esse retorno ao universo pré-Crise, em 2005, a DC Comics lançou a megassérie Infinite Crisis (sairá este ano no Brasil pela Panini), comemorando o 20º aniversário de Crise nas Infinitas Terras. E a história trará uma enorme surpresa para os fãs da velha guarda do Superman.

Perto de completar 70 anos, o Superman – seja nos quadrinhos, nos desenhos animados ou no cinema – segue como um verdadeiro ícone da cultura pop mundial. A luta sem fim pela verdade, justiça e o american-way continua...


Dez grandes artistas do Super

Desde 1938, o Superman foi retratado por centenas de bons desenhistas. Confira dez dos maiorais em todos os tempos. A ordem do ranking? Que cada um faça a sua!




Joe Shuster

Com um traço simples, mas poderoso, concebeu visualmente o Superman, dando início à Era de Ouro dos quadrinhos de super-heróis.



Wayne Boring

Maior e melhor! Boring deu mais força física ao herói, transformando-o num verdadeiro Homem de Aço. Seu traço era mais rebuscado.



Curt Swan

O desenhista definitivo do Homem de Aço. Passou mais de 35 anos fazendo o herói, praticamente sem mudar uma linha do seu traço.



Neal Adams

Maior capista do Superman, dono de um traço anatomicamente perfeito, tornou o personagem verossímil.



Jack Kirby

Quando o Rei chegou à DC, em 1970, deu nova vida às HQs do Superman, criando Darkseid, os Novos Deuses e o conceito do Quarto Mundo.



José Luis García-López

Sucessor natural de Swan e Adams, a partir dos anos 70 foi responsável por toda arte para merchandising do Superman e do Universo DC.



John Byrne

Reformulou o personagem, recriando suas origens e remetendo-o de volta ao original de Siegel e Shuster, sempre com um traço marcante.



Dan Jurgens

Nos anos 90, Jurgens foi o responsável pela morte da Superman, pela saga do Superman Elétrico e pelo casamento do herói.



Alex Ross

Pintor hiper-realista, Ross, no final dos anos 90, fez um Superman tão realista que o personagem parecia estar vivo.



Jim Lee

Aclamado pelos fãs de quadrinhos, levou a revista mensal do Superman novamente ao topo das vendas no mercado norte-americano.


Muito além das páginas

Em tantos anos de combate ao crime, o Homem de Aço alçou vôos que o tiraram das páginas dos gibis e o levaram a várias outras mídias, como você confere abaixo.

Ano

Original

Descrição

Versão Brasileira

1940 a 1951

The Adventures of Superman

Série de rádio produzida pela Mutual/ABC/Columbia

1941 a 1942

Superman

 

Série animada de cinema produzida por Max Fleischer

Super-Homem

1948

Superman

Seriado de cinema produzido pela Columbia Pictures

Super-Homem

1950

Superman vs. Krypto-Man

Seriado de cinema produzido pela Columbia Pictures

O Homem-Atômico contra o Super-Homem

1951

Superman and the Mole Men

Longa-Metragem

Super-Homem e os Homens-Toupeiras

1953 a 1957

The Adventures of Superman

Série de TV

As Aventuras do Super-Homem

1966

It's a Bird, It's a Plane, It's Superman

Musical na Broadway

1966

The New Adventures of Superman

Série animada de TV produzida pela Filmation

As Novas Aventuras do Super-Homem

1973 a 1986

Super-Friends

Série animada de TV produzida pela Hanna-Barbera

Super-Amigos

1978

Superman: The Movie

Longa-Metragem

Superman: O Filme

1980

Superman II

Longa-Metragem

Superman II: A Aventura Continua

1983

Superman III

Longa-Metragem

Superman III

1987

Superman IV: The Quest for Peace

Longa-Metragem

Superman IV: Em Busca da Paz

1988

Superman

Série animada de TV produzida pela Ruby-Spears

Super-Homem

1988 a 1992

Superboy

Seriado de TV

Superboy

1993 a 1996

Lois & Clark: The New Adventures of Superman

Seriado de TV

As Novas Aventuras do Superman

1996 a 2000

Superman: The Animated Series

Série animada de TV produzida por Bruce Timm

Superman: A Série Animada

A partir de 2001

Smallville

Seriado de TV

Smallville: As Aventuras do Superboy

A partir de 2001

Justice League

Série animada de TV produzida por Bruce Timm

Liga da Justiça

A partir de 2005

Krypto the Superdog

Série animada de TV produzida pela Warner Bros.

Krypto, o Supercão

2006

Superman Returns

Longa-Metragem

Superman: O Retorno

Fabio Alexandre Rocha Marques é um dos mais ardorosos fãs brasileiros do Homem do Aço, mas como seus cabelos estão indo embora, está mais parecido com Lex Luthor. Sorte dele que já achou sua "Miriam Lane". 


Ensaio publicado originalmente na revista Wizard Brasil #31 pela Panini Comics Brasil editada por Sidney Gusman em abril de 2006.