quinta-feira, março 26, 2026

As Melhores Histórias de Quadrinhos do Super-Homem: "Must There be a Superman?"

 

As Melhores Histórias de Quadrinhos do Super-Homem

"Must There be a Superman?"
Superman vol. 1 #247 (Janeiro de 1972)

Escrita por Elliot S! Maggin
Desenhada por Curt Swan
Finalizada por Murphy Anderson
Letras por John Costanza
Editada por Julie Schwartz
Capa por Curt Swan e Murphy Anderson

Publicada no Brasil em:
Superman Série 4 #5 (EBAL, Janeiro de 1973)
Coleção DC 70 Anos #1 (Panini, Maio de 2008)
Coleção DC 75 Anos #3 (Panini, Janeiro de 2011)
Superman Antologia (Panini, November de 2020)


“Must There be a Superman?”
não é apenas mais uma pergunta. Não é apenas o nome de mais uma história publicada do Super-Homem nos anos 70. Superman vol.1 #247 é a estreia de Elliot S! Maggin nesse personagem, que ele revolucionaria. A história é um ponto de inflexão silencioso e profundo, que mudou o Homem de Aço para sempre. É um daqueles momentos em que um personagem aparentemente imutável é forçado a se olhar no espelho e, por um instante raro, hesitar. Desenhada por Curt Swan e finalizada por Murphy Anderson, a edição sintetiza uma mudança profunda que estava acontecendo não apenas nos quadrinhos, mas na própria cultura americana do início dos anos 1970.

Estamos falando de um período marcado pela Guerra do Vietnã, pelo desgaste moral do governo de Richard Nixon, pela erosão da confiança nas instituições e pelo avanço da contracultura. O otimismo simplista da Era de Prata já não era mais suficiente. A América começava a duvidar de si mesma, e inevitavelmente seus heróis também precisavam mudar. E o Super-Homem, símbolo máximo de certeza moral, não podia mais ser apenas o salvador infalível. Ele precisava confrontar uma pergunta incômoda: até que ponto ajudar é também impedir o crescimento?

Esse deslocamento editorial coincide com o fim da Era de Prata e o início da Era de Bronze, um momento de transição dentro da própria DC Comics. A saída de Jack Kirby da Marvel Comics e sua chegada à DC, iniciando o Quarto Mundo em Superman’s Pal, Jimmy Olsen #133 (1970), introduz uma energia nova, mais mítica, mais ambiciosa, mas também mais conectada com temas de poder, opressão e liberdade. Paralelamente, a aposentadoria de Mort Weisinger encerra uma era de controle editorial rígido sobre o personagem criado por Jerry Siegel e Joe Shuster, mais de 30 anos antes. Em seu lugar, Julius Schwartz assume e promove uma renovação, trazendo Denny O'Neil, Cary Bates e, crucialmente, Maggin. Não é apenas uma troca de nomes, é uma mudança de mentalidade. O veterano Schwartz traz sangue novo e jovem para revolucionar o mais antigo de todos os super-heróis.

Elliot S! Maggin não era um roteirista convencional de quadrinhos. Jovem, politicamente ativo, intelectualmente inquieto, com formação superior e acadêmica em literatura e com forte inclinação filosófica, ele trouxe ao Super-Homem uma densidade que o personagem raramente havia experimentado. De origem judaica, Maggin carrega consigo uma tradição cultural profundamente ligada a debates éticos, responsabilidade moral e justiça social. Politicamente alinhado e filiado ao Partido Democrata, ele não apenas escrevia sobre ideais, ele os vivia, chegando a se candidatar a cargos públicos em New Hampshire e New York. Essa formação não é um detalhe biográfico irrelevante; ela transborda diretamente para suas histórias. O último filho de Krypton de Maggin não é apenas um herói, ele é um dilema filosófico ambulante, uma figura que precisa constantemente justificar sua própria existência em um mundo que já não aceita respostas simples.

Visualmente, essa complexidade encontra sua tradução perfeita na arte de Curt Swan, talvez o mais definitivo de todos os desenhistas do Super-Homem. Swan não era um artista de excessos ou estilizações radicais. Seu traço era clássico, limpo, equilibrado, mas profundamente humano. Seus personagens têm peso, têm presença, têm uma fisicalidade que ancora até as situações mais fantásticas. E quando essa base é finalizada por Murphy Anderson, formando o lendário “Swanderson”, o resultado é quase ideal. Anderson acrescenta precisão, elegância e clareza, refinando o traço de Swan sem nunca o sufocar. Juntos, eles criam um Super-Homem que não é apenas icônico, é crível. E isso é essencial para uma história que depende menos de ação e mais de introspecção.

No centro da edição está um momento definidor. A fala do Super-Homem: “You don’t need a Superman! What you really need is a super-will to be guardians of your own destiny!”, é mais do quer um discurso. É uma ruptura. Pela primeira vez, de forma explícita, o personagem reconhece que sua própria existência pode ser um problema. Há aqui uma camada política evidente: em plena era de intervenção americana ao redor do mundo, a ideia de um salvador externo que resolve crises alheias ganha um tom ambíguo, quase crítico. Mas há também uma dimensão filosófica e até teológica. O Super-Homem, tradicionalmente visto como uma figura messiânica, recusa esse papel. Ele não quer ser um deus. Ele rejeita a dependência. Em termos quase existencialistas, ele afirma que o verdadeiro sentido da humanidade está na autonomia, na responsabilidade individual e coletiva.

Essa ideia, de que o herói deve se conter e permitir que os humanos enfrentem seus próprios desafios, é profundamente radical para a época. E, de forma quase inacreditável, nasce também de uma contribuição externa ao próprio meio profissional: um jovem Jeph Loeb, ainda criança, teria sugerido a Elliot S! Maggin a premissa que daria origem à história. Esse detalhe não é apenas uma curiosidade, ele é revelador. Porque mostra como a pergunta central da edição, “e se o Superman estiver fazendo demais?”, não vem de um cinismo adulto ou de uma desconstrução posterior, mas de uma intuição quase pura sobre responsabilidade e autonomia. Décadas depois, o próprio Loeb retornaria ao personagem já como escritor profissional, e essa semente conceitual ecoa de forma mais ampla em obras como Kingdom Come, de Mark Waid e Alex Ross, onde o Super-Homem novamente confronta os limites de sua intervenção em um mundo que precisa caminhar sozinho. O Super-Homem não pode ser uma figura paternalista para humanidade. A tensão entre poder e responsabilidade, entre agir e permitir, entre salvar e deixar crescer, já está toda aqui, em janeiro de 1972, e em parte nasce da pergunta simples de um garoto que enxergou o problema antes de muitos adultos.

A história parte de um enredo aparentemente simples, mas profundamente simbólico. Após salvar a terra ao desviar esporos alienígenas, o Super-Homem é levado pelos Guardiões do Universo até OA, onde não enfrenta um vilão, mas uma acusação. Sua presença constante na Terra estaria impedindo o desenvolvimento natural da humanidade, tornando-a dependente de sua intervenção.

A partir dessa premissa, o conflito se desloca do campo da ação para o da reflexão. O conflito não é físico, mas ético e filosófico. Kal-El revisita suas ações, observa como sua ajuda molda o comportamento humano e chega à conclusão central: ao resolver todos os problemas, ele pode estar, paradoxalmente, enfraquecendo aqueles que tenta proteger.

Ao final, a história não oferece uma solução simplista, mas uma mudança de postura. O Super-Homem decide conscientemente intervir menos, permitindo que a humanidade enfrente seus próprios desafios e desenvolva sua autonomia. É nesse ponto que a narrativa revela sua verdadeira importância: não se trata de um herói que salva o mundo, mas de um herói que aprende quando não a salvá-lo. Essa inversão redefine o papel do herói e antecipa discussões que se tornariam centrais nas décadas seguintes.

Ao ponderar sobre Maggin e sua influência no Super-Homem é falar muito sobre permanência, consistência e, acima de tudo, definição autoral em um personagem que historicamente passou por muitas mãos. Maggin permaneceu por mais de catorze anos contínuos escrevendo o personagem, de 1972 até 1986, tornando-se o principal arquiteto do personagem durante a Era de Bronze. Não se trata apenas de longevidade, mas de volume e impacto, nesse período foram 19 edições de Action Comics, 48 edições de Superman, 3 edições anuais do título e participações fundamentais em outras revistas da linha, como World’s Finest, The Superman Family, Justice League of America e DC Comics Presents. Nesse período, ele ajudou a deslocar o personagem de um modelo puramente reativo e fantástico para algo mais reflexivo, mais político, de relevância social óbvia, mais humano e, paradoxalmente, mais universal.

Se o Super-Homem criado por Jerry Siegel e Joe Shuster carregava, nos anos 30 e 40, uma pulsão quase socialista, enfrentando desigualdades e abusos de poder com um ímpeto direto e popular, as décadas de 50 e 60, nas mãos de Mort Weisinger o transformaram em algo mais domesticado, alinhado a um ideal de estabilidade que dialogava com o espírito do New Deal e, gradualmente, com uma postura mais conservadora, quase republicana, refletindo o clima da Guerra Fria e da ordem estabelecida. É com Elliot S! Maggin que o personagem é reposicionado não como instrumento do status quo, mas como agente de consciência. Maggin não retorna exatamente ao radicalismo original, mas encontra um ponto de equilíbrio ideológico mais sofisticado, um herói que acredita em justiça social, responsabilidade coletiva e autonomia individual. Em termos contemporâneos, é um Super-Homem social-democrata, alguém que não governa, mas que lidera, que não impõe, mas também não se omite diante das estruturas que produzem desigualdade, recolocando o personagem, de forma clara, do lado certo da história.

Editorialmente talvez seu gesto mais significativo tenha sido levar o Super-Homem para muito além dos quadrinhos. Com os romances Last Son of Krypton (1978) e Miracle Monday (1981), ambos publicados pela Warner Books e best-sellers à época, Maggin não apenas expandiu o mito, como também consolidou uma abordagem literária do personagem, aprofundando sua psicologia e estabelecendo elementos duradouros, como a própria ideia do “Miracle Monday”. Décadas depois, ele retornaria ao universo com o romance Kingdom Come (1998), uma novelização da minissérie em quadrinhos que dialoga diretamente com os temas que ele próprio ajudou a plantar nos anos 70, e mais recentemente com LexCorp (2024), já em um contexto completamente diferente da indústria, mas ainda orbitando as mesmas questões de poder, responsabilidade e moralidade. O que Maggin construiu ao longo dessas décadas não foi apenas uma fase produtiva, mas um corpo coeso de pensamento sobre o Homem de Aço, algo raro em um personagem serializado, onde a continuidade costuma diluir autoria.

No romance de Last Son of Krypton (1978), publicado a sombra do marketing brutal do filme de Richard Donner, Maggin ultrapassa os limites do formato mensal e trata o herói kryptoniano como literatura de primeira linha, o romance não é apenas uma adaptação expandida do personagem, mas uma consolidação de sua visão autoral: um Super-Homem pensante, filosófico, profundamente consciente de seu papel no mundo. O livro foi best-seller, e mais importante, foi legitimador. Ele mostrou que o personagem podia existir fora do circuito dos quadrinhos sem perder densidade, sem simplificação. Maggin estrutura o mito com uma lógica interna mais sofisticada, trabalha melhor a dualidade Clark/Kal-El e reforça a ideia do herói como figura moral, não apenas física. É, em muitos sentidos, o blueprint do Super-Homem moderno, que nasceu seis anos antes em “Must There Be a Superman?” especialmente no que diz respeito à interioridade do personagem.

Essa abordagem não ficou restrita às mídias de papel. Durante o desenvolvimento de Superman: The Movie (1978), o editor Julie Schwartz e a presidente da DC Jenette Kahn escalaram Maggin para atuar nos bastidores suportando o escritor Mario Puzo, autor de The Godfather, na construção do roteiro para os produtores Alexander e Ilya Salkind. Essa colaboração é frequentemente subestimada, mas é crucial. Puzo, que não entendia coisa alguma sobre quadrinhos, trouxe a estrutura épica, mas foi Maggin que trouxe o entendimento do personagem. A ideia de tratar Super-Homem com seriedade, com peso quase mítico, dialoga diretamente com o que Maggin já vinha fazendo nos quadrinhos. O super-herói do cinema, interpretado por Christopher Reeve, deve muito mais a Maggin do que normalmente se reconhece, especialmente na construção de um herói que inspira não pela força, mas pela integridade moral.

Ainda no cinema recente, ecos da influência de Maggin podem ser vistos no roteiro do filme Batman v Superman: Dawn of Justice, escrito pelo vencedor do Oscar Chris Terrio e David S. Goyer, dirigido por Zack Snyder, onde o Homem de Aço também é confrontado com a ideia de que suas ações têm consequências globais, políticas e morais, e que talvez ele não devesse agir, e que suas ações podem aleijar o amadurecimento da humanidade. No controverso filme de 2016, discussão é aberta por Charlie Rose, fazendo a si próprio, que entrevista a Senadora Finch, interpretada pela vencedora do Oscar Holly Hunter. Rose pergunta: “Must There be a Superman?” e a senadora democrata do Kentucky responde: “There is.”

Dentro dos quadrinhos, essa mesma maturidade se manifestaria em outras histórias fundamentais escritas por Maggin como por exemplo a edição Superman #400, com arte feita por inúmeros gênios da nona arte: Steranko, Jack Kirby, John Byrne, Howard Chaykin, Steve Ditko, Brian Bolland, Al Williamson, Jack Davis, Frank Miller, Walter Simonson, Bernie Wrightson, Will Eisner, Klaus Janson, Moebius, Bill Sienkiewicz, entre tantos outros, uma edição comemorativa, com introdução do lendário Ray Bradbury, que funciona quase como um manifesto sobre o significado do personagem ao longo do tempo. Ali, o Super-Homem não é apenas um herói, mas um símbolo que atravessa gerações, reinterpretado em múltiplos futuros possíveis. Essa visão é complementada pelo romance Miracle Monday, talvez a obra mais pessoal de Maggin. Nele, o autor cria um feriado fictício que ninguém lembra conscientemente, mas que todos celebram inconscientemente, ligado a um sacrifício do Super-Homem que ressoa em um nível quase espiritual. É uma ideia profundamente teológica, quase mística, que reforça o herói como um arquétipo de esperança e da redenção, mas sem nunca o reduzir a uma figura divina paternalista e simplista. É uma das interpretações mais sofisticadas do personagem já feitas fora dos quadrinhos.

A influência de Maggin se estendeu muito além de sua própria produção. Sua leitura do Homem de Aço como ideia moral e não apenas heroica ecoa diretamente em obras posteriores. Elementos conceituais podem ser percebidos em Superman #300, que inspiraria décadas depois Superman: Red Son de Mark Millar, ao explorar o impacto do contexto político e moral na formação do herói. Como já exposto, a problemática levantada em Superman #247 reverbera claramente em Kingdom Come, de Mark Waid e Alex Ross, ao discutir o papel de liderança do personagem em um mundo que já não o compreende. Sua influência direta também passa por conexões menos óbvias, como o fato de ter sido o primeiro editor da dupla Jeph Loeb e Tim Sale, quando estrearam juntos em Challengers of the Unknown (1991), uma relação que, indiretamente, ajuda a moldar obras seminais como Superman For All Seasons (1998). E, finalmente, sua abordagem mais humana e introspectiva do personagem é perceptível em Superman: Birthright, obra-prima de Mark Waid, que retoma elementos estruturais e emocionais já trabalhados por Maggin em Last Son of Krypton e Miracle Monday.

As histórias de Elliot S! Maggin foram fundamentais para amadurecer o Super-Homem na Era de Bronze. Ele não desconstrói o personagem, isso viria acontecer depois, a partir de 1985, com Alan Moore, Frank Miller, Grant Morrison, John Byrne e outros, mas Maggin o problematizou primeiro. Ele introduziu dúvida onde antes havia certeza. Ele transformou o Super-Homem de resposta em pergunta. Esse pioneirismo é sem dúvida o maior valor de “Must There be a Superman” publicada em Superman vol. 1 #247. Não é uma história de ação memorável. Não é uma saga épica. Não tem supervilão a ser vencido. É algo bem mais raro, uma história em que o Super-Homem para e pensa. Em que ele reconhece seus limites não físicos, mas morais. Em que ele entende que salvar o mundo não é apenas impedir desastres, mas também saber quando não agir. Antes que os anos 80 viessem desmontar os super-heróis, Maggin já havia feito algo mais sutil, e mais importante. Ele os fez crescer.

por Fabio Marques (26/3/2026)

Superman #247 (Jan/1972) by Elliot S! Maggin

Superman #300 (Jun/1976) by Elliot S! Maggin

Action Comics #571 (September/1985) by Elliot S! Maggin

Superman #400 (October 1984) by Elliot S! Maggin


Superman #257 (October 1972) by Elliot S! Maggin

Superman #416 (February 1986) by Elliot S! Maggin


Kingdom Come, Miracle Monday and The Last Son of Krypton:
Superman novels by Elliot S! Maggin


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