Escrever
sobre Supergirl hoje, a apenas três meses da estreia do novo filme, é
inevitavelmente falar de uma personagem que nunca conseguiu, ou talvez nunca
quis, se fixar em uma única forma. Diferente de outros ícones da DC Comics,
cuja força vem justamente da repetição de um núcleo estável, a Supergirl sempre
existiu em estado de variação. E isso não começa com Kara Zor-El. Começa antes
mesmo dela existir como conceito definitivo, como uma ideia recorrente, quase
obsessiva, que a editora revisitava sempre que queria testar os limites do
universo do Super-Homem.
Ainda nos
anos 40, essa idéia surge de forma difusa, experimental, quase acidental. Em
Action Comics #60 (maio de 1943) escrita por Jerry Siegel e desenhada por
George Roussos e Joe Shuster, Lois Lane ganha poderes e ocupa temporariamente
esse espaço simbólico: não como identidade própria, mas como extensão do mito
do Homem de Aço. A experiência se repete em Action Comics #156 (maio de 1951),
escrita por Al Schwartz e desenhada por Al Plastino, reforçando que o conceito
estava em circulação, ainda sem forma definida. Em Superboy #5 (novembro de 1949),
surge Queen Lucy de Borgonia, uma rainha alienígena com habilidades similares,
outra tentativa de capturar esse arquétipo feminino superpoderoso. Depois vem
Claire Kent em Superboy #78 (janeiro de 1960), uma espécie de versão
alternativa dentro da lógica da série, e até uma Supergirl artificial criada
por Jimmy Olsen em Superman #123 (augusto de 1958) por Otto Binder e Dick
Sprang, uma construção narrativa que deixa claro o quanto a ideia já existia
como conceito antes de se fixar como personagem. Nenhuma dessas versões é
definitiva, e esse é exatamente o ponto. A Supergirl, antes de ser alguém, era
uma função narrativa procurando um corpo.
Quando
finalmente surge em Action Comics #252 (maio de 1959) emanada pelo editor Mort
Wisinger, criada por Otto Binder e Al Plastino, Kara Zor-El parece encerrar
essa busca. Pela primeira vez, há uma origem clara: sobrevivente de Krypton,
prima do Super-Homem, escondida em Midvale, construída dentro de uma lógica
familiar e editorial sólida. Mas essa sensação de estabilidade é, em
retrospecto, ilusória. Porque, mesmo ali, já existe uma ambiguidade estrutural:
Kara é ao mesmo tempo protagonista e derivação, identidade própria e reflexo
direto de outro personagem muito maior. Ela nasce definida, mas subordinada. E
essa tensão nunca desaparece; ela apenas muda de forma ao longo das décadas. E
é isso que explica o que vem depois.
A
trajetória da Supergirl nos quadrinhos não é uma evolução linear, mas uma
sucessão de rupturas. Após Crisis on Infinite Earths, de Marv Wolfman e George
Pérez, a personagem é simplesmente removida da continuidade, num movimento
editorial radical que tenta simplificar o universo DC, mas acaba criando um
vazio conceitual difícil de preencher. No lugar dela surge Matrix, criada por
John Byrne, um clone artificial de Lana Lang, introduzida em Superman Vol. 2
#16 (1988), uma entidade artificial, metamórfica, que pode assumir a forma de
Supergirl, mas não é Kara, não tem Krypton, não tem passado. É uma solução
funcional, mas conceitualmente instável. Essa instabilidade se aprofunda quando
Matrix se funde com Linda Danvers em Supergirl Vol. 4 #1 (1996), numa fase
escrita por Peter David, que transforma a personagem em algo quase místico, com
elementos religiosos, angelicais, existenciais: uma das leituras mais ousadas,
e ao mesmo tempo mais distantes da ideia original.
Outras
versões surgem como tentativas paralelas: Cir-El em Superman: The 10-Cent
Adventure #1 (2003), apresentada como uma possível filha do Superman vinda do
futuro, logo descartada; Power Girl, que sobrevive como eco de uma continuidade
alternativa da Terra-2, sempre deslocada, sempre reexplicada; Laurel Gand,
ligada à Legião dos Super-Heróis; Ariella Kent, uma versão sombria e marginal.
Nenhuma delas resolve o problema central. Todas orbitam a mesma questão: o que
exatamente é a Supergirl?
Mesmo
quando Kara Zor-El retorna oficialmente em Superman/Batman #8 (2004), sob a
escrita de Jeph Loeb e arte de Michael Turner, a sensação não é de conclusão,
mas de mais uma tentativa de reinício. Essa versão ganha popularidade,
visibilidade, presença, mas ainda assim carrega o peso de todas as versões
anteriores. Ela não substitui; ela se soma. E talvez seja justamente isso que
define a personagem: a impossibilidade de síntese. A Supergirl não é um
arquétipo fixo. Ela é um campo de variações acumuladas.
Fora da
continuidade principal, isso se torna ainda mais evidente. Em histórias
Elseworlds, minisséries e leituras autorais, a personagem frequentemente
encontra versões mais coesas, justamente porque está livre da necessidade de se
encaixar em uma linha editorial contínua. É fora do cânone que a Supergirl
muitas vezes parece mais “verdadeira”, porque ali ela pode ser uma ideia
completa, e não um ajuste constante. Por exemplo, no crossover Superman/Aliens
de Dan Jurgen e Kevin Nowlan, a nova Supergirl pós-Crise se esconde na minissérie.
No Brasil,
essa fragmentação ganha outra camada histórica. A Super-Moça publicada por
EBAL, depois pela Editora Abril e mais tarde pela Panini não segue uma linha
contínua limpa, ela é apresentada em recortes, republicações, reorganizações
editoriais que muitas vezes misturam fases, versões e contextos. Para o leitor
brasileiro, a Supergirl nunca foi uma narrativa linear; foi uma experiência
fragmentada, quase arqueológica, montada a partir de pedaços. E isso, de certa
forma, espelha perfeitamente a própria natureza da personagem.
Curiosamente,
é na animação que a Supergirl começa a ganhar uma forma mais consistente. Bruce
W. Timm, Paul Dini e seus colegas a recriam do zero em Superman: The Animated
Series e Justice League Unlimited, ela aparece como uma jovem impulsiva,
emocionalmente clara, com conflitos definidos. Essa linha continua em Legion of
Super-Heroes, Young Justice, Freedom Fighters: The Ray, DC Super Hero Girls,
além de filmes como Superman/Batman: Apocalypse, baseado na versão de Jeph
Loeb, e participações em séries como Harley Quinn. Há variações, claro, mas
existe um núcleo emocional reconhecível, algo que os quadrinhos demoraram
décadas para consolidar.
No live-action, o percurso é ainda mais irregular. O filme Supergirl, com Helen Slater, permanece como uma curiosidade isolada, quase deslocada do restante do universo cinematográfico da época. A série Smallville apresenta duas Supergirls em seus dez anos, uma Kara interpretada pela Adrianne Palicki, e outra oficial na pele de Laura Vandervoort. Já a série Supergirl iniciada na ABC em 2015, e posteriormente integrada ao Arrowverse da The CW, representa a primeira tentativa de dar à personagem uma trajetória contínua e protagonista ao longo de várias temporadas. Melissa Benoist está maravilhosas, mas sempre tenta esconder o primo famoso, mesmo quando Tyler Hoechlin surge na sua cronologia. Ainda assim, essa versão oscila em tom e direção, refletindo tanto as mudanças de emissora quanto as limitações estruturais da televisão aberta. Já em The Flash, com Sasha Calle, surge uma interpretação radicalmente diferente: uma Supergirl mais dura, mais alienígena, menos conciliadora, menos solar, marcada por trauma e isolamento, uma leitura que rompe com a tradição mais leve e aponta para algo mais contemporâneo.
É nesse
contexto que Supergirl: Woman of Tomorrow se torna central. Escrita por Tom
King, com arte da brasileira Bilquis Evely e cores de Matheus Lopes, a
minissérie (2021–2022) não tenta organizar o passado da personagem, ela parte
dele. Aqui, Kara Zor-El é definida pela memória. Enquanto o Super-Homem foi
enviado bebê e não lembra Krypton, ela viu tudo. Ela cresceu lá. Ela perdeu
tudo conscientemente. Essa diferença muda completamente a leitura da
personagem. A história, estruturada como uma jornada espacial ao lado de uma
jovem em busca de vingança, mistura faroeste, ficção científica e fábula moral,
criando uma Supergirl que não é derivativa, é singular. E talvez pela primeira
vez, completa. É essa leitura que serve de base para o novo filme.
Dirigido
por Craig Gillespie, conhecido por trabalhos como Cruella, o remake de Fright
Night e I, Tonya, com roteiro da brasileira Ana Nogueira, Supergirl (2026) é
estrelado por Milly Alcock, conhecida por sua participação em House of the
Dragon, interpretando Kara Zor-El. O filme integra o novo DCU concebido por
James Gunn e Peter Safran, uma reformulação completa do universo
cinematográfico da DC, com estreia marcada para 26 de junho de 2026 nos Estados
Unidos e lançamento mundial na mesma janela.
E talvez,
pela primeira vez na sua história, exista uma sensação diferente: não a de que
estão tentando definir a Supergirl de forma definitiva, mas de que finalmente
entenderam que isso nunca foi necessário. Porque, depois de tantas versões,
tantas quebras e tantas reconstruções, a conclusão inevitável não é que a
personagem falhou em encontrar sua forma. É que ela foi construída para nunca
ter apenas uma.





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