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quarta-feira, março 25, 2026

Supergirl: Aquela que Foi Sem Nunca Ter Sido




Supergirl: Aquela que Foi Sem Nunca Ter Sido
por Fabio Marques (25/03/2026)

Escrever sobre Supergirl hoje, a apenas três meses da estreia do novo filme, é inevitavelmente falar de uma personagem que nunca conseguiu, ou talvez nunca quis, se fixar em uma única forma. Diferente de outros ícones da DC Comics, cuja força vem justamente da repetição de um núcleo estável, a Supergirl sempre existiu em estado de variação. E isso não começa com Kara Zor-El. Começa antes mesmo dela existir como conceito definitivo, como uma ideia recorrente, quase obsessiva, que a editora revisitava sempre que queria testar os limites do universo do Super-Homem.

 

Ainda nos anos 40, essa idéia surge de forma difusa, experimental, quase acidental. Em Action Comics #60 (maio de 1943) escrita por Jerry Siegel e desenhada por George Roussos e Joe Shuster, Lois Lane ganha poderes e ocupa temporariamente esse espaço simbólico: não como identidade própria, mas como extensão do mito do Homem de Aço. A experiência se repete em Action Comics #156 (maio de 1951), escrita por Al Schwartz e desenhada por Al Plastino, reforçando que o conceito estava em circulação, ainda sem forma definida. Em Superboy #5 (novembro de 1949), surge Queen Lucy de Borgonia, uma rainha alienígena com habilidades similares, outra tentativa de capturar esse arquétipo feminino superpoderoso. Depois vem Claire Kent em Superboy #78 (janeiro de 1960), uma espécie de versão alternativa dentro da lógica da série, e até uma Supergirl artificial criada por Jimmy Olsen em Superman #123 (augusto de 1958) por Otto Binder e Dick Sprang, uma construção narrativa que deixa claro o quanto a ideia já existia como conceito antes de se fixar como personagem. Nenhuma dessas versões é definitiva, e esse é exatamente o ponto. A Supergirl, antes de ser alguém, era uma função narrativa procurando um corpo.

 

Quando finalmente surge em Action Comics #252 (maio de 1959) emanada pelo editor Mort Wisinger, criada por Otto Binder e Al Plastino, Kara Zor-El parece encerrar essa busca. Pela primeira vez, há uma origem clara: sobrevivente de Krypton, prima do Super-Homem, escondida em Midvale, construída dentro de uma lógica familiar e editorial sólida. Mas essa sensação de estabilidade é, em retrospecto, ilusória. Porque, mesmo ali, já existe uma ambiguidade estrutural: Kara é ao mesmo tempo protagonista e derivação, identidade própria e reflexo direto de outro personagem muito maior. Ela nasce definida, mas subordinada. E essa tensão nunca desaparece; ela apenas muda de forma ao longo das décadas. E é isso que explica o que vem depois.

 

A trajetória da Supergirl nos quadrinhos não é uma evolução linear, mas uma sucessão de rupturas. Após Crisis on Infinite Earths, de Marv Wolfman e George Pérez, a personagem é simplesmente removida da continuidade, num movimento editorial radical que tenta simplificar o universo DC, mas acaba criando um vazio conceitual difícil de preencher. No lugar dela surge Matrix, criada por John Byrne, um clone artificial de Lana Lang, introduzida em Superman Vol. 2 #16 (1988), uma entidade artificial, metamórfica, que pode assumir a forma de Supergirl, mas não é Kara, não tem Krypton, não tem passado. É uma solução funcional, mas conceitualmente instável. Essa instabilidade se aprofunda quando Matrix se funde com Linda Danvers em Supergirl Vol. 4 #1 (1996), numa fase escrita por Peter David, que transforma a personagem em algo quase místico, com elementos religiosos, angelicais, existenciais: uma das leituras mais ousadas, e ao mesmo tempo mais distantes da ideia original.

 

Outras versões surgem como tentativas paralelas: Cir-El em Superman: The 10-Cent Adventure #1 (2003), apresentada como uma possível filha do Superman vinda do futuro, logo descartada; Power Girl, que sobrevive como eco de uma continuidade alternativa da Terra-2, sempre deslocada, sempre reexplicada; Laurel Gand, ligada à Legião dos Super-Heróis; Ariella Kent, uma versão sombria e marginal. Nenhuma delas resolve o problema central. Todas orbitam a mesma questão: o que exatamente é a Supergirl?

 

Mesmo quando Kara Zor-El retorna oficialmente em Superman/Batman #8 (2004), sob a escrita de Jeph Loeb e arte de Michael Turner, a sensação não é de conclusão, mas de mais uma tentativa de reinício. Essa versão ganha popularidade, visibilidade, presença, mas ainda assim carrega o peso de todas as versões anteriores. Ela não substitui; ela se soma. E talvez seja justamente isso que define a personagem: a impossibilidade de síntese. A Supergirl não é um arquétipo fixo. Ela é um campo de variações acumuladas.

 

Fora da continuidade principal, isso se torna ainda mais evidente. Em histórias Elseworlds, minisséries e leituras autorais, a personagem frequentemente encontra versões mais coesas, justamente porque está livre da necessidade de se encaixar em uma linha editorial contínua. É fora do cânone que a Supergirl muitas vezes parece mais “verdadeira”, porque ali ela pode ser uma ideia completa, e não um ajuste constante. Por exemplo, no crossover Superman/Aliens de Dan Jurgen e Kevin Nowlan, a nova Supergirl pós-Crise se esconde na minissérie.

 

No Brasil, essa fragmentação ganha outra camada histórica. A Super-Moça publicada por EBAL, depois pela Editora Abril e mais tarde pela Panini não segue uma linha contínua limpa, ela é apresentada em recortes, republicações, reorganizações editoriais que muitas vezes misturam fases, versões e contextos. Para o leitor brasileiro, a Supergirl nunca foi uma narrativa linear; foi uma experiência fragmentada, quase arqueológica, montada a partir de pedaços. E isso, de certa forma, espelha perfeitamente a própria natureza da personagem.

 

Curiosamente, é na animação que a Supergirl começa a ganhar uma forma mais consistente. Bruce W. Timm, Paul Dini e seus colegas a recriam do zero em Superman: The Animated Series e Justice League Unlimited, ela aparece como uma jovem impulsiva, emocionalmente clara, com conflitos definidos. Essa linha continua em Legion of Super-Heroes, Young Justice, Freedom Fighters: The Ray, DC Super Hero Girls, além de filmes como Superman/Batman: Apocalypse, baseado na versão de Jeph Loeb, e participações em séries como Harley Quinn. Há variações, claro, mas existe um núcleo emocional reconhecível, algo que os quadrinhos demoraram décadas para consolidar.

 

No live-action, o percurso é ainda mais irregular. O filme Supergirl, com Helen Slater, permanece como uma curiosidade isolada, quase deslocada do restante do universo cinematográfico da época. A série Smallville apresenta duas Supergirls em seus dez anos, uma Kara interpretada pela Adrianne Palicki, e outra oficial na pele de Laura Vandervoort. Já a série Supergirl iniciada na ABC em 2015, e posteriormente integrada ao Arrowverse da The CW, representa a primeira tentativa de dar à personagem uma trajetória contínua e protagonista ao longo de várias temporadas. Melissa Benoist está maravilhosas, mas sempre tenta esconder o primo famoso, mesmo quando Tyler Hoechlin surge na sua cronologia. Ainda assim, essa versão oscila em tom e direção, refletindo tanto as mudanças de emissora quanto as limitações estruturais da televisão aberta. Já em The Flash, com Sasha Calle, surge uma interpretação radicalmente diferente: uma Supergirl mais dura, mais alienígena, menos conciliadora, menos solar, marcada por trauma e isolamento, uma leitura que rompe com a tradição mais leve e aponta para algo mais contemporâneo.

 

É nesse contexto que Supergirl: Woman of Tomorrow se torna central. Escrita por Tom King, com arte da brasileira Bilquis Evely e cores de Matheus Lopes, a minissérie (2021–2022) não tenta organizar o passado da personagem, ela parte dele. Aqui, Kara Zor-El é definida pela memória. Enquanto o Super-Homem foi enviado bebê e não lembra Krypton, ela viu tudo. Ela cresceu lá. Ela perdeu tudo conscientemente. Essa diferença muda completamente a leitura da personagem. A história, estruturada como uma jornada espacial ao lado de uma jovem em busca de vingança, mistura faroeste, ficção científica e fábula moral, criando uma Supergirl que não é derivativa, é singular. E talvez pela primeira vez, completa. É essa leitura que serve de base para o novo filme.

 

Dirigido por Craig Gillespie, conhecido por trabalhos como Cruella, o remake de Fright Night e I, Tonya, com roteiro da brasileira Ana Nogueira, Supergirl (2026) é estrelado por Milly Alcock, conhecida por sua participação em House of the Dragon, interpretando Kara Zor-El. O filme integra o novo DCU concebido por James Gunn e Peter Safran, uma reformulação completa do universo cinematográfico da DC, com estreia marcada para 26 de junho de 2026 nos Estados Unidos e lançamento mundial na mesma janela.

 

E talvez, pela primeira vez na sua história, exista uma sensação diferente: não a de que estão tentando definir a Supergirl de forma definitiva, mas de que finalmente entenderam que isso nunca foi necessário. Porque, depois de tantas versões, tantas quebras e tantas reconstruções, a conclusão inevitável não é que a personagem falhou em encontrar sua forma. É que ela foi construída para nunca ter apenas uma.





















quinta-feira, outubro 01, 2020

As Melhores Histórias de Quadrinhos do Super-Homem: Super-Homem Entre a Foice e o Martelo

As Melhores Histórias de Quadrinhos do Super-Homem

Superman: Red Son
"Superman: Red Son"
Superman Red Son #1-3 (2003)

Escrita por Mark Millar
Arte por Dave Johnson, Andrew Robinson, Walden Wong e Killian Plunkett
Letras por Ken Lopez
Cores por Paul Mounts
Editada por Anton Kawasaki, Mike McAvennie, Maureen McTigue e Tom Palmer Jr.
Capas por Dave Johnson

Publicada no Brasil em:
Superman: Entre a Foice e o Martelo em três partes, de abril a junho de 2004, pela Panini Comics Brasil, e republicada em formato encadernado em julho de 2006 e agosto de 2017 (capa dura).


O escritor escocês Mark Millar teve a idéia de Superman: Red Son quando ele tinha 6 anos após ler a clássica história imaginária "Superman, 2001!" na revista Superman #300 de Elliot S! Maggin, Cary Bates, Curt Swan e Bob Oksner publicada pela DC Comics em junho de 1976. Além de mostrar o que aconteceria se o bebê Kal-El chegasse a Terra em 1976 e só se tornasse Super-Homem apenas no ano de 2001, Maggin e Bates mostram os USA e a URSS disputando o controle sobre a nave kryptoniana quando ela cai em águas internacionais.

Essa foi a fagulha para a imaginação fértil de Mark, que vivia dentro da Europa durante Guerra Fria. Na sua tenra infância Millar acreditava que o Super-Homem realmente havia existido, seu irmão mais velho, de brincadeira, havia mostrado uma antiga foto em preto e branco do ator George Reeves e lhe havia contado que o Super-Homem tinha lutado na Segunda Grande Guerra ao lado dos aliados.

Aos 13 anos, Millar mandou pra DC Comics sua primeira proposta do Super-Homem Soviético. Foi recusada. Só aos 27 anos ele conseguiu vendê-la. E apenas quando ele tinha 33 anos a história foi publicada.

Superman #300 era uma história imaginária, coisa corriqueira no Universo pré-Crise desde os anos 50 anos. Depois da minissérie Crise nas Infinitas Terras, de Marv Wolfman, George Pérez e Jerry Ordway, publicada entre 1985 e 1986, a cronologia do universo DC ficou conhecida como pós-Crise e  as histórias imaginárias se tornaram um tabu. Toda e qualquer história deveria servir e respeitar a cronologia vigente, especialmente para o Super-Homem e seus elementos fantásticos. Primos distantes, inimígos da Zona Fantasma, super animais, viagens no tempo e outras maluquices, vindas dos anos 50 de Mort Weisinger, estavam fora de questão.

Assim ao imaginar um Super-Homem Soviético e que defendesse o Estado Totalitário-Comunista com certeza não serviria o novo Homem de Aço lapidado em 1986 por John Byrne e Marv Wolfman. Mas até o ano de 2003 algumas excessões poderiam ser feitas, usando o artifício do selo Elseworlds (Túnel do Tempo). A premissa básica é simples, o que aconteceria se o foguete do pequeno Kal-El caísse em junho de 1938 na Sibéria, União Soviética.

A história é uma fábula que mostra o Homem de Aço assumindo o papel de chanceler da grande mãe Rússia após a morte de Joseph Stalin. Com força e inteligência sobre-humana, o kryptoniano transforma a União Soviética e os países da Cortina de Ferro em uma utopia socialista, onde todos tem trabalho, renda, educação e saúde. Menos liberdade. Governando com punho de aço, Kal-El todos países e cidadãos disciplinados e sob controle.

Enquanto nos EUA, o Ike vê a democracia americana afundar numa distopia. A propaganda comunista humilha e destroça o sonho americano. Nem o lendário jornal metropolitano Planeta Diário, de Perry White e Lois Lane, publicando a verdade e a justiça, consegue manter o espírito da liberdade individual vivo. O pujante sucesso do socialismo soviético impede qualquer influência americana na Europa Ocidental que também se alinha à URSS.

Lex Luthor, com sua magnífica inteligência amoral, é a única arma que a América tem para enfrentar a União Soviética. Por décadas, Luthor faz movimentos fantásticos, como num grande jogo de xadrez, na tentativa de vencer o Super-Homem.

Depois de décadas e de vários presidentes fracassados, Luthor, casado com Lois Lane, se elege presidente dos EUA, e consegue em pouco tempo recuperar a economia capitalista, a única num mundo completamente socialista, através do mercado livre, da liberdade individual e do empreendedorismo capitalista. Nesse cenário ele atrai o Super-Homem para Washington e dá o checkmate. Provando com uma única frase por que a liberdade é maior bem da humanidade. 

Superman: Entre a Foice e o Martelo como ficou conhecida no Brasil, teve grande sucesso ao ser lançada nos EUA, mas na Europa Oriental o barulho foi muito maior, principalmente na Rússia, pois mostra exatamente o que russos e europeus orientais viveram na própria pele até a queda do muro de Berlin em 1991.

Recentemente a história foi adaptada na forma de filme animado da Warner Animation, novamente tendo sucesso de crítica e público, se mostrando atual mesmo depois de mais de 15 anos.
  

por Fabio Marques (01/10/2020)

Dave Johnson e Fabio Marques (Dezembro de 2014)

Dave Johnson e Fabio Marques (Setembro de 2013)

Superman #300 by Elliot Maggin and Curt Swan