quarta-feira, junho 24, 2026

Supergirl (2026), a Espada que Não Desceu

 


Supergirl (2026), a Espada que Não Desceu
por Fabio Marques (23 de junho de 2026)

Havia tudo para dar certo. Uma minissérie premiada de Tom King e Bilquis Evely como base, um diretor com sensibilidade comprovada para retratar mulheres complexas, e uma protagonista jovem e talentosa saída diretamente de House of the Dragon. O segundo filme do novo Universo DC de James Gunn tinha, no papel, os ingredientes de uma aventura espacial singular, feminina e visceral. O que chegou às telas, porém, é um filme que parece ter sido produzido com um olho na arte e outro no manual corporativo dos estúdios.

Supergirl (2026) não é um filme ruim. É algo mais frustrante do que isso: é um filme mediano que tinha todas as condições de ser extraordinário.

A minissérie de King e Evely é uma obra de rara beleza visual e emocional. Bilquis Evely criou um universo fantástico, onírico e feminino, com uma paleta de arte que transborda sensibilidade. O filme de Craig Gillespie, sob influência pesada de James Gunn, escolhe o caminho oposto: um visual sujo, punk rock, que remete inevitavelmente aos Guardiões da Galáxia, só que sem a leveza e o humor que tornaram aquela franquia amada. O resultado é um universo que parece emprestado, não habitado. Os cenários e figurinos carregam a impressão digital de Gunn por toda parte, sufocando qualquer identidade própria que o filme pudesse construir.

A espada, objeto central e carregado de simbolismo na narrativa original, perde aqui boa parte do seu peso. Eixo moral da minissérie Supergirl: Woman of Tomorrow, ela é o catalisador da história, instrumento causador do assassinato do pai de Ruthye e seu voto de encontrar o assassino e matá-lo com a própria espada deixada cravada no cadáver. Ela é o preço da justiça que Ruthye carrega, o símbolo do pai morto e da dor não resolvida, e é a disputa por esse objeto que une as duas protagonistas logo no primeiro encontro. A tensão entre vingança e justiça, debatida por Supergirl e Ruthye ao longo de toda a jornada, tem a espada como seu símbolo físico permanente.

O que torna a espada genial é seu arco invertido: à medida que Supergirl é destruída repetidamente pela violência e morte que Krem deixa em seu rastro, a escuridão começa a se infiltrar em seu coração, marcando o momento em que Ruthye precisa salvar Supergirl, assim como foi salva durante toda a série. A criança que começou a jornada querendo sangue é quem, no final, impede a superheroína de cometer o ato irreversível. No filme, sem esse arco moral construído com paciência, a espada vira mero objeto de cena de ação, esvaziada de todo o seu peso simbólico. Krem of the Yellow Hills (Matthias Schoenaerts), o grande vilão da minissérie, cuja perseguição era o coração dramático da história, torna-se pouco mais que um capanga genérico, sem motivação clara, sem a estatura ameaçadora que possuía nos quadrinhos. A maquiagem não ajuda, a caracterização tampouco. É o maior desperdício do filme.

Supergirl é um filme populado de personagens interessantes que o roteiro de Ana Nogueira, apesar de seu talento evidente, não consegue desenvolver satisfatoriamente, provavelmente por pressões de tempo e de franquia.

Eve Ridley empresta carisma e presença a Ruthye Marye Knoll, mas a riqueza do arco familiar da personagem, tão central nos quadrinhos, é praticamente ignorada. A história do pai, Ferdinand Kingsley no papel de Elias Knoll, que deveria ser o motor emocional da vingança, passa como nota de rodapé. Drom Baxton (Diarmaid Murtagh), figura de peso na história original, reduz-se aqui a pretexto para que Lobo apareça em cena.

Emily Beecham como Alura tem pouquíssimo tempo de tela: e o que é pior, não é por falta de material: a série de TV Supergirl (2015), nas encarnações de Erica Durance e Laura Benanti, soube explorar a personagem com muito mais profundidade emocional. David Krumholtz como Zor-El carrega uma ambiguidade filosófica interessante: Jor-El como vilão em potencial, o irmão que pensa diferente, mas o roteiro nunca desenvolve essa tensão até as últimas consequências, deixando o personagem em território de esboço.

Talvez o problema mais sintomático do filme seja a proporção de espaço concedida a personagens masculinos num filme que, pela sua própria natureza, deveria ser uma celebração da protagonista e de sua jornada. Jason Momoa como Lobo é divertido, ninguém nega. Mas o personagem, que não existe sequer na minissérie original (foi adicionado para o filme), acaba por ocupar espaço que pertencia a Kara, salvando-a em momentos em que ela deveria ser a autora do seu próprio destino. É uma contradição estrutural que enfraquece precisamente aquilo que o filme deveria defender.

David Corenswet retorna como Super-Homem, em flashbacks e no final, e sua presença é ainda mais problemática: num filme que deveria ser a afirmação independente de Kara Zor-El, é o primo quem aparece para resolver o dilema da protagonista, em tese, deveria resolver sozinha. É como se o filme não confiasse inteiramente na sua própria heroína.

Craig Gillespie é um diretor que sabe narrar mulheres. Lars and the Real Girl (2007) e, especialmente, I, Tonya (2017) demonstram uma capacidade rara de retratar feminilidade com ironia, violência e ternura simultaneamente. Em Supergirl, porém, ele parece engolido pelas exigências do gênero: as sequências de ação são pesadas, confusas, e a trilha pop em câmera lenta, tão característica do universo Gunn, perde a graça na segunda vez e se torna mecânica na terceira. A direção não é desastrosa, mas é impessoal. E impessoalidade é o pior pecado para um filme que deveria ter alma.

Vale registrar o afeto genuíno embutido no filme: um dos planetas se chama Bilquis, em homenagem à artista brasileira que desenhou os quadrinhos, e logo em seguida Garota de Ipanema toca numa cena. A roteirista Ana Nogueira colocou o Brasil no espaço, literalmente, e isso é bonito. Só que o fan servisse, por mais caloroso que seja, não substitui profundidade dramática.

Tudo isso dito, Milly Alcock é a razão mais sólida para sentar-se na poltrona. A sua Kara Zor-El é diferente de tudo que se viu antes na personagem: nem a doçura de Helen Slater em 1984, nem o calor sincero de Melissa Benoist na série. É uma Supergirl raivosa, traumatizada, com um "foda-se" legítimo nos olhos, uma sobrevivente que ainda não aprendeu a ser heroína. Alcock carrega o filme mesmo quando o roteiro a abandona.

É precisamente por isso que o saldo final é amargo. Supergirl (2026) tem, no centro, uma performance que merecia um filme à altura. O que ela recebeu foi um produto competente, visualmente barulhento e emocionalmente superficial: uma continuação obrigatória que, em vez de nascer do desejo de contar uma história, parece ter nascido do calendário de lançamentos de um estúdio. A Mulher do Amanhã merecia mais do que o cinema de hoje conseguiu oferecer.