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quarta-feira, junho 24, 2026

Supergirl (2026), a Espada que Não Desceu

 


Supergirl (2026), a Espada que Não Desceu
por Fabio Marques (23 de junho de 2026)

Havia tudo para dar certo. Uma minissérie premiada de Tom King e Bilquis Evely como base, um diretor com sensibilidade comprovada para retratar mulheres complexas, e uma protagonista jovem e talentosa saída diretamente de House of the Dragon. O segundo filme do novo Universo DC de James Gunn tinha, no papel, os ingredientes de uma aventura espacial singular, feminina e visceral. O que chegou às telas, porém, é um filme que parece ter sido produzido com um olho na arte e outro no manual corporativo dos estúdios.

Supergirl (2026) não é um filme ruim. É algo mais frustrante do que isso: é um filme mediano que tinha todas as condições de ser extraordinário.

A minissérie de King e Evely é uma obra de rara beleza visual e emocional. Bilquis Evely criou um universo fantástico, onírico e feminino, com uma paleta de arte que transborda sensibilidade. O filme de Craig Gillespie, sob influência pesada de James Gunn, escolhe o caminho oposto: um visual sujo, punk rock, que remete inevitavelmente aos Guardiões da Galáxia, só que sem a leveza e o humor que tornaram aquela franquia amada. O resultado é um universo que parece emprestado, não habitado. Os cenários e figurinos carregam a impressão digital de Gunn por toda parte, sufocando qualquer identidade própria que o filme pudesse construir.

A espada, objeto central e carregado de simbolismo na narrativa original, perde aqui boa parte do seu peso. Eixo moral da minissérie Supergirl: Woman of Tomorrow, ela é o catalisador da história, instrumento causador do assassinato do pai de Ruthye e seu voto de encontrar o assassino e matá-lo com a própria espada deixada cravada no cadáver. Ela é o preço da justiça que Ruthye carrega, o símbolo do pai morto e da dor não resolvida, e é a disputa por esse objeto que une as duas protagonistas logo no primeiro encontro. A tensão entre vingança e justiça, debatida por Supergirl e Ruthye ao longo de toda a jornada, tem a espada como seu símbolo físico permanente.

O que torna a espada genial é seu arco invertido: à medida que Supergirl é destruída repetidamente pela violência e morte que Krem deixa em seu rastro, a escuridão começa a se infiltrar em seu coração, marcando o momento em que Ruthye precisa salvar Supergirl, assim como foi salva durante toda a série. A criança que começou a jornada querendo sangue é quem, no final, impede a superheroína de cometer o ato irreversível. No filme, sem esse arco moral construído com paciência, a espada vira mero objeto de cena de ação, esvaziada de todo o seu peso simbólico. Krem of the Yellow Hills (Matthias Schoenaerts), o grande vilão da minissérie, cuja perseguição era o coração dramático da história, torna-se pouco mais que um capanga genérico, sem motivação clara, sem a estatura ameaçadora que possuía nos quadrinhos. A maquiagem não ajuda, a caracterização tampouco. É o maior desperdício do filme.

Supergirl é um filme populado de personagens interessantes que o roteiro de Ana Nogueira, apesar de seu talento evidente, não consegue desenvolver satisfatoriamente, provavelmente por pressões de tempo e de franquia.

Eve Ridley empresta carisma e presença a Ruthye Marye Knoll, mas a riqueza do arco familiar da personagem, tão central nos quadrinhos, é praticamente ignorada. A história do pai, Ferdinand Kingsley no papel de Elias Knoll, que deveria ser o motor emocional da vingança, passa como nota de rodapé. Drom Baxton (Diarmaid Murtagh), figura de peso na história original, reduz-se aqui a pretexto para que Lobo apareça em cena.

Emily Beecham como Alura tem pouquíssimo tempo de tela: e o que é pior, não é por falta de material: a série de TV Supergirl (2015), nas encarnações de Erica Durance e Laura Benanti, soube explorar a personagem com muito mais profundidade emocional. David Krumholtz como Zor-El carrega uma ambiguidade filosófica interessante: Jor-El como vilão em potencial, o irmão que pensa diferente, mas o roteiro nunca desenvolve essa tensão até as últimas consequências, deixando o personagem em território de esboço.

Talvez o problema mais sintomático do filme seja a proporção de espaço concedida a personagens masculinos num filme que, pela sua própria natureza, deveria ser uma celebração da protagonista e de sua jornada. Jason Momoa como Lobo é divertido, ninguém nega. Mas o personagem, que não existe sequer na minissérie original (foi adicionado para o filme), acaba por ocupar espaço que pertencia a Kara, salvando-a em momentos em que ela deveria ser a autora do seu próprio destino. É uma contradição estrutural que enfraquece precisamente aquilo que o filme deveria defender.

David Corenswet retorna como Super-Homem, em flashbacks e no final, e sua presença é ainda mais problemática: num filme que deveria ser a afirmação independente de Kara Zor-El, é o primo quem aparece para resolver o dilema da protagonista, em tese, deveria resolver sozinha. É como se o filme não confiasse inteiramente na sua própria heroína.

Craig Gillespie é um diretor que sabe narrar mulheres. Lars and the Real Girl (2007) e, especialmente, I, Tonya (2017) demonstram uma capacidade rara de retratar feminilidade com ironia, violência e ternura simultaneamente. Em Supergirl, porém, ele parece engolido pelas exigências do gênero: as sequências de ação são pesadas, confusas, e a trilha pop em câmera lenta, tão característica do universo Gunn, perde a graça na segunda vez e se torna mecânica na terceira. A direção não é desastrosa, mas é impessoal. E impessoalidade é o pior pecado para um filme que deveria ter alma.

Vale registrar o afeto genuíno embutido no filme: um dos planetas se chama Bilquis, em homenagem à artista brasileira que desenhou os quadrinhos, e logo em seguida Garota de Ipanema toca numa cena. A roteirista Ana Nogueira colocou o Brasil no espaço, literalmente, e isso é bonito. Só que o "fan service", por mais caloroso que seja, não substitui profundidade dramática.

Tudo isso dito, Milly Alcock é a razão mais sólida para sentar-se na poltrona. A sua Kara Zor-El é diferente de tudo que se viu antes na personagem: nem a doçura de Helen Slater em 1984, nem o calor sincero de Melissa Benoist na série. É uma Supergirl raivosa, traumatizada, com um "foda-se" legítimo nos olhos, uma sobrevivente que ainda não aprendeu a ser heroína. Alcock carrega o filme mesmo quando o roteiro a abandona.

É precisamente por isso que o saldo final é amargo. Supergirl (2026) tem, no centro, uma performance que merecia um filme à altura. O que ela recebeu foi um produto competente, visualmente barulhento e emocionalmente superficial: uma continuação obrigatória que, em vez de nascer do desejo de contar uma história, parece ter nascido do calendário de lançamentos de um estúdio. A Mulher do Amanhã merecia mais do que o cinema de hoje conseguiu oferecer.


terça-feira, março 31, 2026

Super-Homem nos dias de hoje

Super-Homem nos dias de hoje

Se existe um personagem capaz de atravessar gerações, mídias e mudanças culturais sem perder sua essência, esse personagem é o Superman. Mais do que um herói de capa vermelha, ele é um símbolo — de esperança, de valores e, para muitos, de uma conexão pessoal que vai muito além das páginas dos quadrinhos ou das telas do cinema.

Neste espaço, eu compartilho essa relação construída ao longo de décadas: uma jornada que começa na infância, passa por coleções, filmes, debates e experiências profissionais, e chega até uma visão mais madura sobre o que o Superman realmente representa. No texto “O Homem que conhece o Super-Homem”, você vai entender como essa conexão se formou, não como fã ocasional, mas como alguém que viveu e estudou o personagem de forma profunda.

O Homem que conhece o Super-Homem

Já em “As melhores aventuras do Superman no cinema”, o foco muda para a tela grande: uma análise das diferentes interpretações do herói ao longo do tempo, dos clássicos com Christopher Reeve até versões mais recentes, mostrando como cada geração encontra o seu próprio Superman, algo que reflete a forma como o personagem acompanha a vida de cada fã .

As melhores aventuras do Superman no cinema

Nesta entrevista, compartilho não apenas minha trajetória como colecionador e estudioso do personagem, mas também minha visão sobre o significado cultural do Superman. Falo sobre como o herói evoluiu ao longo das décadas, por que ele continua relevante no mundo atual e como diferentes versões — nos quadrinhos, cinema e TV — dialogam com o público de cada época. Mais do que uma análise técnica, a conversa revela o lado pessoal dessa relação: como o Superman deixa de ser apenas ficção e se torna parte da identidade de quem cresce com ele.


Superman ainda é um grande ícone da cultura pop?

Se você também acredita que o Superman é mais do que um personagem, ou quer entender por que ele continua relevante depois de tanto tempo, esses textos e a entrevista são um excelente ponto de partida.








quinta-feira, março 26, 2026

Confins do Universo: Olha pra cima, Superman!

 

Confins do Universo: Olha para cima, Superman!



A convite de Samir Naliato participei desse Confins do Universo especial para debater o novo filme do Super-Homem do diretor James Gunn, que está atualmente em cartaz nos cinemas do mundo todo. Obrigado a Roberto Sadovski, Marcelo Naranjo, Sérgio Codespoti e Sidney Gusman pelo empolgante papo sobre o maior super-herói de todos os tempos. 22/julho/2025

#superman #jamesgunn

https://universohq.com/podcast/confins-do-universo-229-olha-pra-cima-superman/

quarta-feira, julho 09, 2025

James Gunn's Superman: A Hero for Our Times

 


James Gunn's Superman: A Hero for Our Times


At 87 years old, Superman remains as alive, current, relevant, and necessary as ever. The new cinematic version of the media icon created by Jerry Siegel and Joe Shuster during the Great Depression hits the screens under the direction of screenwriter and filmmaker James Gunn, kicking off a new phase for the DC Comics characters on film.

Far from radically overhauling the DC universe, and essentially following the same thematic approach he brought to the Guardians of the Galaxy trilogy, Gunn pours in a heavy dose of irony, humor, lightness, and fun—hallmarks of his style—creating a feature film that can be enjoyed by audiences of all ages. There’s none of the romantic reverence of Bryan Singer’s Superman Returns, the rebellious deconstruction of Zack Snyder, or the deep, mythological themes of Richard Donner. For better or worse, James Gunn’s Superman is simply an unpretentious, fun superhero adventure, with no major consequences or dilemmas.

Thus, Gunn populates the new DC universe with a dozen new faces who, while beloved and familiar to veteran comic readers, had barely appeared in live-action, let alone on the big screen. We’re introduced to Guy Gardner, Mister Terrific, Hawkgirl, Metamorpho, the Engineer, Ultraman, and of course, Krypto the Superdog.

Repeating exactly what he’s always done in his previous works—Slither, Super, the Guardians of the Galaxy trilogy, and The Suicide Squad—we once again have a group of misfits who must learn to coexist and work together to achieve a common goal by the end of the story. Gunn also used this same model in the DC TV series he wrote and produced: Peacemaker and Creature Commandos.

Yet despite the large number of secondary characters, Gunn manages to keep the main focus on the Man of Steel. At the narrative heart of the film remains the original debate between nature and nurture, present since the hero’s genesis in Action Comics #1: is Superman the son of Kryptonian scientists Jor-El and Lara, or the son of farmers Jonathan and Martha Kent? Where does his goodness and will to do good come from? Unlike the deterministic certainty of Donner’s version or the Freudian balance of Snyder’s, Gunn resolves the conflict in a simple and direct way, adopting a strictly Lockean solution, following what John Byrne wrote in the Man of Steel miniseries.

In 1986, the British-Canadian comic book writer “Marvelized” the character, sparking a small revolution in the post-Crisis era. In the same way, the new film version also "Marvelizes" the Man of Tomorrow—not just in its theme park tone or colorful visuals. The original superhero ceases to be a flawless, untouchable god and becomes more human, fallible, and relatable to the general audience, avoiding the mythological detachment that, in many versions, makes the character difficult for today’s audiences to embrace.

One of the film’s most striking elements is its visual aesthetic, which steers away from the dark filters typical of Zack Snyder and Christopher Nolan’s DC adaptations. Gunn opts for vivid colors, art-deco and retro-futuristic design, and cinematography that evokes pre-Crisis comic books. There’s clear care in composing each shot with visual clarity and pop energy. The art direction embraces the whimsical without veering into childish, and the new Superman costume proves both functional and iconic. Gunn also brings back John Williams’s 1978 Superman theme, just as Singer did in 2006—but this time, John Murphy and David Fleming adapt it into a more pop/rock version with electric guitar instead of a grand orchestra. As is typical in Gunn’s films, the soundtrack serves as a narrative and emotional tool. Packed with obscure punk rock hits, it helps punctuate key scenes—especially during emotional moments between Lois Lane and Clark Kent.

While modern and up-to-date, Gunn’s vision also brings back ideas and themes from pre-Crisis comics, especially the Silver Age stories by Mort Weisinger, and to a lesser extent, the Bronze Age of Julie Schwartz. While Byrne made Clark Kent the true identity and Superman the disguise, David Corenswet and James Gunn make the duality between reporter and superhero less black-and-white—more gray, complex, and profound: both the Daily Planet journalist and the superhero are personas Kal-El creates to deal with his origin and upbringing. Only Lois Lane, Jonathan, and Martha Kent interact with his true self.

The film’s main flaw is its lack of tension and surprises. Lex Luthor, masterfully portrayed by Nicholas Hoult, is obviously the big villain behind all of Superman’s and the heroes’ problems in the plot. But everything is resolved too easily—even an international conflict triggered by a historic political crisis is quickly handled. Hoult avoids the caricatured Luthor seen in Gene Hackman and Jesse Eisenberg, creating a manipulative and realistic evil genius with contemporary undertones reminiscent of corporate or political figures. His performance adds a layer of cynicism that contrasts well with Clark’s idealism.

Even when the film suggests some welcome tension between Lois and Clark, the resolution comes too easily. In fact, their romantic relationship is one of the few original surprises of this new universe. Rather than portraying them as strangers falling in love, like in the films with Christopher Reeve and Margot Kidder, or as a couple with a past relationship, like in the movie with Brandon Routh and Kate Bosworth, Gunn is partially inspired by the approach of David S. Goyer, Nolan, and Snyder—showing the two reporters in a budding relationship still under development. Dramatically, this is the film’s strongest element. The newcomer Corenswet and the experienced Rachel Brosnahan are wonderful in every scene they share. Beyond the palpable chemistry between them, the script allows them to develop the only truly compelling relationship in the film. The rest of the time, Gunn’s rollercoaster-paced plot and action never stop for even a second.

Even lighthearted and unpretentious, this new Superman feels aware of the weight of the legacy it carries. Gunn doesn’t try to reinvent the character completely, but to update him for a generation in need of symbols of kindness, optimism, and ethical action. In this post-truth world saturated with antiheroes, sarcasm, and cynical narratives, the return of a kind, hopeful, and idealistic hero is, paradoxically, an act of boldness. By rescuing the Silver Age vision of the character without being childish—and without abandoning the emotional maturity gained in the post-Crisis comics—the film proposes that it is still possible to believe in heroes with pure hearts, and that may be its greatest achievement.

Although it’s not a cinematic masterpiece like the 1978 classic, the new film will be, for an entire new generation of fans, the definitive superhero to populate their dreams and hopes for a lifetime. Somewhere, a four-year-old boy will see in Corenswet an ideal of truth, justice, kindness, and empathy—just as Reeve was in the 1970s and ’80s.

— Fabio Marques, July 9, 2025

Superman de James Gunn: Un Héroe para los Tiempos de Hoy


 Superman de James Gunn: Un Héroe para los Tiempos de Hoy

A sus 87 años, Superman sigue tan vivo, actual, relevante y necesario como siempre lo fue. La nueva versión cinematográfica del ícono mediático creado por Jerry Siegel y Joe Shuster durante la Gran Depresión llega a las pantallas de la mano del guionista y director James Gunn, iniciando una nueva etapa para los personajes de DC Comics en el cine.

Lejos de reformular drásticamente el universo DC, y siguiendo básicamente la misma propuesta temática que presentó en la trilogía Guardianes de la Galaxia, Gunn vierte una gran dosis de ironía, humor, ligereza y diversión, rasgos típicos de su estilo, creando un largometraje que puede ser disfrutado por espectadores de todas las edades. No hay aquí la reverencia romántica de Superman Returns, de Bryan Singer, ni la deconstrucción rebelde de Zack Snyder, tampoco los temas profundos y mitológicos de Richard Donner. Para bien o para mal, el Superman de James Gunn es simplemente una aventura divertida y despreocupada de superhéroes, sin grandes consecuencias ni dilemas.

De esta forma, Gunn puebla el nuevo universo DC con una docena de nuevos rostros que, aunque populares y queridos entre los lectores veteranos de cómics, habían aparecido poco en versiones live-action, y mucho menos en la gran pantalla. Así, se nos presentan Guy Gardner, Señor Increíble, Mujer Halcón, Metamorpho, la Ingeniera, Ultraman y, obviamente, Krypto, el Super-Perro.

Repitiendo exactamente lo que siempre hizo en sus trabajos anteriores, como Slither, Super, la trilogía Guardianes de la Galaxia y The Suicide Squad, tenemos aquí a un grupo de inadaptados que debe aprender a convivir y trabajar en equipo para alcanzar un objetivo común al final de la historia. Este mismo modelo fue utilizado por Gunn en las series de televisión de DC que escribió y produjo, Peacemaker y Creature Commandos.

Pero, a pesar de la gran cantidad de personajes secundarios, logra mantener el foco principal en el Hombre de Acero. En el corazón narrativo de la película permanece el debate original entre naturaleza y crianza, presente desde la génesis del héroe en Action Comics #1: ¿es Superman hijo de los científicos kryptonianos Jor-El y Lara, o hijo de los granjeros Jonathan y Martha Kent? ¿De dónde provienen su bondad y su deseo de hacer el bien? A diferencia de la certeza determinista de la versión de Donner y del equilibrio freudiano de Snyder, Gunn resuelve el conflicto de forma simple y directa, adoptando una solución estrictamente lockeana, siguiendo lo que escribió John Byrne en la miniserie The Man of Steel.

En 1986, el historietista británico-canadiense “marvelizó” al personaje, provocando una pequeña revolución en el periodo posterior a Crisis on Infinite Earths. Del mismo modo, esta nueva versión cinematográfica también representa una “marvelización” del Hombre del Mañana, y no solo en su tono de parque de diversiones o en la estética colorida del filme. El superhéroe original deja de ser ese dios intachable, inmaculado y perfecto para convertirse en alguien más humano, falible y cercano al gran público, evitando el distanciamiento mitológico típico que, en muchas versiones, hace difícil que el personaje sea apreciado por la audiencia actual.

Uno de los elementos más llamativos del filme es su estética visual, que huye del filtro sombrío característico de las adaptaciones de Zack Snyder y Christopher Nolan. Gunn apuesta por colores vivos, diseño art déco y retrofuturista, y una fotografía que remite a los cómics pre-Crisis. Se nota un cuidado evidente en la composición de cada plano con claridad visual y energía pop. La dirección de arte abraza lo lúdico sin caer en lo infantil, y el vestuario del nuevo Superman resulta tanto funcional como emblemático. Gunn también recupera el tema compuesto por John Williams para el personaje en 1978, como lo hizo Singer en 2006, pero en esta versión John Murphy y David Fleming lo adaptan a una versión más pop/rock con uso de guitarra en lugar de gran orquesta, y como en todas las películas de Gunn, la banda sonora es usada como herramienta narrativa y emocional, cargada de hits oscuros del punk rock que subrayan escenas clave, especialmente en los momentos de construcción emocional entre Lois Lane y Clark Kent.

Al mismo tiempo que es una versión moderna y actual, la visión de Gunn retoma ideas y temas de los cómics pre-Crisis, principalmente de la Era de Plata de Mort Weisinger y, en menor medida, de la Era de Bronce de Julie Schwartz. Mientras Byrne convirtió a Clark Kent en la verdadera persona y a Superman en un disfraz, David Corenswet y James Gunn hacen que la dualidad entre el reportero y el héroe sea menos blanco y negro, más gris, compleja y profunda: tanto el periodista del Daily Planet como el superhéroe son construcciones que Kal-El crea para lidiar con su origen y su identidad. Solo Lois Lane, Jonathan y Martha Kent interactúan con su verdadero yo.

La película falla por la falta de conflictos y sorpresas. Lex Luthor, interpretado magistralmente por Nicholas Hoult, es obviamente el gran villano detrás de todos los problemas y obstáculos enfrentados por Superman y los héroes en la trama. Pero todo se resuelve con demasiada facilidad, incluso un conflicto internacional provocado por una histórica crisis política se resuelve rápidamente. Hoult se aleja del Luthor caricaturesco de Gene Hackman y Jesse Eisenberg, creando un genio del mal manipulador y realista con tintes contemporáneos que recuerdan a figuras del mundo corporativo y político actual. Su interpretación añade una capa de cinismo que contrasta con el idealismo de Clark.

Incluso cuando la película sugiere una tensión bienvenida en la relación entre Lois y Clark, la solución llega fácilmente. De hecho, la relación romántica entre ambos es una de las pocas sorpresas originales de este nuevo universo. En lugar de presentarlos como desconocidos que se enamoran, como en las películas con Christopher Reeve y Margot Kidder, o como una pareja que ya tuvo una relación, como en la película con Brandon Routh y Kate Bosworth, Gunn se inspira parcialmente en el enfoque de David S. Goyer, Nolan y Snyder, mostrando a los dos reporteros en una relación reciente y aún en desarrollo. Dramáticamente, este es el mejor elemento del filme. El novato Corenswet y la experimentada Rachel Brosnahan están maravillosos en todas las escenas que comparten. Además de la química palpable entre ambos, el guion permite que desarrollen la única relación realmente interesante de la película. El resto del tiempo, la acción y el ritmo vertiginoso de montaña rusa creado por Gunn no se detiene ni un segundo.

Incluso siendo desenfadado y ligero, este nuevo Superman parece consciente del peso del legado que lleva. Gunn no intenta reinventar al personaje completamente, sino actualizarlo para una generación que necesita símbolos de bondad, optimismo y acción ética. En este mundo posverdad saturado de antihéroes, sarcasmo y narrativas cínicas, el regreso de un héroe amable, esperanzador e idealista es, paradójicamente, un acto de osadía. Al rescatar la visión de la Era de Plata del personaje sin caer en lo infantil, y sin renunciar a la madurez emocional ganada en los cómics post-Crisis, la película propone que aún es posible creer en héroes de corazón puro, y tal vez ese sea su mayor mérito.

Aunque no sea una obra maestra cinematográfica como el clásico de 1978, la nueva película será, para toda una nueva generación de fans, el superhéroe definitivo que habitará sus sueños y aspiraciones para toda la vida. En algún lugar, un niño de cuatro años verá en Corenswet un ideal de verdad, justicia, bondad y empatía, del mismo modo en que Reeve lo fue en los años 70 y 80.

— Fabio Marques, 9 de julio de 2025

Super-Homem de James Gunn: Um Herói para os Tempos de Hoje



Super-Homem de James Gunn: Um Herói para os Tempos de Hoje


Aos 87 anos, o Super-Homem continua tão vivo, atual, relevante e necessário como sempre foi. A nova versão cinematográfica do ícone midiático criado por Jerry Siegel e Joe Shuster durante a Grande Depressão chega às telas pelas mãos do roteirista e diretor James Gunn, iniciando uma nova fase dos personagens da DC Comics no cinema.

Longe de reformular drasticamente o universo DC, e seguindo basicamente a mesma proposta temática que trouxe à trilogia Guardiões da Galáxia, Gunn derrama uma grande dose de ironia, humor, leveza e diversão, traços típicos de seu estilo, criando um longa-metragem que pode ser consumido por espectadores de todas as idades. Não se vê a reverência romântica de Superman: O Retorno, de Bryan Singer, nem a desconstrução rebelde de Zack Snyder, tampouco os temas profundos e mitológicos de Richard Donner. Para o bem ou para o mal, o Superman de James Gunn é simplesmente uma divertida aventura despretensiosa com super-heróis, sem grandes consequências ou dilemas.

Dessa forma, Gunn povoa o novo universo DC com uma dúzia de novos rostos que, embora populares e queridos entre os leitores veteranos dos quadrinhos, pouco haviam aparecido em versões live-action, que dirá nas telonas. Assim, temos a apresentação de Guy Gardner, Senhor Incrível, Mulher-Gavião, Metamorpho, Engenheira, Ultraman e, obviamente, Krypto, o Super-Cão.

Repetindo exatamente o que sempre fez em seus trabalhos anteriores, como Slither, Super, a trilogia Guardiões da Galáxia e The Suicide Squad, temos aqui um grupo de desajustados que precisa aprender a conviver e trabalhar em conjunto para atingir um objetivo comum ao final da trama. Esse mesmo modelo também foi utilizado por Gunn nas séries de TV da DC que produziu e roteirizou, Peacemaker e Creature Commandos.

Mas, apesar da grande quantidade de personagens secundários, ele consegue manter o foco principal no Homem de Aço. No coração narrativo do filme ainda está o debate original entre natureza e criação, presente desde a gênese do herói em Action Comics #1: é o Super-Homem filho dos cientistas kryptonianos Jor-El e Lara, ou filho dos fazendeiros Jonathan e Martha Kent? De onde vem sua bondade e sua vontade de fazer o bem? Diferente da certeza determinista da versão de Donner e do equilíbrio freudiano de Snyder, Gunn resolve o conflito de forma simples e direta, adotando uma solução estritamente lockeana para a questão, seguindo o que foi escrito por John Byrne na minissérie The Man of Steel.

Em 1986, o quadrinista britânico-canadense “marvelizou” o personagem, provocando uma pequena revolução no pós-Crise. Da mesma forma, a nova versão cinematográfica também é uma "marvelização" do Homem do Amanhã, e não apenas no tom de parque de diversões ou na estética colorida do filme. O super-herói original deixa de ser aquele deus irrepreensível, imaculado e perfeito para se tornar mais humano, falho e próximo do grande público, evitando o distanciamento mitológico típico que, em muitas versões, torna o personagem difícil de ser apreciado pela audiência atual.

Um dos elementos mais marcantes do filme é sua estética visual, que foge do filtro sombrio característico das adaptações de Zack Snyder e Christopher Nolan em outras adaptações da DC, Gunn aposta em cores vivas, design art-deco e retrô-futurista e uma fotografia que remete aos quadrinhos pré-Crise. Há um cuidado evidente em compor cada quadro com clareza visual e energia pop. A direção de arte abraça o lúdico sem cair no infantil, e o figurino do novo Superman se mostra ao mesmo funcional e emblemático. Gunn também restaura o tema composto por John Williams para o personagem em 1978, como também fez Singer em 2006, mas nessa versão John Murphy e David Flemingo adaptaram o tema musical para uma versão mais pop/rock com uso de guitarra ao invés de um grande orquestra, e como em todo filme de Gunn trilha sonora é usada como ferramenta narrativa e emocional, carregado com hits obscuros do punk rock funciona para pontuar cenas-chave, especialmente nos momentos de construção emocional entre Lois Lane e Clark Kent.

Ao mesmo tempo em que é uma versão moderna e atual, a visão de Gunn retoma ideias e temas dos quadrinhos pré-Crise, principalmente da Era de Prata de Mort Weisinger e, em menor grau, da Era de Bronze de Julie Schwartz. Enquanto Byrne fez de Clark Kent a verdadeira persona e do Super-Homem um disfarce, David Corenswet e James Gunn tornam a dualidade entre o repórter e o herói menos preto no branco, mais cinzenta, complexa e profunda: tanto o jornalista do Planeta Diário quanto o super-herói são construções que Kal-El cria para lidar com sua origem e formação. Apenas Lois Lane, Jonathan e Martha Kent interagem com seu verdadeiro eu.

O filme peca pela falta de conflitos e surpresas. Lex Luthor, interpretado magistralmente por Nicholas Hoult, é obviamente o grande vilão por trás de todos os problemas e obstáculos enfrentados pelo Super-Homem e pelos heróis no enredo. Mas tudo se resolve muito facilmente, mesmo um conflito internacional provocado por uma histórica crise política é contornado rapidamente. Hoult foge do Luthor caricato de Gene Hackman e Jesse Eisenberg, criando um gênio do mal manipulador e realista com tons contemporâneos que lembram figuras do mundo corporativo e da política atual, sua performance adiciona uma camada de cinismo que contrasta com o idealismo de Clark.

E mesmo quando o filme sugere uma tensão bem-vinda no relacionamento entre Lois e Clark, a solução surge fácil. Aliás, o relacionamento romântico entre os dois é uma das poucas surpresas originais deste novo universo. Em vez de apresentá-los como desconhecidos que se apaixonam, como nos filmes com Christopher Reeve e Margot Kidder, ou como um casal que já teve um relacionamento, como no filme com Brandon Routh e Kate Bosworth, Gunn se inspira parcialmente na abordagem de David S. Goyer, Nolan e Snyder, mostrando os dois repórteres num relacionamento recente e ainda em construção. Dramaticamente, esse é o melhor elemento do filme. O novato Corenswet e a experiente Rachel Brosnahan estão maravilhosos em todas as cenas que compartilham. Além da química palpável entre os dois, o enredo permite que desenvolvam a única relação realmente interessante do filme. No restante do tempo, a ação e a trama acelerada da montanha-russa criada por Gunn não param por um segundo sequer.


Mesmo despretensioso e leve, este novo Super-Homem parece consciente do peso do legado que carrega. Gunn não tenta reinventar o personagem completamente, mas atualizá-lo para uma geração que precisa de símbolos de bondade, otimismo e ação ética. Nesse mundo pós-verdade saturado de anti-heróis, sarcasmo e narrativas cínicas, o retorno de um herói gentil, esperançoso e idealista é, paradoxalmente, um ato de ousadia. Ao resgatar a visão da Era de Prata do personagem sem ser infantilóide, por não abrir mão da maturidade emocional ganha nos quadrinhos pós-Crise, o filme propõe que ainda é possível acreditar em heróis com coração puro e isso talvez seja seu maior mérito.

Apesar de não ser uma obra-prima cinematográfica como o clássico de 1978, o novo filme será, para toda uma nova geração de fãs, o super-herói definitivo que povoará seus sonhos e anseios por toda a vida. Em algum lugar, um garoto de quatro anos verá em Corenswet um ideal de verdade, justiça, bondade e empatia, da mesma forma que Reeve foi nos anos 70 e 80.

- Fabio Marques, 9 de julho de 2025