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quarta-feira, junho 03, 2026

O Super-Homem Escandinavo, o Gibi que Nunca Foi para Mim

O Super-Homem Escandinavo,
o Gibi que Nunca Foi para Mim
por Fabio Marques (Junho de 2026)

Existem muitas histórias raras do Super-Homem. Existem muitas histórias esquecidas do Super-Homem. E então existe Superman og Fredsbomben.

Publicado na Dinamarca em 1990 e posteriormente traduzido para algumas línguas europeias, Superman og Fredsbomben (Super-Homem e a Bomba da Paz, também conhecido como Um relato de Cinco Cidades) ocupa um lugar único na história do Homem de Aço. Até hoje, permanece como o único grahic novel original do Super-Homem concebido, escrito, desenhado e publicado pela primeira vez fora dos Estados Unidos com a plena autorização da DC Comics. Em quase noventa anos de história editorial do Super-Homem, essa distinção por si só o torna notável.

O que mais me fascina, porém, não é a sua raridade. É o fato de que este extraordinário gibi permanece quase invisível para grande parte dos leitores do Super-Homem, especialmente no mundo anglófono. Quase quatro décadas após a sua publicação, jamais recebeu uma edição oficial em inglês. Para uma obra que ganhou prêmios, lançou carreiras internacionais e demonstrou como um ícone quintessencialmente americano poderia ser reinterpretado por uma perspectiva distintamente europeia, essa ausência parece cada vez mais inexplicável.

Como colecionador de Super-Homem do Brasil que coleciona histórias em quadrinhos do personagem desde o início dos anos 1970, Superman og Fredsbomben tornou-se uma das grandes obsessões da minha vida como colecionador.

Ao longo dos anos, reuni todas as sete edições conhecidas do livro: as cinco edições originais publicadas nos países onde a história se passa: Holanda, Noruega, Suécia, Dinamarca e Finlândia, além das posteriores reedições espanhola e italiana. Encontrá-las não foi fácil. Algumas surgiram através de distribuidores europeus, outras em leilões online obscuros, e algumas exigiram anos de paciência. Colecionar Super-Homem frequentemente se torna uma forma de arqueologia, e Superman og Fredsbomben foi uma das escavações mais recompensadoras que já empreendi.

Minha relação com o livro começou no início dos anos 2000, quando obtive uma cópia da edição dinamarquesa original. Na época, eu não falava dinamarquês, e ainda não falo. Munido de pouco mais que um dicionário, determinação e um grau pouco saudável de curiosidade, fui trabalhando lentamente pelo texto. O que descobri era diferente de qualquer história do Super-Homem que eu havia lido.

Aquilo não era Metrópolis. Não era Smallville. Não era sequer a América. Não era sequer uma história em quadrinhos de super-heróis no sentido tradicional, lia-se como uma versão belga de bande dessinée do Super-Homem, repleta de humor, romance e política.

Em vez disso, Lois Lane e Clark Kent embarcam numa jornada pela Europa do Norte, seguindo um misterioso inventor e ativista pela paz chamado Theodore P. Wyatt, cuja máquina revolucionária supostamente transforma material radioativo em chumbo inofensivo. A invenção promete nada menos que o fim da era nuclear. Daí, a Bomba da Paz. Naturalmente, a história logo revela que as coisas não são o que parecem, e em pouco tempo o Super-Homem se vê confrontando uma conspiração envolvendo Lex Luthor, manipulação política e o espectro da ansiedade nuclear que ainda pairava sobre a Europa no fim da Guerra Fria. O que me impressionou imediatamente foi o quão profundamente europeia a história se sentia.

Como membro da Geração-X que cresceu durante a era Reagan, um dos aspectos de Superman og Fredsbomben que mais ressoou em mim foi o seu engajamento com a atmosfera política e cultural da Europa no final da Guerra Fria. Quando li o livro pela primeira vez, não estava me deparando com um período histórico abstrato; estava revisitando um mundo que havia vivido. Lembrei-me de assistir Der Himmel über Berlin, de Wim Wenders, nos anos 1980, com suas imagens assombrosas de uma Berlim dividida. Lembrei-me de acompanhar a ascensão de Mikhail Gorbachev e ouvir palavras desconhecidas como Perestroika e Glasnost de repente entrarem no vocabulário político cotidiano. Assisti à Queda do Muro de Berlim se desenrolar pela televisão, um momento que parecia marcar o fim de uma era e o início de algo inteiramente novo. Ler uma história do Super-Homem ambientada nesse contexto foi ao mesmo tempo apropriado e eletrizante. Ao contrário dos quadrinhos americanos do Super-Homem com que cresci, Superman og Fredsbomben encarava a Guerra Fria por uma perspectiva europeia, refletindo as esperanças, ansiedades e incertezas de nações que viviam muito mais próximas das linhas de fratura do confronto Leste-Oeste. Ainda hoje, sempre que volto ao livro, quase consigo ouvir Wind of Change, dos Scorpions, tocando ao fundo. O quadrinho e a canção se entrelaçaram na minha memória, ambos capturando aquele breve momento otimista em que parecia que antigas divisões estavam desaparecendo e um mundo mais pacífico poderia genuinamente se tornar possível.

As histórias americanas do Super-Homem giram tradicionalmente em torno do heroísmo individual. Superman og Fredsbomben se ocupa de sistemas, diplomacia, medos ambientais, retórica política e confiança pública. Lois e Clark estão sempre conversando entre si. A ameaça não é meramente física. É ideológica. A história reflete uma perspectiva escandinava distinta sobre a política internacional, moldada por nações menores que vivem à sombra das rivalidades entre superpotências.

Lida décadas depois, ainda é possível sentir a atmosfera do final dos anos 1980. A Guerra Fria se aproximava do seu fim, mas a ansiedade nuclear continuava muito real. O livro canaliza esses medos numa narrativa que é simultaneamente lúdica e séria, satírica e sincera. Em muitos aspectos, parece menos um quadrinho americano de super-heróis e mais uma graphic novel político européia que por acaso tem o Super-Homem como protagonista.

Essa singularidade vem diretamente dos seus criadores.

O escritor Niels Søndergaar é um dos mais respeitados roteiristas, tradutores e editores de quadrinhos da Dinamarca. Além do seu trabalho original em quadrinhos, é particularmente célebre por trazer grandes histórias em quadrinhos internacionais aos leitores dinamarqueses através das suas traduções de obras como Tintin e Calvin e Haroldo. Ao longo da sua carreira, foi uma figura central na cultura de quadrinhos escandinava, ajudando a construir pontes entre as tradições europeias e americanas.

Para Superman og Fredsbomben, Søndergaard concebeu uma história que desafiava a narrativa convencional de super-heróis ao mesmo tempo em que permanecia fiel aos valores centrais do Super-Homem. Seu roteiro demonstra uma compreensão de que a maior habilidade do Super-Homem não é sua capacidade de socar com mais força do que qualquer outro, mas seu papel como símbolo moral e cultural. A influência de "The Dark Knight Returns", de Frank Miller, é evidente, mas era uma versão solar do anarquismo de Miller.

Uma das minhas anedotas favoritas sobre o livro envolve as interações de Søndergaard com o editor da DC Comics, Mike Carlin. Ele recordou posteriormente que Carlin objetava ao fato de Clark Kent se transformar em Super-Homem em banheiros públicos de Amsterdã, em vez de cabines telefônicas. Søndergaard argumentou que os telefones públicos eram impraticáveis na Europa por serem muito expostos. Por fim, o editor americano cedeu. Parece um detalhe menor, mas ilustra perfeitamente a troca cultural que se processava nos bastidores: o realismo dinamarquês colidindo com a tradição americana de super-heróis.

Se Søndergaard forneceu o arcabouço intelectual, Teddy Kristianse forneceu a alma.

Hoje Kristiansen é internacionalmente reconhecido como um dos artistas mais talentosos a já trabalhar com o Super-Homem. Em 2005, ganhou o prestigioso Eisner Award pelo seu trabalho artístico em Superman: It's a Bird, escrito por Steven T. Seagle, uma exploração profundamente pessoal e aclamada do mito do Super-Homem.

Porém, quando Superman og Fredsbomben foi criado, Kristiansen ainda estava relativamente no início de sua carreira. Olhando para trás, é impressionante o quanto sua voz artística já se mostrava completamente formada.

A arte era uma mistura diferente do estilo de Moebius, Hugo Pratt e Lorenzo Mattotti. A arte de Teddy Kristianse desafia categorizações fáceis. Mesclando as tradições narrativas dos quadrinhos europeus com a intensidade emocional da ilustração expressionista, seu trabalho privilegia atmosfera, textura e personagem em detrimento do espetáculo convencional de super-heróis. Suas figuras frequentemente são ligeiramente distorcidas, suas composições cinematográficas e suas páginas impregnadas de uma qualidade pictórica que prioriza o clima tanto quanto a clareza narrativa. Em vez de buscar o realismo fotográfico, Kristiansen cria uma realidade emocional, uma em que arquitetura, paisagens, cor e linguagem corporal se tornam partes integrais da narrativa.

Suas páginas pouco se assemelham aos quadrinhos convencionais de super-heróis da época. Em vez de buscar o realismo polido popular nos quadrinhos americanos, Kristiansen abraça formas expressivas, superfícies texturizadas, composições pictóricas e encenação cinematográfica. O resultado se aproxima mais dos romances gráficos europeus do que do universo mainstream de super-heróis.

Anos depois, Bruce W. Timm elogiaria especificamente o estilo distintivo de Kristiansen em Superman og Fredsbomben, reconhecimento que sublinha o quanto a arte continua sendo valorizada entre os profissionais que melhor conhecem o meio. Os editores da DC também queriam que Teddy fosse capaz de desenhar o escudo S do Super-Homem com perfeição. Ele conseguiu, mas claramente nos seus próprios termos.

O que mais me impressiona é como Kristiansen faz o Super-Homem parecer simultaneamente mítico e vulnerável. O personagem se destaca acima das pessoas comuns, mas jamais parece distante delas. Esse equilíbrio é um dos desafios mais difíceis na narrativa do Super-Homem, e Kristiansen o alcança repetidamente ao longo do livro. Essa humanidade também pode ser vista em seu trabalho posterior com o Super-Homem ao lado de Steven T. Seagle em Superman: It's a Bird… e Superman: Metropolis com Chuck Austen.

Outro aspecto inegavelmente europeu são as cores pintadas. E embora de forma escandalosa não esteja creditado em nenhum lugar do romance gráfico: o colorista Søren Håkansso. Onde outro colorista poderia ter recorrido aos vermelhos e azuis primários da publicação convencional de super-heróis, Håkansson compreendeu que esta era um tipo diferente de história que exigia um tipo diferente de luz. Seria fácil dizer que ele foi influenciado pela aclamada pintura de Lynn Varley em TDKR, mas aqui as cores são muito mais sutis. Sua paleta sofisticada e contida, enraizada nos cinzas, âmbares e azuis frios da Europa do Norte, não simplesmente acompanha a narrativa. Ela argumenta a favor dela. Ele faz as cidades nórdicas parecerem habitadas em vez de meramente visitadas, ancoradas no clima e nas estações reais. Sua contribuição não é decoração. É atmosfera — e atmosfera neste livro é tudo.

Embora os coloristas frequentemente fossem ignorados e mal creditados nos quadrinhos europeus durante as décadas de 1980 e 1990, Søren Håkansso conquistou reputação como um dos melhores profissionais da arte na Dinamarca. Historiadores dinamarqueses de quadrinhos o colocam ao lado de coloristas renomados como Bjarne Hansen, Lars Vendelbo e Jesper Ejsing, reconhecendo seu papel em elevar a coloração de uma tarefa puramente técnica a uma ferramenta narrativa essencial. Seu trabalho em projetos aclamados, incluindo a série Valhalla de Peter Madsen, demonstrou uma abordagem pictórica sofisticada que ajudou a definir a identidade visual distintiva dos quadrinhos dinamarqueses do período. A contribuição de Håkansson para Superman og Fredsbomben também serve como um exemplo precoce da extraordinária tradição de coloração que mais tarde alcançaria públicos internacionais através do aclamado trabalho de Bjarne Hansen em Superman for All Seasons.

Nenhum trabalho criativo existe isolado, e Superman og Fredsbomben não é exceção. Por trás do roteiro de Søndergaard, do trabalho de Kristiansen e de Håkansson, encontra-se outra inteligência visual que serve de ponte diretamente para a prosa: a letrista Rebecca Løw. Os letristas eram frequentemente praticamente invisíveis nos créditos dos quadrinhos, especialmente nas publicações europeias, mas Løwe era uma presença constante nas edições dinamarquesas dos principais quadrinhos europeus publicados pela Interpresse e pela Carlsen Comics nesse mesmo período. Créditos associados a séries como Les Tuniques Bleues, conhecida em dinamarquês como Blåfrakkerne, indicam que ela fazia parte do pequeno grupo de especialistas em produção responsáveis pela adaptação de quadrinhos internacionais para o mercado dinamarquês.

Nada disso, evidentemente, acontece sem a infraestrutura editorial por trás. O editor Henning Kure, uma das figuras mais influentes da cultura de quadrinhos dinamarquesa do século XX, um homem que passou sua carreira construindo pontes entre os leitores escandinavos e o mundo mais amplo dos quadrinhos, forneceu a inteligência editorial que moldou o projeto. E o editor Arne Stenby teve a audácia de propô-lo em primeiro lugar. Numa época em que a ideia de a DC Comics autorizar uma editora estrangeira a criar uma história original do Super-Homem era, por assim dizer, improvável, a convicção de Stenby transformou uma ideia ambiciosa num livro acabado. O fato de Superman og Fredsbomben existir não é inevitável. É o resultado de pessoas específicas, num momento específico, recusando-se a aceitar que certas coisas simplesmente não eram feitas. Um deles é o superfã Ove Høyer, que ajudou e apoiou a produção deste título e recebe uma dedicatória especial no livro. Conhecido por gerações de leitores dinamarqueses como "Super-Ove", Ove Høyer foi o principal defensor do Super-Homem e dos quadrinhos de super-heróis na Dinamarca. Como tradutor, editor e colunista, passou décadas apresentando o Homem de Aço aos leitores e ajudando a moldar a cultura dinamarquesa de quadrinhos.

Talvez o aspecto mais fascinante de Superman og Fredsbomben seja a eficácia com que remove o Super-Homem do seu contexto cultural habitual.

A história se desenrola por Amsterdã, Oslo, Copenhague, Estocolmo e Helsinque. Essas cidades, no final dos anos 1980, eram amplamente associadas a movimentos pacifistas, desarmamento nuclear, diplomacia e uma visão mais internacionalista da política mundial. Não eram oficialmente conhecidas como "as capitais da paz do mundo", como a história implica, mas de uma perspectiva europeia frequentemente simbolizavam muitos dos valores associados ao movimento pacifista.

Marcos famosos aparecem ao longo da narrativa, alguns dos quais sofrem danos espetaculares durante as batalhas do Super-Homem. Segundo Søndergaard, Mike Carli e a DC ficaram inicialmente preocupados com a quantidade de destruição retratada. A solução foi simples: o livro afirma explicitamente que o Super-Homem posteriormente reconstrói tudo.

Novamente, isso parece um detalhe menor, mas revela algo importante sobre como a DC encarava o Super-Homem. Mesmo numa história produzida no exterior, certas expectativas morais permaneciam inegociáveis. O Super-Homem poderia lutar. O Super-Homem poderia cometer erros. Mas o Super-Homem tinha de assumir a responsabilidade. Essa insistência acabou fortalecendo a história.

Em julho de 2022, após carregar a ideia por quase vinte anos, finalmente transformei um sonho em realidade. Viajei pelos mesmos países retratados no romance gráfico, seguindo o mais de perto possível o roteiro percorrido por Lois Lane e Clark Kent. Não era simplesmente turismo. Era uma peregrinação.

Caminhando pelos Grachtenpanden ao longo dos canais de Amsterdã, fiquei impressionado com a fidelidade com que Kristiansen havia capturado a geometria daquelas fachadas estreitas refletidas nas águas escuras. Havia estudado seus painéis tantas vezes que a cidade parecia simultaneamente nova e profundamente familiar, como se estivesse visitando um lugar que havia sonhado em vez de lido. As casas dos canais eram exatamente como ele as havia desenhado, e ainda assim eram também mais: tinham cheiro, som e o frio de uma manhã nórdica que nenhuma página de quadrinho pode reter plenamente.

Strøget em Copenhague e os Jardins de Tivoli nas proximidades produziram uma sensação diferente. Esses eram lugares retratados no livro com uma leveza que correspondia ao seu caráter, e caminhando por eles compreendi por que Søndergaard os havia escolhido. Há algo inerentemente teatral no Tivoli, algo que pertence naturalmente a uma história que mistura política com humor, e estando dentro dele senti a lógica do livro se encaixar de um modo que a leitura sozinha jamais havia alcançado completamente.

O Parque Frogner em Oslo me exigiu algo diferente. Caminhando entre o Monolito e as esculturas de Vigeland, envolto naquela meditação estranha e monumental sobre a figura humana, pensei em como Kristiansen havia utilizado essas formas na história — como seu peso e estranheza se adequavam a uma narrativa que nunca era inteiramente confortável, nunca era inteiramente leve. As esculturas parecem algo sonhado em vez de esculpido, e o livro compartilha essa qualidade.

Estocolmo ofereceu seu próprio prazer. Parado em Stortorget, no coração medieval da cidade velha, Gamla Stan, e depois em Sergels torg com sua geometria modernista e suas multidões, senti o contraste que perpassa o próprio livro: a tensão entre a história e o presente, entre o monumental e o cotidiano, entre um mundo que se lembra e um mundo que segue em frente.

E então, Helsinque. Parado diante do Monumento a Sibelius — aquela extraordinária cascata de tubos de aço que parece simultaneamente um órgão de tubos desmontado pelo vento e uma figura que se dissolve em som puro —, senti algo que não havia antecipado: uma espécie de duplicação da realidade. 

Havia encontrado este lugar pela primeira vez não pessoalmente, mas em tinta, através da interpretação de Kristiansen, anos antes de ter qualquer razão para acreditar que algum dia estaria ali. E no entanto estava, comparando a luz real caindo sobre o aço real com a luz que um artista dinamarquês havia imaginado e retratado décadas antes. A Catedral de Helsinque, branca e vasta contra o céu, produziu a mesma sensação. Esses não eram simplesmente marcos turísticos. Eram lugares que eu havia carregado dentro de mim por anos, comprimidos em painéis de quadrinhos, e que de repente tinham volume, peso e clima. Foi, no sentido mais verdadeiro da palavra, avassalador. Não esmagador, mas expansivo — como se o mundo tivesse silenciosamente crescido ao meu redor.

Antes de fazer a viagem, tive a oportunidade de discutir online tanto o romance gráfico quanto meus planos de viagem com Niels Søndergaar e Teddy Kristianse. Também conversei com o ex-editor do Super-Homem, Mike Carlin, cujo entusiasmo pelo projeto refletia o respeito que ele continua a inspirar entre aqueles familiarizados com a sua história. Cheguei até a tentar convencer Dan Didio a reimprimi-lo nos EUA.

A experiência reforçou algo que há muito suspeitava: Superman og Fredsbomben não é meramente uma curiosidade. É uma obra genuinamente importante do Super-Homem. A questão que continua me intrigando é simples: por que este livro nunca foi publicado em inglês?

Quando a DC Comics estava disposta a publicar material japonês do Batman por Jiro Kuwata, quando os romances gráficos europeus têm encontrado cada vez mais público anglófono, e quando os estudos sobre o Super-Homem tornaram-se mais internacionais do que nunca, a ausência contínua de Superman og Fredsbomben parece cada vez mais estranha.

A explicação, na medida em que pude apurar ao longo de muitos anos de investigação, parece ser jurídica e não editorial. A Interpresse, a editora dinamarquesa que tornou o livro possível, deixou de existir. Nas décadas seguintes à sua dissolução, a situação dos direitos parece ter se tornado embaralhada no tipo de ambiguidade que assombra acordos editoriais orfanados, sem que nenhuma parte sobrevivente detenha ao mesmo tempo a autoridade e a motivação para buscar novas edições. O livro não foi suprimido. Foi simplesmente deixado cair pelas rachaduras da história corporativa.

Originalmente, Superman og Fredsbomben foi publicado em sete idiomas em sete mercados europeus por seis editoras diferentes. A edição dinamarquesa foi lançada pela Interpresse, a edição holandesa pela Baldakijn Boeken, as edições norueguesa e finlandesa pela Semic, a edição sueca pela Carlsen Comics, a edição espanhola pela Zinco e a edição italiana pela Rizzoli Milano. Esta publicação internacional excepcionalmente ampla refletia tanto a ambientação europeia da história quanto a confiança das editoras de que uma aventura escandinava do Super-Homem poderia atrair leitores além das fronteiras nacionais e linguísticas.

Isso não é incomum no mercado editorial de quadrinhos. O que é incomum é que tenha acontecido com uma obra desta importância. A DC Comics é hoje parte de uma das maiores empresas de entretenimento do mundo, com recursos jurídicos e de licenciamento que superam em muito qualquer coisa imaginável em 1990. Se houvesse vontade de recuperar este livro, os meios para fazê-lo quase certamente existiriam. Acredito nisso há vinte anos. É uma crença silenciosa, mas persistente, e não espero abandoná-la tão cedo.

No entanto, apesar de jamais ter aparecido em inglês, Superman og Fredsbomben recusa-se a desaparecer.

Colecionadores continuam em busca de exemplares. Scans digitais circulam entre entusiastas. Edições espanhola e italiana apresentaram a história a novos leitores. Fãs brasileiros chegaram a produzir uma tradução não oficial para o português. Em dezembro de 2024, Søndergaard e Kristiansen se reuniram para uma exposição em Copenhague celebrando o legado do romance gráfico, exibindo e vendendo obras originais enquanto discutiam sua criação mais de três décadas após a publicação. Esse evento ilustra perfeitamente a estranha e maravilhosa vida pós-publicação do livro. A maioria dos projetos licenciados é esquecida em poucos anos.

Superman og Fredsbomben continua atraindo leitores, colecionadores, pesquisadores e fãs em vários países e idiomas. Para um quadrinho que nunca recebeu uma edição em inglês, isso é uma conquista extraordinária. Talvez essa durabilidade decorra do fato de que o livro compreende algo fundamental sobre o Super-Homem.

O Super-Homem não pertence exclusivamente à América. Embora ele tenha se tornado um dos símbolos mais reconhecíveis da cultura popular americana, foi criado por Jerry Siegel e Joe Shuster, filhos de famílias imigrantes cujas raízes se estendiam muito além dos Estados Unidos. Os pais de Siegel eram imigrantes judeus da Lituânia, enquanto Shuster nasceu no Canadá, numa família judaica com origens tanto nos Países Baixos quanto na Ucrânia.

Recentemente, o presidente da DC, Jim Le, explicou que se identificou profundamente com o Super-Homem porque a história do personagem espelhava aspectos da sua própria experiência como estrangeiro tentando se adaptar a uma nova cultura. Refletindo sobre sua infância como imigrante coreano nos EUA, Lee disse que o Super-Homem ressoou nele porque era "o imigrante supremo", e que o personagem o ajudou a se assimilar à cultura americana ao mesmo tempo em que lhe dava um sentido de pertencimento.

Superman og Fredsbomben demonstra o que acontece quando esse mito passa por um filtro escandinavo. O resultado é reflexivo, engraçado, político, humano, visualmente deslumbrante e diferente de qualquer outra coisa na vasta história do Super-Homem. Mais de trinta anos após a sua publicação, continuo convicto de que merece ser reconhecido não meramente como uma peça de colecionador, mas como um dos romances gráficos do Super-Homem mais fascinantes já criados. Após décadas colecionando suas edições e viajando pela Europa do Norte em seus passos, posso afirmar com confiança que poucos quadrinhos recompensaram minha curiosidade de forma tão rica.

E me ensinou algo que décadas de quadrinhos americanos do Super-Homem, com toda a sua grandeza, jamais conseguiram: que este personagem pertence a qualquer pessoa que já se sentiu como um forasteiro em busca de um lugar no mundo, a qualquer pessoa que já carregou esperança através de fronteiras, a qualquer pessoa que acreditou que a distância entre onde se está e onde se quer chegar pode ser superada. Siegel e Shuster entenderam isso instintivamente, porque viveram assim. Søndergaard e Kristiansen também entenderam, porque a Escandinávia à sombra da Guerra Fria compreendia isso à sua maneira. E eu entendi, lendo um quadrinho dinamarquês com um dicionário no Brasil, decifrando lentamente uma história que nunca foi feita para mim e que, no entanto, desde a primeira página, parecia ter estado me esperando. Uma edição em inglês não apenas tornaria o livro mais acessível.

Devolveria ao debate que sempre mereceu participar. A história do Super-Homem é grande demais, e humana demais, para permanecer trancada em idiomas que a maioria dos seus leitores jamais aprenderá.

Fabio Marques lendo "Superman og Fredsbomben"
por Teddy Kristiansen e Niels Søndergaard


Lois & Clark conversando em"Superman Og Fredsbomben"

Super-Homem destroi o Monolith no Frogner Park em Olso

Lois Lane e o misterio Theo P. Wyatt em Amsterdam

Super-Homem nada nos canais de Amsterdam

Versões internacionais de Super-Homem e a Bomba da Paz

Versões internacionais de Superman og Fredsbomben


Superman e Il Pacificatore, Corto Maltese Magazine #102, Vol. 10 #3 (1992)

Superman og Fredsbomben

quarta-feira, julho 09, 2025

Super-Homem de James Gunn: Um Herói para os Tempos de Hoje



Super-Homem de James Gunn: Um Herói para os Tempos de Hoje


Aos 87 anos, o Super-Homem continua tão vivo, atual, relevante e necessário como sempre foi. A nova versão cinematográfica do ícone midiático criado por Jerry Siegel e Joe Shuster durante a Grande Depressão chega às telas pelas mãos do roteirista e diretor James Gunn, iniciando uma nova fase dos personagens da DC Comics no cinema.

Longe de reformular drasticamente o universo DC, e seguindo basicamente a mesma proposta temática que trouxe à trilogia Guardiões da Galáxia, Gunn derrama uma grande dose de ironia, humor, leveza e diversão, traços típicos de seu estilo, criando um longa-metragem que pode ser consumido por espectadores de todas as idades. Não se vê a reverência romântica de Superman: O Retorno, de Bryan Singer, nem a desconstrução rebelde de Zack Snyder, tampouco os temas profundos e mitológicos de Richard Donner. Para o bem ou para o mal, o Superman de James Gunn é simplesmente uma divertida aventura despretensiosa com super-heróis, sem grandes consequências ou dilemas.

Dessa forma, Gunn povoa o novo universo DC com uma dúzia de novos rostos que, embora populares e queridos entre os leitores veteranos dos quadrinhos, pouco haviam aparecido em versões live-action, que dirá nas telonas. Assim, temos a apresentação de Guy Gardner, Senhor Incrível, Mulher-Gavião, Metamorpho, Engenheira, Ultraman e, obviamente, Krypto, o Super-Cão.

Repetindo exatamente o que sempre fez em seus trabalhos anteriores, como Slither, Super, a trilogia Guardiões da Galáxia e The Suicide Squad, temos aqui um grupo de desajustados que precisa aprender a conviver e trabalhar em conjunto para atingir um objetivo comum ao final da trama. Esse mesmo modelo também foi utilizado por Gunn nas séries de TV da DC que produziu e roteirizou, Peacemaker e Creature Commandos.

Mas, apesar da grande quantidade de personagens secundários, ele consegue manter o foco principal no Homem de Aço. No coração narrativo do filme ainda está o debate original entre natureza e criação, presente desde a gênese do herói em Action Comics #1: é o Super-Homem filho dos cientistas kryptonianos Jor-El e Lara, ou filho dos fazendeiros Jonathan e Martha Kent? De onde vem sua bondade e sua vontade de fazer o bem? Diferente da certeza determinista da versão de Donner e do equilíbrio freudiano de Snyder, Gunn resolve o conflito de forma simples e direta, adotando uma solução estritamente lockeana para a questão, seguindo o que foi escrito por John Byrne na minissérie The Man of Steel.

Em 1986, o quadrinista britânico-canadense “marvelizou” o personagem, provocando uma pequena revolução no pós-Crise. Da mesma forma, a nova versão cinematográfica também é uma "marvelização" do Homem do Amanhã, e não apenas no tom de parque de diversões ou na estética colorida do filme. O super-herói original deixa de ser aquele deus irrepreensível, imaculado e perfeito para se tornar mais humano, falho e próximo do grande público, evitando o distanciamento mitológico típico que, em muitas versões, torna o personagem difícil de ser apreciado pela audiência atual.

Um dos elementos mais marcantes do filme é sua estética visual, que foge do filtro sombrio característico das adaptações de Zack Snyder e Christopher Nolan em outras adaptações da DC, Gunn aposta em cores vivas, design art-deco e retrô-futurista e uma fotografia que remete aos quadrinhos pré-Crise. Há um cuidado evidente em compor cada quadro com clareza visual e energia pop. A direção de arte abraça o lúdico sem cair no infantil, e o figurino do novo Superman se mostra ao mesmo funcional e emblemático. Gunn também restaura o tema composto por John Williams para o personagem em 1978, como também fez Singer em 2006, mas nessa versão John Murphy e David Flemingo adaptaram o tema musical para uma versão mais pop/rock com uso de guitarra ao invés de um grande orquestra, e como em todo filme de Gunn trilha sonora é usada como ferramenta narrativa e emocional, carregado com hits obscuros do punk rock funciona para pontuar cenas-chave, especialmente nos momentos de construção emocional entre Lois Lane e Clark Kent.

Ao mesmo tempo em que é uma versão moderna e atual, a visão de Gunn retoma ideias e temas dos quadrinhos pré-Crise, principalmente da Era de Prata de Mort Weisinger e, em menor grau, da Era de Bronze de Julie Schwartz. Enquanto Byrne fez de Clark Kent a verdadeira persona e do Super-Homem um disfarce, David Corenswet e James Gunn tornam a dualidade entre o repórter e o herói menos preto no branco, mais cinzenta, complexa e profunda: tanto o jornalista do Planeta Diário quanto o super-herói são construções que Kal-El cria para lidar com sua origem e formação. Apenas Lois Lane, Jonathan e Martha Kent interagem com seu verdadeiro eu.

O filme peca pela falta de conflitos e surpresas. Lex Luthor, interpretado magistralmente por Nicholas Hoult, é obviamente o grande vilão por trás de todos os problemas e obstáculos enfrentados pelo Super-Homem e pelos heróis no enredo. Mas tudo se resolve muito facilmente, mesmo um conflito internacional provocado por uma histórica crise política é contornado rapidamente. Hoult foge do Luthor caricato de Gene Hackman e Jesse Eisenberg, criando um gênio do mal manipulador e realista com tons contemporâneos que lembram figuras do mundo corporativo e da política atual, sua performance adiciona uma camada de cinismo que contrasta com o idealismo de Clark.

E mesmo quando o filme sugere uma tensão bem-vinda no relacionamento entre Lois e Clark, a solução surge fácil. Aliás, o relacionamento romântico entre os dois é uma das poucas surpresas originais deste novo universo. Em vez de apresentá-los como desconhecidos que se apaixonam, como nos filmes com Christopher Reeve e Margot Kidder, ou como um casal que já teve um relacionamento, como no filme com Brandon Routh e Kate Bosworth, Gunn se inspira parcialmente na abordagem de David S. Goyer, Nolan e Snyder, mostrando os dois repórteres num relacionamento recente e ainda em construção. Dramaticamente, esse é o melhor elemento do filme. O novato Corenswet e a experiente Rachel Brosnahan estão maravilhosos em todas as cenas que compartilham. Além da química palpável entre os dois, o enredo permite que desenvolvam a única relação realmente interessante do filme. No restante do tempo, a ação e a trama acelerada da montanha-russa criada por Gunn não param por um segundo sequer.


Mesmo despretensioso e leve, este novo Super-Homem parece consciente do peso do legado que carrega. Gunn não tenta reinventar o personagem completamente, mas atualizá-lo para uma geração que precisa de símbolos de bondade, otimismo e ação ética. Nesse mundo pós-verdade saturado de anti-heróis, sarcasmo e narrativas cínicas, o retorno de um herói gentil, esperançoso e idealista é, paradoxalmente, um ato de ousadia. Ao resgatar a visão da Era de Prata do personagem sem ser infantilóide, por não abrir mão da maturidade emocional ganha nos quadrinhos pós-Crise, o filme propõe que ainda é possível acreditar em heróis com coração puro e isso talvez seja seu maior mérito.

Apesar de não ser uma obra-prima cinematográfica como o clássico de 1978, o novo filme será, para toda uma nova geração de fãs, o super-herói definitivo que povoará seus sonhos e anseios por toda a vida. Em algum lugar, um garoto de quatro anos verá em Corenswet um ideal de verdade, justiça, bondade e empatia, da mesma forma que Reeve foi nos anos 70 e 80.

- Fabio Marques, 9 de julho de 2025

segunda-feira, dezembro 03, 2018

Joe Shuster: Entrevista Exclusiva com Thomas Campi

Joe Shuster
Entrevista Exclusiva com Thomas Campi

Todo mundo conhece o Super-Homem, mas nem todo mundo conhece a história dos dois jovens de Cleveland que criaram o Super-Homem. Baseado em material de arquivo e fontes originais, " A história de Joe Shuster: O artista por trás do Superman" conta a história da amizade entre o escritor Jerry Siegel e o ilustrador Joe Shuster e o coloca no contexto mais amplo sobre a origem da indústria americana de quadrinhos.

Em “A História de Joe Shuster: O Artista por trás do Superman”, Julian Voloj e o artista Thomas Scampi traçam um retrato intimista sobre a vida e a obra de Joe Shuster, o primeiro artista do gênero de super-heróis que junto com ser amigo Jerry Siegel criaram o Super-Homem.

Com a publicação de “Joe Shuster” no Brasil pela Editora Aleph em 25 de outubro de 2018, e em homenagem aos 80 anos da publicação da revista Action Comics #1 (DC Comics) que introduziu o Super-Homem em abril de 1938, entrevistamos o artista Thomas Campi. 


Thomas Campi é um premiado artista italiano, que após de viver 6 anos na China, agora é reside permanentemente em Sydney, Austrália. Thomas faz quadrinhos há mais de 18 anos e seu trabalho foi publicado na Itália, Espanha, França, Bélgica, Alemanha, Suíça, Canadá, Brasil, Coréia, EUA, Reino Unido por editoras como Sergio Bonelli Editore (Itália), Ediciones La Cúpula, LeLombard (França-Bélgica), Dupuis (França-Bélgica), Munhakdongne (Coréia), Coconino (Itália), NBM-Papercutz (EUA), SelfMadeHero (Reino Unido), entre outras.

As graphic novels publicadas pela Dupuis "Les Larmes De Seigneur Afghan", escrita por Pascale Bourgaoux e Vincent Zabus, e Macaroni!, também com roteiro de Zabus, receberam o prêmio Cognito como Melhor Documentário em Graphic Novel na Feira do Livro da Bélgica em Bruxelas em 2014 e 2016, respectivamente.

Em 2014, Thomas recebeu o Prêmio Comic de Ouro do International Spectrum Fantastic Art 21 e em 2015 também foi reconhecido com um Prêmio Ledger de Bronze na Austrália.

Sua última exposição individual foi “Les Petites Gens” no Comic Strip Museum de Bruxelas, na Bélgica. Sua graphic anterior “Magritte-Ceci n'est pas une biographie" de Vincent Zabus, foi publicado em francês pela editora Le Lombard com o apoio do Museu Magritte (Bruxelas, Bélgica) e foi traduzida em italiano (Coconino Press), alemão (Carlssen) e inglês (SelfMadeHero).

A graphic novel "Joe Shuster" escrita por Julian Voloj e desenhada por Campi, recebeu o prêmio Carlos Gimenez na categoria "Melhor Trabalho Internacional" anunciado na Heroes Comic Com em Madrid. "Joe Shuster" já publicada em 7 línguas diferentes em 8 países distintos.

Atualmente, ele está desenhando a graphic novel “L'Eveile” (O Despertar) novamente em  parceria com Vincent Zabus que será publicado pela Delcourt
Super-Homem.COM

Como surgiu a ideia para Joe Shuster?

Essa é para o Julian, acho eu.




Você é fã do Super-Homem?

Eu nunca fui um grande fã de super-heróis, apesar de ter visto muitos dos filmes. Eu sempre estive mais interessado em histórias sobre pessoas normais, mais intimista se você quiser.


Siegel e Shuster foram os fanboys originais, você se identifica com eles?


Sim, absolutamente Eu era como eles. Eu ainda estou. Uma pessoa com um "fogo" por dentro, a paixão por histórias em quadrinhos, por arte e contar histórias, é tudo que eu queria fazer e é tudo o que quero fazer. Minha criança interior ainda está muito viva!

Eu sou um artista profissional há cerca de 20 anos, e quando vejo alguns dos meus artistas favoritos e tenho a chance de conversar com eles, eu me comporto como um fanboy, só quero fazer todas as perguntas que eu sempre quis e, claro, quero pedir um esboço.


A história trata de um período bem específico da vida de Joe Shuster, da adolescência até o ano de 1975, quando os créditos do Super-Homem voltaram para eles. Por que você escolheu esta época da longa vida dele?


Esta é mais para o Julian.


A maioria dos livros sobre criação do Super-Homem se concentra principalmente em Siegel, seu livro tenta uma nova maneira de olhar, da perspectiva de Shuster. Você pode falar sobre essa decisão e as dificuldades em pesquisar sua vida, especialmente entre 1948 e 1975?

Do meu ponto de vista, a dificuldade era encontrar uma maneira de desenhar e representar Siegel e Shuster, já que eu não conseguia encontrar as fotos de todas as fases de suas vidas. Eu tive que criar minha própria versão deles, inspirada pelas fotos e alguns vídeos que eu tinha. Meu foco não era fazer retratos, com rostos realistas, mas traduzir nos desenhos todas as emoções e a atmosfera daqueles velhos tempos.


A quantidade de tempo e trabalho dedicados à pesquisa é claramente notável! É possível ver grandes influências de livros como "Superboys" de Brad Ricca, a Biografia do Larry Tye, até mesmo “Homens do Amanhã” de Gerard Jones. Por quanto tempo você pesquisou antes mesmo de começar o livro? Alguma outra referência principal?

Outra para o Julian.



Você teve a chance de viajar para os locais apresentados no livro? Cleveland? Nova Iorque? Toronto? Você trabalhou apenas em fotografias e poucas imagens disponíveis daquela época?

Infelizmente, eu tive que trabalhar apenas com referência a fotos, mas fiz o meu melhor. Para essas cidades, foi muito fácil encontrar boas fotos, desenhos e vídeos. Mais uma vez, meu foco não foi apenas desenhar todos os detalhes e visões fotográficas das cidades, mas quero dar ao leitor a impressão de um certo tempo, atmosfera e humor.

Somente quando o livro já estava publicado nos EUA, tive a chance de ir a Nova York e finalmente visitei alguns dos lugares que desenhei no livro, foi muito emocionante.



Como foi o processo de trabalho entre vocês dois neste livro? Vocês tiveram um roteiro completo antes de começar? Ou vocês trabalharam em uma versão inicial foram colaborando juntos?

O processo para "Joe Shuster" foi um pouco diferente de todos os quadrinhos que eu já fiz antes. Uma das razões é que eu e Julian moramos em fusos horários diferentes. Eu estou em Sydney enquanto ele está em Nova York, o que dificulta ter conversas telefônicas ou pelo Skype frequentes em relação a roteiros e storyboards, algo que geralmente faço quando estou trabalhando com escritores.

A narração de Julian é cheia de emoção e baseada em uma pesquisa muito sólida, também é escrita em prosa sem especificação de painéis e número de páginas. Ele confiava em minhas habilidades de contar histórias, o que trouxe uma liberdade inspiradora à minha criatividade e à maneira como eu queria contar essa história. Comecei a ler e editar o roteiro durante as noites e fins de semana, pois na época em que o recebi estava trabalhando em outro livro.

Enquanto lia as páginas, comecei a pensar em como eu queria dar à história e aos meus desenhos seu próprio ritmo, então dividi o roteiro de Julian em painéis e acrescentei notas e descrições de como imaginei uma cena. Eu não queria definir tudo com uma linha, nem mesmo nos primeiros passos da criação da página, é por isso que depois de esboçar os storyboards eu simplesmente os pintei sem desenhar, tentando dar uma sensação mais pictórica à final. página, algo que poderia sugerir um determinado humor, descrever um momento sem usar muitos detalhes que poderiam ter preenchido a página, mas não adicionando qualquer emoção.

Entrevista conduzida por Fabio Marques para o site Super-Homem.COM  (3/12/2018).
Leia também a entrevista exclusiva com o escritor Julian Voloj.


Jerry Siegel e Joe Shuster, em West Los Angeles, Califórnia, Janeiro de 1979

A História de Joe Shuster: O Artista por trás do Superman

de Julian Voloj e Thomas Scampi
Editora Aleph, 25 de outubro de 2018
Tradução de Marcia Men
ISBN 978-8576574200
http://www.editoraaleph.com.br/


quarta-feira, outubro 03, 2018

Joe Shuster: Entrevista Exclusiva com Julian Voloj


A História de Joe Shuster


Joe Shuster
Entrevista Exclusiva com Julian Voloj

Todo mundo conhece o Super-Homem, mas nem todo mundo conhece a história dos dois jovens de Cleveland que criaram o Super-Homem. Baseado em material de arquivo e fontes originais, " A história de Joe Shuster: O artista por trás do Superman" conta a história da amizade entre o escritor Jerry Siegel e o ilustrador Joe Shuster e o coloca no contexto mais amplo sobre a origem da indústria americana de quadrinhos.

Em “A História de Joe Shuster: O Artista por trás do Superman”, Julian Voloj e o artista Thomas Scampi traçam um retrato intimista sobre a vida e a obra de Joe Shuster, o primeiro artista do gênero de super-heróis que junto com ser amigo Jerry Siegel criaram o Super-Homem.

Com a publicação de “Joe Shuster” no Brasil pela Editora Aleph em 25 de outubro de 2018, e em homenagem aos 80 anos da publicação da revista Action Comics #1 (DC Comics) que introduziu o Super-Homem em abril de 1938, entrevistamos o escritor Julian Voloj, sobre sua nova graphic novel que acaba de vencer o prêmio Carlos Gimenez na categoria "Melhor Trabalho Internacional" anunciado na Heroes Comic Com em Madrid.

Julian VolojJulian Voloj é fotógrafo e escritor, seu trabalho criativo foca em identidade e herança.

Como fotógrafo contribuiu nos jornais The New York Times, The Washington Post e The Jerusalem Post.
Teve mostras exibidas no Museu Deutsch-Historisches de Berlim, e no Bronfman Center na Universidade de Nova Iorque e no Museum of Arts no Queens. Em 2012, o Consulado Alemão em Nova Iorque, exibiu uma retrospectiva de dez anos de sua fotografia na mostra “Only in America”.

Nos quadrinhos ele escreveu a graphic novel “Ghetto Brother: A Lenda do Bronx” ilustrada por Claudia Ahlering e publicada no Brasil em 2016 pela Veneta Editora, que nasceu do convívio com o ex-líder da gangue Benjamin Melendez.
Super-Homem.COM

Como você teve a ideia? Você é fã do Super-Homem? Siegel e Shuster foram os fanboys originais, você se identifica com eles?


Eu fui fascinado com a história dos quadrinhos americanos por um bom tempo. Vivendo em Nova Iorque, eu tenho quadrinistas e historiadores entre meus amigos. Eu acho que sendo um quadrinista de quadrinhos, você é um fã e, até ser ponto, um geek.

Pesquisando a história de Joe Shuster e Jerry Siegel, havia muitas situações que são familiares. Quadrinhos é uma indústria difícil e muitas vezes há frustrações porque é duro ganhar a vida com quadrinhos. Então, sim, de muitas maneiras me identifico com eles.


A história trata de um período bem específico da vida de Joe Shuster, da adolescência até o ano de 1975, quando os créditos do Super-Homem voltaram para eles. Por que você escolheu esta época da longa vida dele?


Não é apenas um livro sobre a vida de Joe Shuster, mas também sobre a criação do Super-Homem, sobre a história americana e sobre as datas pioneiras da indústria de quadrinhos que foi realmente criada graças ao Super-Homem.


Eu quero que o leitor entenda como esse primeiro super-herói foi criado e como ele criou a indústria como um todo. Para fazer isso, você tem que voltar as suas origens e entender quem eram seus criadores.

Siegel e Shuster vieram da mesma cultura e tiveram uma origem similar, sendo ambos filhos de judeus imigrantes do leste europeu. Eles eram fascinados pela cultura pop contemporânea e tiraram elementos dela para criar o Super-Homem. A dupla identidade vem de Zorro, sua cidade é uma cidade americana moderna, mas também é inspirada no famoso filme (Metropolis, 1927) de Fritz Lang. Sua história de origem lembra a história bíblica de Moisés. De todas essas e de muitas outras fontes eles criaram algo totalmente novo: uma ficção científica do aqui e agora, não de humanos explorando planetas distantes, mas um alienígena (inicialmente um homem do futuro) vindo à Terra e se tornando seu herói.

Eu poderia ter continuado o roteiro até o final da vida de Joe, mas queria terminar com um final feliz. Então o acordo com a DC Comics foi esse tipo de final feliz que foi um bom fechamento para a narrativa, mas na vida real, ainda havia muito drama (que o leitor pode ler em outro lugar). Acho que a conclusão que termina em uma nota feliz funciona, já que é uma história de vida muito triste, mesmo que seja contada de maneira divertida.



A maioria dos livros sobre criação do Super-Homem se concentra principalmente em Siegel, seu livro tenta uma nova maneira de olhar, da perspectiva de Shuster. Você pode falar sobre essa decisão e as dificuldades em pesquisar sua vida, especialmente entre 1948 e 1975?

Siegel era a figura dominante da dupla criativa. Ele escreveu os roteiros, ele negociou com os editores e foi ele quem decidiu ir a julgamento.

Joe seguiu sua liderança, e acho que ele decidiu se juntar a Jerry na lide contra a National Publications (nome original da DC Comics) por causa de sua amizade e solidariedade para com ele.

Inicialmente eu estava planejando escrever a partir da perspectiva de uma terceira pessoa, mostrando as duas vidas em paralelo, mas então eu tive acesso a alguns escritos originais de Joe. A Universidade de Columbia, daqui de Nova Iorque, recebeu uma doação de cartas, documentos legais e outros materiais da década de 1960. Ler sobre as lutas de Joe vindo de sua própria voz me convenceu a torná-lo o narrador.



A quantidade de tempo e trabalho dedicados à pesquisa é claramente notável! É possível ver grandes influências de livros como "Superboys" de Brad Ricca, a Biografia do Larry Tye, até mesmo “Homens do Amanhã” de Gerard Jones. Por quanto tempo você pesquisou antes mesmo de começar o livro? Alguma outra referência principal?

Eu tive muita sorte de ter acesso ao trabalho de outros. Existem toneladas de informações disponíveis. Se você procurar on-line, poderá encontrar gravações de áudio, videoclipes, documentos jurídicos e muito mais.

Meu interesse vem de várias décadas, mas provavelmente comecei a pesquisar seriamente o roteiro por volta de 2010. Em 2013, visitei Cleveland, refazendo seus passos e, em 2014, acessei os documentos que foram doados à Universidade de Columbia, que mudaram drasticamente o roteiro. Creio que no final de 2014 o roteiro estava pronto e meu agente me apresentou a Thomas.



Você teve a chance de viajar para os locais apresentados no livro? Cleveland? Nova Iorque? Toronto? Você trabalhou apenas em fotografias e poucas imagens disponíveis daquela época?


Sim, como mencionei antes, visitei Cleveland em 2013, logo depois de Toronto, e morando em Nova York, a história também está perto de casa para mim.


Um fato curioso, a última residência de Joe em Nova York fica a apenas alguns quilômetros a leste da minha casa no Queens e a cena de abertura é no meu próprio bairro.



Jack Kirby, Bill Finger, Steve Ditko, Jerry Siegel, Joe Shuster e muitos outros criadores sofreram injustiças e viram suas criações sendo removidas deles.
Esta é uma história de interesse humano, Joe Shuster não é um herói, ele é imperfeito, vocês mostram ele como uma pessoa tridimensional e sua longa vida foi cheia de decepções e lutas, desde seu problema de visão, a sua passividade e a tristeza nos anos posteriores e seu breve romance com Jolan Kovacs. O livro pinta um panorama muito realista de sua vida, mas em algumas passagens você escolhe fazer uso de sequências de fantasia para lidar com as injustiças que ele experimentou. Você poderia falar sobre isso?

Era importante tornar a história não em preto e branco. Joe não é apenas uma vítima, mas um ser humano que com certeza cometeu erros.

Os editores não são necessariamente os vilões e, como vemos, Jerry e Joe tiveram bons salários no começo e foram celebridades na primeira década do Super-Homem.

Mas então Jerry decidiu balançar o barco, e Joe se juntou a ele por amizade, e o resto é história.

Alguns afirmam que eles foram ingênuos no início, assinando um contrato que daria os direitos, mas como mostramos no livro, não havia precedentes para aquilo e ninguém esperava que o Super-Homem fosse um sucesso.

Então, da mesma forma que Super-Homem se tornou o modelo para o gênero de super-heróis, esse tipo de contrato se tornou o modelo para futuros contratos. Os quadrinistas e criadores estavam trabalhavam por demanda no modelo de “work-for-hire”, e empresas possuíam a propriedade intelectual das histórias e personagens.

Foi o pecado original. Isso é o que torna a história tão fascinante.



Como foi o processo de trabalho entre vocês dois neste livro? Vocês tiveram um roteiro completo antes de começar? Ou vocês trabalharam em uma versão inicial foram colaborando juntos?

Primeiro escrevi o roteiro completo e o apresentei ao meu agente, que me mostrou o portfólio de vários artistas. Quando eu vi o trabalho de Thomas, eu sabia que ele seria a escolha perfeito e, felizmente, ele gostou do meu roteiro e concordou em trabalhar comigo nisso. Houve pequenas mudanças ao longo do caminho, mas tudo em todo o script permaneceu o mesmo durante todo o processo.




O livro está sendo publicado no Brasil nesta semana, pela primeira vez em língua portuguesa. Esta é a sétima versão estrangeira publicada depois que a americana foi publicada em maio passado. Você criou o original em inglês? Super-Homem é muito popular em todo o mundo, como você vê o sucesso internacional do livro?

Assim como minha primeira graphic novel “Ghetto Brother” (publicada no Brasil em 2016), o roteiro foi escrito em inglês.

Quando apresentei a ideia ao meu agente, ele me disse que o livro tinha um potencial enorme, já que os super-heróis são populares em todo o mundo. Mas ainda assim é bom ver que a história de Joe Shuster agora alcança novos públicos. Embora a história seja bastante conhecida nos EUA, e em outros países, e suponho que isso também seja verdade no Brasil, as pessoas não estão cientes do destino dos criadores de Super-Homem.



Qual é o teu próximo projeto? No que você está trabalhando agora?

Atualmente estou trabalhando em alguns novos projetos. Depois de ter lidado, tanto em “Ghetto Brother” quanto em “Joe Shuster”, com heróis esquecidos que não receberam o reconhecimento que mereciam, agora estou focando em algo totalmente diferente. Juntamente com o artista brasileiro André Diniz, estamos transformando um conto de fadas brasileiro em uma graphic novel para crianças. O projeto ainda está em um estágio inicial, mas será um ótimo livro.

Entrevista conduzida por Fabio Marques para o site Super-Homem.COM  (1/10/2018).
Leia também a entrevista exclusiva com o artista Thomas Campi.
Jerry Siegel and Joe Shuster, arte de Thomas Scampi

A História de Joe Shuster: O Artista por trás do Superman

de Julian Voloj e Thomas Scampi
Editora Aleph, 25 de outubro de 2018
Tradução de Marcia Men
ISBN 978-8576574200
http://www.editoraaleph.com.br/