terça-feira, março 31, 2026

Super-Homem nos dias de hoje

Super-Homem nos dias de hoje

Se existe um personagem capaz de atravessar gerações, mídias e mudanças culturais sem perder sua essência, esse personagem é o Superman. Mais do que um herói de capa vermelha, ele é um símbolo — de esperança, de valores e, para muitos, de uma conexão pessoal que vai muito além das páginas dos quadrinhos ou das telas do cinema.

Neste espaço, eu compartilho essa relação construída ao longo de décadas: uma jornada que começa na infância, passa por coleções, filmes, debates e experiências profissionais, e chega até uma visão mais madura sobre o que o Superman realmente representa. No texto “O Homem que conhece o Super-Homem”, você vai entender como essa conexão se formou, não como fã ocasional, mas como alguém que viveu e estudou o personagem de forma profunda.

O Homem que conhece o Super-Homem

Já em “As melhores aventuras do Superman no cinema”, o foco muda para a tela grande: uma análise das diferentes interpretações do herói ao longo do tempo, dos clássicos com Christopher Reeve até versões mais recentes, mostrando como cada geração encontra o seu próprio Superman, algo que reflete a forma como o personagem acompanha a vida de cada fã .

As melhores aventuras do Superman no cinema

Nesta entrevista, compartilho não apenas minha trajetória como colecionador e estudioso do personagem, mas também minha visão sobre o significado cultural do Superman. Falo sobre como o herói evoluiu ao longo das décadas, por que ele continua relevante no mundo atual e como diferentes versões — nos quadrinhos, cinema e TV — dialogam com o público de cada época. Mais do que uma análise técnica, a conversa revela o lado pessoal dessa relação: como o Superman deixa de ser apenas ficção e se torna parte da identidade de quem cresce com ele.


Superman ainda é um grande ícone da cultura pop?

Se você também acredita que o Superman é mais do que um personagem, ou quer entender por que ele continua relevante depois de tanto tempo, esses textos e a entrevista são um excelente ponto de partida.








quinta-feira, março 26, 2026

Confins do Universo: Olha pra cima, Superman!

 

Confins do Universo: Olha para cima, Superman!



A convite de Samir Naliato participei desse Confins do Universo especial para debater o novo filme do Super-Homem do diretor James Gunn, que está atualmente em cartaz nos cinemas do mundo todo. Obrigado a Roberto Sadovski, Marcelo Naranjo, Sérgio Codespoti e Sidney Gusman pelo empolgante papo sobre o maior super-herói de todos os tempos. 22/julho/2025

#superman #jamesgunn

https://universohq.com/podcast/confins-do-universo-229-olha-pra-cima-superman/

As Melhores Histórias de Quadrinhos do Super-Homem: "Must There be a Superman?"

 

As Melhores Histórias de Quadrinhos do Super-Homem

"Must There be a Superman?"
Superman vol. 1 #247 (Janeiro de 1972)

Escrita por Elliot S! Maggin
Desenhada por Curt Swan
Finalizada por Murphy Anderson
Letras por John Costanza
Editada por Julie Schwartz
Capa por Curt Swan e Murphy Anderson

Publicada no Brasil em:
Superman Série 4 #5 (EBAL, Janeiro de 1973)
Coleção DC 70 Anos #1 (Panini, Maio de 2008)
Coleção DC 75 Anos #3 (Panini, Janeiro de 2011)
Superman Antologia (Panini, November de 2020)


“Must There be a Superman?”
não é apenas mais uma pergunta. Não é apenas o nome de mais uma história publicada do Super-Homem nos anos 70. Superman vol.1 #247 é a estreia de Elliot S! Maggin nesse personagem, que ele revolucionaria. A história é um ponto de inflexão silencioso e profundo, que mudou o Homem de Aço para sempre. É um daqueles momentos em que um personagem aparentemente imutável é forçado a se olhar no espelho e, por um instante raro, hesitar. Desenhada por Curt Swan e finalizada por Murphy Anderson, a edição sintetiza uma mudança profunda que estava acontecendo não apenas nos quadrinhos, mas na própria cultura americana do início dos anos 1970.

Estamos falando de um período marcado pela Guerra do Vietnã, pelo desgaste moral do governo de Richard Nixon, pela erosão da confiança nas instituições e pelo avanço da contracultura. O otimismo simplista da Era de Prata já não era mais suficiente. A América começava a duvidar de si mesma, e inevitavelmente seus heróis também precisavam mudar. E o Super-Homem, símbolo máximo de certeza moral, não podia mais ser apenas o salvador infalível. Ele precisava confrontar uma pergunta incômoda: até que ponto ajudar é também impedir o crescimento?

Esse deslocamento editorial coincide com o fim da Era de Prata e o início da Era de Bronze, um momento de transição dentro da própria DC Comics. A saída de Jack Kirby da Marvel Comics e sua chegada à DC, iniciando o Quarto Mundo em Superman’s Pal, Jimmy Olsen #133 (1970), introduz uma energia nova, mais mítica, mais ambiciosa, mas também mais conectada com temas de poder, opressão e liberdade. Paralelamente, a aposentadoria de Mort Weisinger encerra uma era de controle editorial rígido sobre o personagem criado por Jerry Siegel e Joe Shuster, mais de 30 anos antes. Em seu lugar, Julius Schwartz assume e promove uma renovação, trazendo Denny O'Neil, Cary Bates e, crucialmente, Maggin. Não é apenas uma troca de nomes, é uma mudança de mentalidade. O veterano Schwartz traz sangue novo e jovem para revolucionar o mais antigo de todos os super-heróis.

Elliot S! Maggin não era um roteirista convencional de quadrinhos. Jovem, politicamente ativo, intelectualmente inquieto, com formação superior e acadêmica em literatura e com forte inclinação filosófica, ele trouxe ao Super-Homem uma densidade que o personagem raramente havia experimentado. De origem judaica, Maggin carrega consigo uma tradição cultural profundamente ligada a debates éticos, responsabilidade moral e justiça social. Politicamente alinhado e filiado ao Partido Democrata, ele não apenas escrevia sobre ideais, ele os vivia, chegando a se candidatar a cargos públicos em New Hampshire e New York. Essa formação não é um detalhe biográfico irrelevante; ela transborda diretamente para suas histórias. O último filho de Krypton de Maggin não é apenas um herói, ele é um dilema filosófico ambulante, uma figura que precisa constantemente justificar sua própria existência em um mundo que já não aceita respostas simples.

Visualmente, essa complexidade encontra sua tradução perfeita na arte de Curt Swan, talvez o mais definitivo de todos os desenhistas do Super-Homem. Swan não era um artista de excessos ou estilizações radicais. Seu traço era clássico, limpo, equilibrado, mas profundamente humano. Seus personagens têm peso, têm presença, têm uma fisicalidade que ancora até as situações mais fantásticas. E quando essa base é finalizada por Murphy Anderson, formando o lendário “Swanderson”, o resultado é quase ideal. Anderson acrescenta precisão, elegância e clareza, refinando o traço de Swan sem nunca o sufocar. Juntos, eles criam um Super-Homem que não é apenas icônico, é crível. E isso é essencial para uma história que depende menos de ação e mais de introspecção.

No centro da edição está um momento definidor. A fala do Super-Homem: “You don’t need a Superman! What you really need is a super-will to be guardians of your own destiny!”, é mais do quer um discurso. É uma ruptura. Pela primeira vez, de forma explícita, o personagem reconhece que sua própria existência pode ser um problema. Há aqui uma camada política evidente: em plena era de intervenção americana ao redor do mundo, a ideia de um salvador externo que resolve crises alheias ganha um tom ambíguo, quase crítico. Mas há também uma dimensão filosófica e até teológica. O Super-Homem, tradicionalmente visto como uma figura messiânica, recusa esse papel. Ele não quer ser um deus. Ele rejeita a dependência. Em termos quase existencialistas, ele afirma que o verdadeiro sentido da humanidade está na autonomia, na responsabilidade individual e coletiva.

Essa ideia, de que o herói deve se conter e permitir que os humanos enfrentem seus próprios desafios, é profundamente radical para a época. E, de forma quase inacreditável, nasce também de uma contribuição externa ao próprio meio profissional: um jovem Jeph Loeb, ainda criança, teria sugerido a Elliot S! Maggin a premissa que daria origem à história. Esse detalhe não é apenas uma curiosidade, ele é revelador. Porque mostra como a pergunta central da edição, “e se o Superman estiver fazendo demais?”, não vem de um cinismo adulto ou de uma desconstrução posterior, mas de uma intuição quase pura sobre responsabilidade e autonomia. Décadas depois, o próprio Loeb retornaria ao personagem já como escritor profissional, e essa semente conceitual ecoa de forma mais ampla em obras como Kingdom Come, de Mark Waid e Alex Ross, onde o Super-Homem novamente confronta os limites de sua intervenção em um mundo que precisa caminhar sozinho. O Super-Homem não pode ser uma figura paternalista para humanidade. A tensão entre poder e responsabilidade, entre agir e permitir, entre salvar e deixar crescer, já está toda aqui, em janeiro de 1972, e em parte nasce da pergunta simples de um garoto que enxergou o problema antes de muitos adultos.

A história parte de um enredo aparentemente simples, mas profundamente simbólico. Após salvar a terra ao desviar esporos alienígenas, o Super-Homem é levado pelos Guardiões do Universo até OA, onde não enfrenta um vilão, mas uma acusação. Sua presença constante na Terra estaria impedindo o desenvolvimento natural da humanidade, tornando-a dependente de sua intervenção.

A partir dessa premissa, o conflito se desloca do campo da ação para o da reflexão. O conflito não é físico, mas ético e filosófico. Kal-El revisita suas ações, observa como sua ajuda molda o comportamento humano e chega à conclusão central: ao resolver todos os problemas, ele pode estar, paradoxalmente, enfraquecendo aqueles que tenta proteger.

Ao final, a história não oferece uma solução simplista, mas uma mudança de postura. O Super-Homem decide conscientemente intervir menos, permitindo que a humanidade enfrente seus próprios desafios e desenvolva sua autonomia. É nesse ponto que a narrativa revela sua verdadeira importância: não se trata de um herói que salva o mundo, mas de um herói que aprende quando não a salvá-lo. Essa inversão redefine o papel do herói e antecipa discussões que se tornariam centrais nas décadas seguintes.

Ao ponderar sobre Maggin e sua influência no Super-Homem é falar muito sobre permanência, consistência e, acima de tudo, definição autoral em um personagem que historicamente passou por muitas mãos. Maggin permaneceu por mais de catorze anos contínuos escrevendo o personagem, de 1972 até 1986, tornando-se o principal arquiteto do personagem durante a Era de Bronze. Não se trata apenas de longevidade, mas de volume e impacto, nesse período foram 19 edições de Action Comics, 48 edições de Superman, 3 edições anuais do título e participações fundamentais em outras revistas da linha, como World’s Finest, The Superman Family, Justice League of America e DC Comics Presents. Nesse período, ele ajudou a deslocar o personagem de um modelo puramente reativo e fantástico para algo mais reflexivo, mais político, de relevância social óbvia, mais humano e, paradoxalmente, mais universal.

Se o Super-Homem criado por Jerry Siegel e Joe Shuster carregava, nos anos 30 e 40, uma pulsão quase socialista, enfrentando desigualdades e abusos de poder com um ímpeto direto e popular, as décadas de 50 e 60, nas mãos de Mort Weisinger o transformaram em algo mais domesticado, alinhado a um ideal de estabilidade que dialogava com o espírito do New Deal e, gradualmente, com uma postura mais conservadora, quase republicana, refletindo o clima da Guerra Fria e da ordem estabelecida. É com Elliot S! Maggin que o personagem é reposicionado não como instrumento do status quo, mas como agente de consciência. Maggin não retorna exatamente ao radicalismo original, mas encontra um ponto de equilíbrio ideológico mais sofisticado, um herói que acredita em justiça social, responsabilidade coletiva e autonomia individual. Em termos contemporâneos, é um Super-Homem social-democrata, alguém que não governa, mas que lidera, que não impõe, mas também não se omite diante das estruturas que produzem desigualdade, recolocando o personagem, de forma clara, do lado certo da história.

Editorialmente talvez seu gesto mais significativo tenha sido levar o Super-Homem para muito além dos quadrinhos. Com os romances Last Son of Krypton (1978) e Miracle Monday (1981), ambos publicados pela Warner Books e best-sellers à época, Maggin não apenas expandiu o mito, como também consolidou uma abordagem literária do personagem, aprofundando sua psicologia e estabelecendo elementos duradouros, como a própria ideia do “Miracle Monday”. Décadas depois, ele retornaria ao universo com o romance Kingdom Come (1998), uma novelização da minissérie em quadrinhos que dialoga diretamente com os temas que ele próprio ajudou a plantar nos anos 70, e mais recentemente com LexCorp (2024), já em um contexto completamente diferente da indústria, mas ainda orbitando as mesmas questões de poder, responsabilidade e moralidade. O que Maggin construiu ao longo dessas décadas não foi apenas uma fase produtiva, mas um corpo coeso de pensamento sobre o Homem de Aço, algo raro em um personagem serializado, onde a continuidade costuma diluir autoria.

No romance de Last Son of Krypton (1978), publicado a sombra do marketing brutal do filme de Richard Donner, Maggin ultrapassa os limites do formato mensal e trata o herói kryptoniano como literatura de primeira linha, o romance não é apenas uma adaptação expandida do personagem, mas uma consolidação de sua visão autoral: um Super-Homem pensante, filosófico, profundamente consciente de seu papel no mundo. O livro foi best-seller, e mais importante, foi legitimador. Ele mostrou que o personagem podia existir fora do circuito dos quadrinhos sem perder densidade, sem simplificação. Maggin estrutura o mito com uma lógica interna mais sofisticada, trabalha melhor a dualidade Clark/Kal-El e reforça a ideia do herói como figura moral, não apenas física. É, em muitos sentidos, o blueprint do Super-Homem moderno, que nasceu seis anos antes em “Must There Be a Superman?” especialmente no que diz respeito à interioridade do personagem.

Essa abordagem não ficou restrita às mídias de papel. Durante o desenvolvimento de Superman: The Movie (1978), o editor Julie Schwartz e a presidente da DC Jenette Kahn escalaram Maggin para atuar nos bastidores suportando o escritor Mario Puzo, autor de The Godfather, na construção do roteiro para os produtores Alexander e Ilya Salkind. Essa colaboração é frequentemente subestimada, mas é crucial. Puzo, que não entendia coisa alguma sobre quadrinhos, trouxe a estrutura épica, mas foi Maggin que trouxe o entendimento do personagem. A ideia de tratar Super-Homem com seriedade, com peso quase mítico, dialoga diretamente com o que Maggin já vinha fazendo nos quadrinhos. O super-herói do cinema, interpretado por Christopher Reeve, deve muito mais a Maggin do que normalmente se reconhece, especialmente na construção de um herói que inspira não pela força, mas pela integridade moral.

Ainda no cinema recente, ecos da influência de Maggin podem ser vistos no roteiro do filme Batman v Superman: Dawn of Justice, escrito pelo vencedor do Oscar Chris Terrio e David S. Goyer, dirigido por Zack Snyder, onde o Homem de Aço também é confrontado com a ideia de que suas ações têm consequências globais, políticas e morais, e que talvez ele não devesse agir, e que suas ações podem aleijar o amadurecimento da humanidade. No controverso filme de 2016, discussão é aberta por Charlie Rose, fazendo a si próprio, que entrevista a Senadora Finch, interpretada pela vencedora do Oscar Holly Hunter. Rose pergunta: “Must There be a Superman?” e a senadora democrata do Kentucky responde: “There is.”

Dentro dos quadrinhos, essa mesma maturidade se manifestaria em outras histórias fundamentais escritas por Maggin como por exemplo a edição Superman #400, com arte feita por inúmeros gênios da nona arte: Steranko, Jack Kirby, John Byrne, Howard Chaykin, Steve Ditko, Brian Bolland, Al Williamson, Jack Davis, Frank Miller, Walter Simonson, Bernie Wrightson, Will Eisner, Klaus Janson, Moebius, Bill Sienkiewicz, entre tantos outros, uma edição comemorativa, com introdução do lendário Ray Bradbury, que funciona quase como um manifesto sobre o significado do personagem ao longo do tempo. Ali, o Super-Homem não é apenas um herói, mas um símbolo que atravessa gerações, reinterpretado em múltiplos futuros possíveis. Essa visão é complementada pelo romance Miracle Monday, talvez a obra mais pessoal de Maggin. Nele, o autor cria um feriado fictício que ninguém lembra conscientemente, mas que todos celebram inconscientemente, ligado a um sacrifício do Super-Homem que ressoa em um nível quase espiritual. É uma ideia profundamente teológica, quase mística, que reforça o herói como um arquétipo de esperança e da redenção, mas sem nunca o reduzir a uma figura divina paternalista e simplista. É uma das interpretações mais sofisticadas do personagem já feitas fora dos quadrinhos.

A influência de Maggin se estendeu muito além de sua própria produção. Sua leitura do Homem de Aço como ideia moral e não apenas heroica ecoa diretamente em obras posteriores. Elementos conceituais podem ser percebidos em Superman #300, que inspiraria décadas depois Superman: Red Son de Mark Millar, ao explorar o impacto do contexto político e moral na formação do herói. Como já exposto, a problemática levantada em Superman #247 reverbera claramente em Kingdom Come, de Mark Waid e Alex Ross, ao discutir o papel de liderança do personagem em um mundo que já não o compreende. Sua influência direta também passa por conexões menos óbvias, como o fato de ter sido o primeiro editor da dupla Jeph Loeb e Tim Sale, quando estrearam juntos em Challengers of the Unknown (1991), uma relação que, indiretamente, ajuda a moldar obras seminais como Superman For All Seasons (1998). E, finalmente, sua abordagem mais humana e introspectiva do personagem é perceptível em Superman: Birthright, obra-prima de Mark Waid, que retoma elementos estruturais e emocionais já trabalhados por Maggin em Last Son of Krypton e Miracle Monday.

As histórias de Elliot S! Maggin foram fundamentais para amadurecer o Super-Homem na Era de Bronze. Ele não desconstrói o personagem, isso viria acontecer depois, a partir de 1985, com Alan Moore, Frank Miller, Grant Morrison, John Byrne e outros, mas Maggin o problematizou primeiro. Ele introduziu dúvida onde antes havia certeza. Ele transformou o Super-Homem de resposta em pergunta. Esse pioneirismo é sem dúvida o maior valor de “Must There be a Superman” publicada em Superman vol. 1 #247. Não é uma história de ação memorável. Não é uma saga épica. Não tem supervilão a ser vencido. É algo bem mais raro, uma história em que o Super-Homem para e pensa. Em que ele reconhece seus limites não físicos, mas morais. Em que ele entende que salvar o mundo não é apenas impedir desastres, mas também saber quando não agir. Antes que os anos 80 viessem desmontar os super-heróis, Maggin já havia feito algo mais sutil, e mais importante. Ele os fez crescer.

por Fabio Marques (26/3/2026)

quarta-feira, março 25, 2026

Supergirl: Aquela que Foi Sem Nunca Ter Sido




Supergirl: Aquela que Foi Sem Nunca Ter Sido
por Fabio Marques (25/03/2026)

Escrever sobre Supergirl hoje, a apenas três meses da estreia do novo filme, é inevitavelmente falar de uma personagem que nunca conseguiu, ou talvez nunca quis, se fixar em uma única forma. Diferente de outros ícones da DC Comics, cuja força vem justamente da repetição de um núcleo estável, a Supergirl sempre existiu em estado de variação. E isso não começa com Kara Zor-El. Começa antes mesmo dela existir como conceito definitivo, como uma ideia recorrente, quase obsessiva, que a editora revisitava sempre que queria testar os limites do universo do Super-Homem.

 

Ainda nos anos 40, essa idéia surge de forma difusa, experimental, quase acidental. Em Action Comics #60 (maio de 1943) escrita por Jerry Siegel e desenhada por George Roussos e Joe Shuster, Lois Lane ganha poderes e ocupa temporariamente esse espaço simbólico: não como identidade própria, mas como extensão do mito do Homem de Aço. A experiência se repete em Action Comics #156 (maio de 1951), escrita por Al Schwartz e desenhada por Al Plastino, reforçando que o conceito estava em circulação, ainda sem forma definida. Em Superboy #5 (novembro de 1949), surge Queen Lucy de Borgonia, uma rainha alienígena com habilidades similares, outra tentativa de capturar esse arquétipo feminino superpoderoso. Depois vem Claire Kent em Superboy #78 (janeiro de 1960), uma espécie de versão alternativa dentro da lógica da série, e até uma Supergirl artificial criada por Jimmy Olsen em Superman #123 (augusto de 1958) por Otto Binder e Dick Sprang, uma construção narrativa que deixa claro o quanto a ideia já existia como conceito antes de se fixar como personagem. Nenhuma dessas versões é definitiva, e esse é exatamente o ponto. A Supergirl, antes de ser alguém, era uma função narrativa procurando um corpo.

 

Quando finalmente surge em Action Comics #252 (maio de 1959) emanada pelo editor Mort Wisinger, criada por Otto Binder e Al Plastino, Kara Zor-El parece encerrar essa busca. Pela primeira vez, há uma origem clara: sobrevivente de Krypton, prima do Super-Homem, escondida em Midvale, construída dentro de uma lógica familiar e editorial sólida. Mas essa sensação de estabilidade é, em retrospecto, ilusória. Porque, mesmo ali, já existe uma ambiguidade estrutural: Kara é ao mesmo tempo protagonista e derivação, identidade própria e reflexo direto de outro personagem muito maior. Ela nasce definida, mas subordinada. E essa tensão nunca desaparece; ela apenas muda de forma ao longo das décadas. E é isso que explica o que vem depois.

 

A trajetória da Supergirl nos quadrinhos não é uma evolução linear, mas uma sucessão de rupturas. Após Crisis on Infinite Earths, de Marv Wolfman e George Pérez, a personagem é simplesmente removida da continuidade, num movimento editorial radical que tenta simplificar o universo DC, mas acaba criando um vazio conceitual difícil de preencher. No lugar dela surge Matrix, criada por John Byrne, um clone artificial de Lana Lang, introduzida em Superman Vol. 2 #16 (1988), uma entidade artificial, metamórfica, que pode assumir a forma de Supergirl, mas não é Kara, não tem Krypton, não tem passado. É uma solução funcional, mas conceitualmente instável. Essa instabilidade se aprofunda quando Matrix se funde com Linda Danvers em Supergirl Vol. 4 #1 (1996), numa fase escrita por Peter David, que transforma a personagem em algo quase místico, com elementos religiosos, angelicais, existenciais: uma das leituras mais ousadas, e ao mesmo tempo mais distantes da ideia original.

 

Outras versões surgem como tentativas paralelas: Cir-El em Superman: The 10-Cent Adventure #1 (2003), apresentada como uma possível filha do Superman vinda do futuro, logo descartada; Power Girl, que sobrevive como eco de uma continuidade alternativa da Terra-2, sempre deslocada, sempre reexplicada; Laurel Gand, ligada à Legião dos Super-Heróis; Ariella Kent, uma versão sombria e marginal. Nenhuma delas resolve o problema central. Todas orbitam a mesma questão: o que exatamente é a Supergirl?

 

Mesmo quando Kara Zor-El retorna oficialmente em Superman/Batman #8 (2004), sob a escrita de Jeph Loeb e arte de Michael Turner, a sensação não é de conclusão, mas de mais uma tentativa de reinício. Essa versão ganha popularidade, visibilidade, presença, mas ainda assim carrega o peso de todas as versões anteriores. Ela não substitui; ela se soma. E talvez seja justamente isso que define a personagem: a impossibilidade de síntese. A Supergirl não é um arquétipo fixo. Ela é um campo de variações acumuladas.

 

Fora da continuidade principal, isso se torna ainda mais evidente. Em histórias Elseworlds, minisséries e leituras autorais, a personagem frequentemente encontra versões mais coesas, justamente porque está livre da necessidade de se encaixar em uma linha editorial contínua. É fora do cânone que a Supergirl muitas vezes parece mais “verdadeira”, porque ali ela pode ser uma ideia completa, e não um ajuste constante. Por exemplo, no crossover Superman/Aliens de Dan Jurgen e Kevin Nowlan, a nova Supergirl pós-Crise se esconde na minissérie.

 

No Brasil, essa fragmentação ganha outra camada histórica. A Super-Moça publicada por EBAL, depois pela Editora Abril e mais tarde pela Panini não segue uma linha contínua limpa, ela é apresentada em recortes, republicações, reorganizações editoriais que muitas vezes misturam fases, versões e contextos. Para o leitor brasileiro, a Supergirl nunca foi uma narrativa linear; foi uma experiência fragmentada, quase arqueológica, montada a partir de pedaços. E isso, de certa forma, espelha perfeitamente a própria natureza da personagem.

 

Curiosamente, é na animação que a Supergirl começa a ganhar uma forma mais consistente. Bruce W. Timm, Paul Dini e seus colegas a recriam do zero em Superman: The Animated Series e Justice League Unlimited, ela aparece como uma jovem impulsiva, emocionalmente clara, com conflitos definidos. Essa linha continua em Legion of Super-Heroes, Young Justice, Freedom Fighters: The Ray, DC Super Hero Girls, além de filmes como Superman/Batman: Apocalypse, baseado na versão de Jeph Loeb, e participações em séries como Harley Quinn. Há variações, claro, mas existe um núcleo emocional reconhecível, algo que os quadrinhos demoraram décadas para consolidar.

 

No live-action, o percurso é ainda mais irregular. O filme Supergirl, com Helen Slater, permanece como uma curiosidade isolada, quase deslocada do restante do universo cinematográfico da época. A série Smallville apresenta duas Supergirls em seus dez anos, uma Kara interpretada pela Adrianne Palicki, e outra oficial na pele de Laura Vandervoort. Já a série Supergirl iniciada na ABC em 2015, e posteriormente integrada ao Arrowverse da The CW, representa a primeira tentativa de dar à personagem uma trajetória contínua e protagonista ao longo de várias temporadas. Melissa Benoist está maravilhosas, mas sempre tenta esconder o primo famoso, mesmo quando Tyler Hoechlin surge na sua cronologia. Ainda assim, essa versão oscila em tom e direção, refletindo tanto as mudanças de emissora quanto as limitações estruturais da televisão aberta. Já em The Flash, com Sasha Calle, surge uma interpretação radicalmente diferente: uma Supergirl mais dura, mais alienígena, menos conciliadora, menos solar, marcada por trauma e isolamento, uma leitura que rompe com a tradição mais leve e aponta para algo mais contemporâneo.

 

É nesse contexto que Supergirl: Woman of Tomorrow se torna central. Escrita por Tom King, com arte da brasileira Bilquis Evely e cores de Matheus Lopes, a minissérie (2021–2022) não tenta organizar o passado da personagem, ela parte dele. Aqui, Kara Zor-El é definida pela memória. Enquanto o Super-Homem foi enviado bebê e não lembra Krypton, ela viu tudo. Ela cresceu lá. Ela perdeu tudo conscientemente. Essa diferença muda completamente a leitura da personagem. A história, estruturada como uma jornada espacial ao lado de uma jovem em busca de vingança, mistura faroeste, ficção científica e fábula moral, criando uma Supergirl que não é derivativa, é singular. E talvez pela primeira vez, completa. É essa leitura que serve de base para o novo filme.

 

Dirigido por Craig Gillespie, conhecido por trabalhos como Cruella, o remake de Fright Night e I, Tonya, com roteiro da brasileira Ana Nogueira, Supergirl (2026) é estrelado por Milly Alcock, conhecida por sua participação em House of the Dragon, interpretando Kara Zor-El. O filme integra o novo DCU concebido por James Gunn e Peter Safran, uma reformulação completa do universo cinematográfico da DC, com estreia marcada para 26 de junho de 2026 nos Estados Unidos e lançamento mundial na mesma janela.

 

E talvez, pela primeira vez na sua história, exista uma sensação diferente: não a de que estão tentando definir a Supergirl de forma definitiva, mas de que finalmente entenderam que isso nunca foi necessário. Porque, depois de tantas versões, tantas quebras e tantas reconstruções, a conclusão inevitável não é que a personagem falhou em encontrar sua forma. É que ela foi construída para nunca ter apenas uma.





















terça-feira, março 24, 2026

As Melhores Histórias de Quadrinhos do Super-Homem: What's So Funny About Truth, Justice & the American Way?

 

As Melhores Histórias de Quadrinhos do Super-Homem


What's So Funny About Truth, Justice & the American Way?
Action Comics #775 (March 2001)

Escrita por Joe Kelly
Desenhada por Doug Manhke e Lee Bermejo
Arte final por Tom Nguyen, Dexter Vines, Jim Royal, José Marzan Jr, Wade von Grawbadger
Cores por Rob Schwager
Letras por Comicraft
Editada por Eddie Berganza
Capa por Tim Bradstreet 


Republicada em portuguës no Brasil pela Panini Comics Brasil:
Superman #8 (Julho de 2003), Coleção DC 70 Anos #1 (Maio de 2008), Superman: Antologia (Novembro de 2020) e Superman: O Que Há de Errado Com Verdade, Justiça e Um Futuro Melhor? (Agosto de 2025)



Action Comics #775 é uma daquelas histórias que parecem simples até o momento em que você percebe que ela não está contando exatamente o que você acha que está contando. Na superfície, é o Super-Homem enfrentando um grupo de anti-heróis violentos, resolvendo uma crise internacional e reafirmando seus valores. Mas isso é só o invólucro. Por dentro, ela funciona como uma resposta direta, quase irritada, a tudo que os quadrinhos de super-herói haviam se tornado ao longo dos anos 90. Não é coincidência. Não é leitura posterior. É intencional. Joe Kelly criou essa edição como quem está olhando para uma década inteira e dizendo: “isso aqui saiu do eixo”. E, mais importante do que isso, ele não tenta consertar o Super-Homem. Ele usa o Primeiro e Maior Super-Herói de Todos para expor o problema.

Porque o problema nunca foi o personagem. O problema foi o ambiente ao redor dele. Durante os anos 90, a indústria passou a confundir maturidade com brutalidade, complexidade com cinismo, impacto com violência gráfica. A lógica era quase infantil na sua simplificação: quanto mais extremo, mais relevante; quanto mais letal, mais “realista”. Nesse cenário, o Super-Homem passou a ser visto como uma relíquia, não dentro das histórias, mas no discurso crítico em torno delas. Ele era “bom demais”, “correto demais”, “ingênuo demais”. E é exatamente essa percepção que Action Comics #775 decide atacar, não com nostalgia, mas com confronto direto.

A criação da Elite é o movimento central dessa estratégia. À primeira vista, eles são apenas a versão “atualizada” do que o Super-Homem deveria ser: eficientes, pragmáticos, livres de qualquer amarra moral que atrase a resolução de problemas. Mas essa leitura se desfaz rapidamente quando fica claro que eles não são uma evolução, são uma crítica. Uma crítica bastante específica, aliás, à proposta de The Authority dos britânicos Warren Ellis e Bryan Hitch, que em 1999, havia redefinido o gênero ao apresentar super-heróis como forças de intervenção absoluta, capazes de impor soluções ao mundo sem pedir licença. O que Joe Kelly faz não é negar essa proposta. Ele a leva até o limite lógico, e no limite ela deixa de parecer sofisticada e passa a parecer grotesca. Execuções televisionadas, justiça como espetáculo, violência como linguagem padrão, tudo aquilo que parecia moderno revela seu custo.

É nesse ponto que Manchester Black, o líder da Elite, deixa de ser apenas um antagonista e passa a funcionar como uma tese ambulante. Ele não é só o líder da Elite; ele é a voz que articula o desprezo pelo idealismo do Homem de Aço. E o fato de ele ser britânico, vestir a Union Jack e carregar uma postura cínica e intelectualmente agressiva não é detalhe estético, é comentário. Existe ali uma provocação clara à chamada invasão britânica dos quadrinhos dos anos 80, representada por nomes como Alan Moore e Grant Morrison, autores que elevaram o nível do meio, mas também ajudaram a consolidar uma visão mais desconstrutiva, mais irônica e, em muitos casos, mais cínica do heroísmo. Manchester Black é a caricatura desse excesso: alguém que acredita ter ultrapassado a ingenuidade a ponto de não precisar mais de princípios.

O que torna a história realmente desconfortável, no entanto, não é a existência da Elite, mas a reação do mundo a ela. As pessoas aprovam. Celebram. Preferem aquele tipo de solução. E é aqui que a história deixa de ser apenas uma crítica interna aos quadrinhos e passa a ser uma crítica ao próprio leitor. Porque, de certa forma, a Elite só existe porque há demanda por ela. Porque houve, ao longo de anos, uma aceitação crescente da ideia de que heróis que matam são mais interessantes, mais eficazes, mais “honestos” com a realidade. O Super-Homem, criado de Siegel e Shuster, nesse contexto, não está lutando apenas contra um grupo de personagens, ele está lutando contra uma mudança cultural.

Se três anos antes, em 1996, Kingdom Come, de Mark Waid e Alex Ross, já funcionava como um alerta sobre o colapso moral do universo dos super-heróis, Action Comics #775 parece quase uma resposta mais direta, mais cirúrgica, ao mesmo problema. Em Kingdom Come, um Super-Homem idoso retorna a um mundo dominado por heróis irresponsáveis, violentos, sem código, uma geração que já não reconhece limites e que trata poder como espetáculo, não como responsabilidade. A semelhança com a Elite é evidente, mas há também um desconforto mais profundo: a própria trajetória do Homem de Aço editorialmente já havia flertado com esse desvio, especialmente na fase de John Byrne, que buscou “modernizar” o personagem aproximando-o de um arquétipo mais emocional, mais falível, mais, para usar o termo inevitável, “marvelizado”. O ponto de ruptura talvez esteja em Superman #22, quando ele executa três kryptonianos do Universo Pocket, um gesto que até hoje ecoa como um desvio ético difícil de reconciliar com a essência do personagem. Tanto Kingdom Come quanto Action Comics #775 orbitam essa mesma tensão: o que acontece quando o ele, o maior de todos, começa a se parecer com o mundo ao redor em vez de funcionar como contraponto a ele. E, em ambos os casos, a resposta não é confortável, porque implica reconhecer que, em algum momento, o próprio personagem foi empurrado na direção errada antes de ser resgatado.

O clímax da história de Action Comics #775 é construído justamente para explorar essa tensão até o ponto de ruptura. Quando o Kal-El enfrenta a Elite e aparentemente adota os mesmos métodos que eles, a narrativa parece ceder à lógica dominante. Ele é mais rápido, mais forte, mais implacável. Ele derrota o grupo com uma facilidade quase assustadora. E por um instante, tudo parece fazer sentido dentro daquela lógica: claro que o Super-Homem poderia ser assim, claro que ele poderia resolver tudo de forma definitiva, claro que isso seria mais eficiente. É exatamente isso que torna a revelação tão poderosa. Porque não é verdade. Nunca foi. Aquilo é uma encenação, uma escolha consciente de demonstrar até onde ele poderia ir. E para deixar claro por que ele não vai.

E é nesse momento que a história faz algo raro: ela redefine o personagem sem mudar absolutamente nada nele. Ela apenas reposiciona o olhar do leitor. O que antes podia ser interpretado como limitação passa a ser entendido como escolha. O que parecia ingenuidade revela-se disciplina moral. O que era visto como fraqueza se impõe como a maior forma de força possível dentro daquele universo. Não é que o Homem de Aço possa ser como a Elite. É que ele entende exatamente o que se perde quando alguém escolhe ser assim.
Dentro da própria DC, o impacto disso foi imediato, ainda que silencioso. Durante aquele período, sob o editor Eddie Berganza, o escritor principal era Jeph Loeb, responsável por arcos maiores, mais visíveis, mais alinhados com o que se esperava de histórias “importantes”. Mas Action Comics #775 desloca esse eixo de atenção. De repente, a discussão mais relevante sobre o personagem não está nas grandes sagas, mas em uma história única, fechada, escrita por alguém que até então não ocupava esse lugar central. Joe Kelly deixa de ser apenas mais um roteirista da linha e passa a ser reconhecido como alguém que compreendeu o personagem em um nível mais fundamental.

A arte de Action Comics #775 é, por si só, um campo de batalha estético, e isso começa antes mesmo da primeira página, já na capa. Enquanto o miolo traz lápis de Doug Mahnke e Lee Bermejo, com uma linha de finalização quase industrial: Tom Nguyen, Dexter Vines, Jim Royal, José Marzán Jr., Wade von Grawbadger e Wayne Faucher, e as cores de Rob Schwager, a capa já estabelece o tom com uma proposta completamente diferente: arte e arte-final de Tim Bradstreet, com cores de Grant Goleash, Tanya Horie e Richard Horie. E essa escolha não é trivial. Bradstreet vem de uma estética quase fotográfica, hiper-realista, com forte influência noir, e sua capa não vende um Super-Homem clássico, ela vende tensão, confronto, quase ameaça. O personagem não é um ícone confortável; é uma presença carregada, densa, como se algo estivesse prestes a quebrar.

Quando se abre a revista, o impacto é imediato, porque o interior não tenta seguir essa linha,  ele reage a ela. E é aqui que a combinação entre Mahnke e Bermejo se torna fundamental. Mahnke traz um traço nervoso, distorcido, quase expressionista, onde tudo parece em excesso: expressões faciais levadas ao limite, corpos que parecem sempre prestes a se romper, ação desenhada com peso e agressividade. Não há idealização. Não há limpeza. Há energia bruta. Já Bermejo, ainda no início da carreira, introduz um outro tipo de peso — menos elástico, mais físico. Seu traço sugere volume, textura, materialidade; há uma tentativa clara de tornar aquele mundo mais tangível, mais “real”, quase sujo. Quando esses dois estilos se encontram, o resultado não é harmonia: é pura fricção. E essa fricção é exatamente o que a história precisa.

A Elite parece emergir desse lado mais pesado, mais instável, mais contaminado visualmente. Eles não cabem na estética tradicional de um gibi do Homem de Aço, e nem deveriam. Há algo neles que invade o enquadramento, que quebra a composição, que transforma cada cena em algo desconfortável. Já o Super-Homem oscila. Em alguns momentos, ele é puxado para o exagero de Mahnke, quase deformado pela violência ao redor; em outros, ele recupera uma certa solidez, uma presença mais estável, quase clássica, mas nunca completamente. Ele nunca está totalmente “em casa” naquele mundo visual, e isso é crucial.

A presença de múltiplos arte-finalistas não suaviza essa tensão, ela a amplifica. Cada mão adiciona uma pequena variação, uma leve irregularidade, uma textura diferente. O resultado é uma superfície visual fragmentada, que reforça a ideia de um mundo fora de equilíbrio. E as cores de Rob Schwager não tentam corrigir isso com brilho ou uniformidade; elas acompanham o tom mais pesado, mais opaco, mais dramático, sustentando a atmosfera de conflito constante.

O que Action Comics #775 faz visualmente é raro: ela não apenas ilustra uma história sobre choque de valores, ela encena esse choque em cada página. A capa promete uma coisa, o interior tensiona outra, os estilos colidem, os personagens parecem deslocados dentro do próprio traço. Nada ali busca conforto. E é exatamente por isso que funciona tão bem.

Talvez por isso a história tenha acumulado, ao longo dos anos, uma reputação tão intensa e ao mesmo tempo tão dividida. Foi considerada a melhor edição de 2001, eleita a melhor história curta da década, posicionada entre as maiores dos últimos 30 anos e chamada de a maior história do Super-Homem pela revista Wizard. Ao mesmo tempo, apareceu em listas de histórias superestimadas. Essa tensão não é um defeito, é um sintoma. Histórias que apenas funcionam não geram esse tipo de reação. Histórias que confrontam, sim.

O fato de ser uma história curta, autocontida, só reforça tudo isso. Não há dependência de continuidade, não há necessidade de contexto prévio, não há preparação longa. Ela entra, faz o que precisa fazer e sai, deixando um efeito que se prolonga muito além das suas páginas. Não por acaso, foi adaptada em outras mídias, como o longa de animação Superman vs. The Elite, inspirou um episódio de série da Supergirl e foi republicada em português quatro vezes no Brasil ao longo de duas décadas. Não é apenas uma história lembrada; é uma história constantemente revisitada.

Existe também um fator de timing que ajuda a explicar por que Action Comics #775 nunca “explodiu” para o grande público na mesma medida em que sua importância justificaria: ela saiu em 2001, literalmente às vésperas da estreia de Smallville, série que redefiniria a presença do Homem de Aço na cultura pop ao reposicionar o personagem para uma nova geração, mais jovem e televisiva, deslocando o eixo de atenção dos quadrinhos para a TV. Nesse contexto, a história de Joe Kelly acabou se consolidando menos como fenômeno de massa e mais como obra de prestígio, um clássico cult, debatido, reverenciado e constantemente revisitado dentro do nicho que, no fim das contas, mais importa: o dos leitores de quadrinhos. É ali que ela construiu sua reputação quase incontestável, longe do ruído midiático mais amplo. E talvez por isso mesmo seu impacto tenha sido mais duradouro do que explosivo, infiltrando-se lentamente na forma como o personagem é compreendido, algo que ainda ecoa, décadas depois, em interpretações contemporâneas como a de James Gunn em Superman (2025), que recupera essa mesma ideia central de um herói que não precisa se adaptar ao cinismo do mundo para continuar relevante, mas sim confrontá-lo.

Friamente, Action Comics #775 não está interessada em provar que o Super-Homem está certo. Ela parte do pressuposto de que ele já está. O que ela faz é algo mais incômodo: ela expõe por que o mundo ao redor dele passou a achar que ele estava errado. E ao fazer isso, ela não apenas resgata o personagem, ela coloca em xeque toda uma fase dos quadrinhos que, por um tempo, confundiu escuridão com profundidade. O Super-Homem não precisava mudar. Era o olhar sobre ele que precisava ser corrigido.


por Fabio  Marques (24 de março de 2026)




Tim Bradstreet, Action Comics #775 cover artist