quinta-feira, junho 18, 2026

As Melhores Histórias de Quadrinhos do Super-Homem: The Man of Steel

  

As Melhores Histórias de Quadrinhos do Super-Homem



The Man of Steel
The Man of Steel #1-6 (Outubro a Dezembro de 1986)

Escrita por John Byrne
Desenhada por John Byrne
Finalizada por Dick Giordano
Cores por Tom Ziuko
Letras por John Costanza
Editada por Andy Helfer
Capas por John Byrne e Alex Jay

Publicada no Brasil em:
Super-Homem #38-43 (Editora Abril, Agosto de 1987 a Janeiro de 1988)
Classicos DC #1 (Editora Abril, Maio de 1991)
Lois & Clark As Aventuras do Superman #1 (Editora Abril, Dezembro de 1996)
Superman O Homem de Aço (Mythos, Dezembro de 2006)
Coleção DC 70 Anos #1 (Panini, Maio de 2008)
Superman 70 Anos #2-3 (Panini, Novembro a Dezembro de 2008)
Coleção DC 75 Anos #4 (Panini, Fevereiro de 2011)
DC Comics Coleção de Graphic Novels #8 (Eaglemoss, Dezembro de 2015)
Lex Luthor: Biografia Não Autorizada (Panini, Fevereiro de 2019)
Superman Antologia (Panini, Novembro de 2020)
A Saga do Superman #1 (Panini, Março de 2021)

Em 1986, o Universo DC estava em chamas. Não metaforicamente. Crisis on Infinite Earths, a monumental saga de doze edições escrita por Marv Wolfman e desenhada por George Pérez, oriundos do sucesso The New Teen Titans, havia sido publicada entre abril de 1985 e março de 1986, literalmente tinha destruído a estrutura multiversal que sustentava décadas de continuidade. Mundos paralelos haviam sido colapsados. Personagens históricos haviam morrido. A linha do tempo havia sido reescrita. O que restou foi um universo único, limpo, sem as camadas de contradição acumuladas desde 1938, mas também sem a arquitetura que dava sentido a grande parte do que os leitores conheciam.

A DC precisava de duas coisas ao mesmo tempo: um documento que estabelecesse formalmente o que o novo universo era, e arquitetos que reconstruíssem seus três pilares fundamentais, o Super-Homem, o Batman e a Mulher-Maravilha. As duas tarefas caberiam a pessoas diferentes, em momentos diferentes, e a ordem em que aconteceram revelaria muito sobre as prioridades e os improvisos da editora naquele período turbulento.

George Pérez era, naquele momento, o artista mais quente dos quadrinhos americanos. Ele havia desenhado praticamente cada página de Crisis on Infinite Earths, coordenando visualmente a destruição de um universo inteiro com uma habilidade técnica que ninguém na indústria conseguia igualar. Sua capacidade de gerenciar dezenas de personagens em uma única página, mantendo clareza narrativa e drama visual, havia se tornado lendária. Era natural que a DC o quisesse para o projeto mais importante do pós-Crise. E o projeto mais importante era o Super-Homem.

A história exata de como Pérez terminou na Mulher-Maravilha em vez do Super-Homem é reveladora. Os planos iniciais da DC para a Mulher-Maravilha eram, segundo o próprio Pérez, alarmantemente despreparados: sem direção criativa clara, sem respeito pela mitologia do personagem, e com escolhas de equipe criativa que o horrorizaram. "Quando vi o artista que ia trabalhar nela", Pérez diria anos depois, "era alguém mais acostumado a desenhar como uma revista Penthouse." A premier feminina dos quadrinhos americanos estava prestes a ser transformada em objeto sexual, e ninguém na DC parecia particularmente perturbado com isso.

Pérez estava. Mas havia também um segundo motivo, menos indignado e mais pessoal: a Mulher-Maravilha representava uma oportunidade que o Super-Homem não oferecia da mesma forma. Pérez era reconhecido universalmente como um dos maiores desenhistas da história do meio, mas havia sempre sido essencialmente um artista visual, alguém que executava e amplificava a visão de outros roteiristas. A Mulher-Maravilha, naquele momento de vácuo criativo, era uma tela em branco onde ele poderia finalmente escrever além de desenhar, assumindo o controle total do personagem tanto no texto quanto na imagem. Não era um projeto que lhe foi designado. Era um projeto que ele escolheu, exigiu e moldou desde o conceito até a última página, mergulhando Diana fundo na mitologia grega que sempre havia sido sua base conceitual, mas nunca havia sido explorada com seriedade por nenhum escritor anterior. Essa decisão deixou o Super-Homem sem seu arquiteto de primeira escolha.

Entre os leitores e profissionais da época, havia uma corrente razoavelmente forte de opinião de que o homem certo para o trabalho era Elliot S! Maggin. O ponto de exclamação no meio do nome era característico, resultado de um acidente de digitação que havia se tornado marca registrada, e o próprio Maggin era igualmente característico: um escritor que havia desenvolvido, ao longo de anos de trabalho em Action Comics e Superman, uma compreensão do personagem que ia muito além do profissional. Para Maggin, o Super-Homem era uma figura de dimensão quase filosófica, um ser cuja grandeza não residia nos poderes mas nos valores, um humanista vestido de kryptoniano. Sua história seminal "Must There Be a Superman?" de 1972 havia feito perguntas sobre o personagem que a maioria dos escritores nem conseguia formular. Ao lado de Mario Puzzo, ele havia contribuído com os roteiros dos filmes. Havia publicado dois romances best-sellers sobre o personagem. Para uma fatia considerável dos leitores mais devotos, Maggin representava a continuidade do espírito: o único escritor que realmente entendia o Super-Homem em profundidade e que poderia preservar essa essência enquanto modernizava o personagem para uma nova era. A DC escolheu outro caminho.

John Byrne não era um homem da DC. Era, até aquele momento, essencialmente um homem da Marvel, e dos mais influentes que a editora havia produzido em décadas. Nascido em Walsall, na Inglaterra, criado no Canadá, ele havia chegado aos quadrinhos americanos em meados dos anos 1970 e rapidamente demonstrado uma combinação rara: era desenhista e roteirista ao mesmo tempo, capaz de controlar visualmente e narrativamente um título sem depender de colaboradores. Seu trabalho em Uncanny X-Men, ao lado do roteirista Chris Claremont, havia transformado um título que a Marvel estava prestes a cancelar em um dos maiores fenômenos da história dos quadrinhos. "The Dark Phoenix Saga". "Days of Future Past". Personagens como Kitty Pryde, que ele havia criado do zero. Uma sensibilidade narrativa que combinava drama emocional com espetáculo visual de forma que poucos conseguiam igualar.

Depois dos X-Men, Byrne havia assumido os Fantastic Four e repetido a façanha, devolvendo grandeza a um título que havia perdido o fio condutor após os anos fundadores de Jack Kirby e Stan Lee. Seu Quarteto Fantástico era comparado, às vezes com justeza, às melhores fases do título. Ele havia demonstrado, repetidamente, que conseguia pegar uma mitologia estabelecida, entender o que havia de essencial nela, remover o que havia se deteriorado com o tempo, e devolver o personagem a uma forma de coerência e vitalidade. Era exatamente esse histórico de reconstrução cirúrgica de mitologias que convenceu a DC. Se alguém sabia recuperar um personagem sem destruir sua alma, esse alguém era Byrne.

O que a DC não calculou completamente, ou talvez calculou e aceitou conscientemente, era a ironia da situação. O homem escolhido para reconstruir o personagem mais icônico da editora era um produto da concorrência, alguém cuja sensibilidade narrativa havia sido formada inteiramente pelas convenções que Kirby, Steve Ditko e Lee haviam estabelecido nos anos 1960: foco em conflitos interpessoais, vulnerabilidade emocional dos heróis, realismo do cotidiano coexistindo com o fantástico, drama de personagem sobreposto ao espetáculo de aventura. Ele era, em outras palavras, alguém treinado para fazer personagens Marvel. E agora a DC estava colocando esse homem na tarefa de reconstruir o personagem que havia inventado os quadrinhos de super-herói antes da Marvel sequer existir.

O contexto imediato tornava a situação ainda mais carregada. Quando The Man of Steel #1 chegou às bancas em 17 de junho de 1986, Frank Miller já havia publicado as duas primeiras edições de The Dark Knight Returns: a #1 em 25 de fevereiro, a #2 em abril. As duas obras correram em paralelo nas bancas durante meses. A terceira edição de TDKR chegaria em agosto, enquanto Byrne ainda publicava sua minissérie quinzenal. A quarta e última, a que contém o confronto final entre Batman e o Super-Homem, chegaria em dezembro, quando The Man of Steel já havia concluído.

The Dark Knight Returns apresentava um Batman do futuro, mais velho, mais violento, filosoficamente em guerra com um Super-Homem transformado em agente governamental. Era uma visão explicitamente distópica e fora da continuidade principal, mas sua influência cultural foi imediata e avassaladora. Ela estabeleceu que o Batman poderia ser tratado com seriedade absoluta, que a escuridão do personagem era um recurso narrativo legítimo, que um quadrinho de super-herói podia ter a densidade e a ambição de um romance. A resposta de Miller à pergunta "o que é o Batman?" era sombria, apocalíptica e política. A resposta que Byrne precisava dar à pergunta "o que é o Super-Homem?" teria que ser completamente diferente, ou correria o risco de parecer uma variação menor do que Miller havia feito. A única saída era ir em direção oposta: não para cima, no sentido da grandeza cósmica e do poder infinito que havia sufocado o personagem nos anos anteriores, mas para dentro, em direção à humanidade específica e cotidiana de um homem de Kansas que por acaso conseguia voar.

Somente depois que tanto TDKR quanto The Man of Steel concluíram é que Wolfman e Pérez publicariam History of the DC Universe, em outubro e novembro de 1986, o documento oficial que codificava o novo universo pós-Crise, estabelecia o que era canônico e servia de mapa para os relançamentos que ainda viriam. Era, retrospectivamente, o que deveria ter chegado primeiro. Mas a DC havia optado por relançar o Super-Homem antes mesmo de ter esse mapa totalmente estabelecido, tamanha era a urgência de reafirmar seu personagem central diante de um mercado em transformação acelerada.

E em fevereiro de 1987, os dois grandes relançamentos que completariam a reconstrução da trilogia chegaram ao mesmo tempo: a Mulher-Maravilha #1 de George Pérez, que finalmente entregava o projeto que ele havia escolhido pessoalmente, e Batman #404, a primeira parte de Batman: Year One, com Frank Miller e David Mazzucchelli. A origem reimaginada do Batman dentro da continuidade principal, crua, urbana e detetivesca, que tornaria a visão milleriana do personagem não apenas uma obra-prima alternativa, mas o modelo canônico para as décadas seguintes. Os dois chegaram juntos, no mesmo mês, como se o universo DC precisasse de uma última declaração simultânea de intenções.

Em fevereiro de 1987, portanto, os três pilares estavam finalmente reconstruídos ou em processo avançado de reconstrução. O Super-Homem havia chegado primeiro, em junho de 1986, pelas mãos de um artista vindo da Marvel. A Mulher-Maravilha e o Batman chegaram juntos, em fevereiro de 1987, pelas mãos dos criadores mais identificados com cada um deles. Pérez escreveu e desenhou o personagem que havia escolhido. Miller redefiniu pela segunda vez consecutiva o personagem que havia transformado.

Byrne havia operado sozinho, sem um mapa estabelecido, sem poder ver o que seus contemporâneos fariam com os outros pilares do universo, em paralelo com Miller e meses antes de Pérez. Essa solidão criativa, essa necessidade de definir o Super-Homem no vácuo, sem referências do que o Batman pós-Crise seria na continuidade principal nem do que a Mulher-Maravilha se tornaria, pode ajudar a explicar tanto as escolhas que ele fez quanto os limites do que conseguiu alcançar.

O que ele produziu foi The Man of Steel. Seis edições. Uma reconstrução sistemática de toda a mitologia do personagem. E uma resposta, mais complexa do que seus defensores geralmente admitem e mais habilidosa do que seus críticos costumam reconhecer, à pergunta que o pós-Crise havia colocado sobre a mesa: o que é, afinal, o Super-Homem?

Existe uma versão da história dos quadrinhos em que John Byrne chegou à DC Comics em 1986 como um deus descendo de uma montanha, carregando tábuas completamente novas. Nessa versão, ele olhou para cinquenta anos de mitologia do Super-Homem, declarou tudo insuficiente e inventou algo sem precedentes. Essa versão é lisonjeira, amplamente repetida e definitivamente equivocada.

A verdade é consideravelmente mais interessante e verdadeiramente mais complicada. O que Byrne realmente fez com The Man of Steel não foi uma invenção. Foi arqueologia, curadoria e transplante. Ele escavou a Era de Ouro, tomou emprestado generosamente de uma série de televisão que a maioria dos seus leitores dos anos 80 haviam visto apenas em reprises, absorveu a gramática emocional de Superman: The Movie que já havia remodelado a percepção pública do personagem, e então aplicou as técnicas narrativas de uma editora rival para manter todas essas peças recuperadas unidas. O resultado foi brilhante. Também foi, quase inteiramente, montado a partir de materiais pré-existentes.

Essa distinção importa. Não porque Byrne mereça menos crédito do que recebe: a síntese que ele alcançou foi genuinamente notável e sua influência sobre o Super-Homem que dura quatro décadas, mas porque entender o que ele realmente fez ilumina algo verdadeiro e importante sobre como a mitologia funciona. Byrne não criou um novo Super-Homem. Ele realizou uma restauração seletiva de um Super-Homem mais antigo, passou esse material por vários filtros que modernizaram seu registro emocional, e o apresentou em um pacote que parecia radical porque substituía uma versão do personagem que havia se tornado genuinamente exaustiva.

Em meados dos anos 1980, o Super-Homem da Era de Prata havia se calcificado em algo quase indefensável. Décadas de mitologia acumulada haviam produzido um personagem de poder efetivamente infinito. Na Era de Prata, ele era cercado por um elenco de apoio cuja função principal era gerar esquemas cada vez mais barrocos para descobrir que Clark Kent e Super-Homem eram a mesma pessoa. Lois Lane, uma das grandes criações jornalísticas da ficção popular americana, havia sido reduzida a uma obcecada romântica cujas histórias mais memoráveis envolviam kryptonita vermelha, desejos mágicos e disfarces elaborados para induzir um homem a se casar com ela. Lex Luthor, que havia começado como um criminoso científico genuinamente ameaçador, havia derivado para uma espécie de irrelevância infantil. O próprio Super-Homem conseguia mover planetas, viajar no tempo e espirrar sistemas solares pela força do nariz. As apostas emocionais haviam evaporado completamente. E as várias reformulações da Era de Bronze arquitetadas por Julie Schwartz, Denny O’Neil, Elliot S! Maggin, Cary Bates e até mesmo o Rei dos Quadrinhos, Jack Kirby, não surtiram o efeito de apagar o que Mort Weisinger tinha construído antes.

Crisis on Infinite Earths tinha acabado de demolir a complexidade estrutural do Universo DC, eliminando décadas de mundos paralelos e histórias contraditórias. O momento exigia um recomeço. Mas um recomeço em direção a quê? A resposta de Byrne foi recuar antes de avançar. Remover tudo que havia se acumulado desde aproximadamente 1948 e perguntar qual havia sido a concepção original do personagem, e porque havia funcionado.

A edição de abertura de The Man of Steel anuncia suas intenções revisionistas imediatamente, e a revisão começa em algum lugar que a maioria dos leitores não pensaria em procurar: no próprio Planeta Krypton.

O Krypton pré-Crise havia sido muitas coisas ao longo das décadas, mas a versão dominante da Era de Prata era efetivamente um paraíso de ficção científica. Era colorido, emocionalmente caloroso, habitado por pessoas que se comportavam essencialmente como humanos idealizados em roupas futuristas. Tinha história, cultura, esportes, romance. Era um mundo que o leitor deveria lamentar na perda.

Emprestando a concepção de Richard Donner, o Planeta Krypton de Byrne não lamenta nada porque não há nada a lamentar no sentido convencional. É frio. É estéril. O contato físico entre indivíduos é aparentemente inexistente. A reprodução kryptoniana foi mecanizada em matrizes de nascimento. Jor-El não é um cientista celebrado que adverte um conselho ingrato; ele é uma figura de quase completo isolamento social, apresentando argumentos a burocratas que o tratam com a indiferença burocrática de administradores gerenciando papelada. David S. Goyer, Chris Nolan e Zack Snyder beberam dessa fonte para recriar Krypton no filme de 2013, e na série de TV que Goyer desenvolver entre 2018 e 2019.

Essa é uma escolha tonal profunda, e não é acidental. Ao tornar Krypton alienígena no sentido mais profundo possível, não apenas tecnologicamente avançada, mas emocionalmente incompreensível, Byrne elimina qualquer possibilidade de que Super-Homem olhe para suas origens com nostalgia. Krypton não é algo perdido. É algo do qual se escapou. A tragédia não é que um paraíso foi destruído, mas que uma civilização tão avançada a ponto de ter alcançado as estrelas havia simultaneamente se divorciado tanto do calor humano que merecia, em algum sentido estrutural, o que aconteceu com ela.

A consequência imediata é que Smallville não está competindo com Krypton pela lealdade emocional do Super-Homem. A competição estava viciada desde a primeira página. Não há disputa. Os Kents vencem antes mesmo de Kal-El pousar. Talvez por isso o conflito central apresentado na versão de James Gunn, de 2025, pareça meio bobo, pois sabemos que não tem por que ele preferir os gelados Jor-El e Lara aos amorosos Jonathan e Martha. Gunn parece esquecer que ele não está fazendo a primeira versão pós-Crise para a grande mídia: Superman de Ruby-Spears, escrita por Marv Wolfman, Lois & Clark baseada no Byrne, Smallville e até o recente Superman/Lois vieram antes dele.

Esse é o fundamento conceitual sobre o qual todo o resto da minissérie é construído. Super-Homem não é um kryptoniano criado por humanos. Ele é um ser humano que por acaso nasceu em Krypton, e o acidente biológico da sua concepção é quase inteiramente irrelevante para quem ele é. Byrne passará seis edições estabelecendo essa premissa, e a edição seis a declarará explicitamente. Mas tudo começa aqui, com um Krypton projetado para ser emocionalmente impossível de lamentar.

A matriz de nascimento, o dispositivo que garante que Kal-El tecnicamente nasça na Terra, às vezes é tratada como um detalhe técnico menor, mas é ideologicamente central para tudo que Byrne está fazendo. Kal-El nasce na Terra, ele viaja espaço dentro da matriz de concepção que só rompe em contato com os Kents. Isso torna Super-Homem legalmente, simbolicamente e filosoficamente um terrestre. Não metaforicamente. Literalmente. Ele não imigra para a Terra. Ele nasce nela. A herança alienígena é herança genética, nada mais, algo aproximadamente análogo a uma criança humana nascida no exterior de pais de outra etnia. A linhagem é kryptoniana. A pessoa é norte-americana. Nascido no Meio-Oeste dos EUA.

A eliminação do Superboy decorre diretamente dessa lógica, e é talvez a decisão estrutural mais significativa de Byrne. Na Era de Prata, o Super-Homem pré-Crise havia passado seus anos de adolescência como um super-herói público. Tinha aventuras com a Legião dos Super-Heróis. Tinha uma carreira antes de sua carreira. Já era Super-Homem, só que menor. Byrne elimina tudo isso completamente. Clark cresce como Clark. Joga futebol americano. Se preocupa com ser adotado. Descobre o que seu corpo pode fazer e esconde isso, porque os Kents, crucialmente, ambos, porque agora os dois sobrevivem, lhe ensinaram que o mundo não está pronto e ele também não.

Isso importa enormemente para o que Clark Kent é. Se Clark passou seus anos de adolescência como Superboy, então a persona de Clark é genuinamente um disfarce, uma performance deliberada adotada para proteger uma identidade secreta que o precede. Mas se Clark cresceu como Clark, se toda a sua auto concepção foi formada sem que Super-Homem existisse, então Clark Kent não é uma performance. Ele é uma pessoa. Super-Homem é o que Clark Kent consegue fazer. Clark Kent é quem Super-Homem é.

Byrne entendeu que essa única inversão conceitual, Clark é a pessoa real, Super-Homem é o disfarce, era a coisa mais importante que precisava estabelecer, e passou a edição inteira criando as condições que a tornavam emocionalmente verdadeira em vez de meramente afirmada.

A edição termina não com drama ou ação, mas com um projeto familiar. Martha faz o traje. Jonathan ajuda a construir a persona pública. Os Kents se sentam em volta da mesa da cozinha e inventam colaborativamente o Homem de Aço. É uma imagem extraordinária, o ser mais poderoso da Terra sendo criado não por forças cósmicas ou tecnologia alienígena, mas por um casal de fazendeiros do Kansas com bons valores e uma máquina de costura. Isso não é invenção. Mas é uma restauração tão completa e tão esclarecida emocionalmente que funciona como tal.

A segunda edição é, entre outras coisas, uma correção necessária. Byrne entendeu que a Era de Prata havia feito algo com Lois Lane que era quase imperdoável. Simplesmente patética, Mort Weisinger tinha pego a melhor personagem concebida por Siegel e Shuster em 1938 como uma repórter durona, agressiva e competitiva, uma mulher dos anos 30 que conseguia a notícia indo a lugares onde não devia e fazendo coisas que lhe diziam para não fazer, e gradualmente a transformado em uma figura cuja característica definidora era a obsessão romântica por um homem que não estava interessado nela. Os esquemas. Os intermináveis enredos de "Clark Kent é o Super-Homem?". Os resgates repetidos. A redução de uma profissional dinâmica a um satélite da história de outra pessoa.

A Lois Lane de Siegel e Shuster, concebida junto com o próprio Super-Homem, no verão de 1933 em Cleveland. Seu nome veio da atriz Lola Lane, seu rosto foi modelado a partir de Jolan Kovacs, a futura Joanne Siegel, que posou para Joe Shuster em 1935, e seu espírito veio do amor não correspondido de Jerry Siegel por sua colega de escola Lois Amster. Ela nasceu para o mundo em 18 de abril de 1938, antes do Batman e antes da Mulher-Maravilha. Lois é uma precursora do feminismo. Ela surge no coração da Grande Depressão, no ambiente mais competitivo e impiedosamente masculino que a América urbana produzia: a redação de um grande jornal metropolitano. Ainda não havia fábricas de guerra, não havia convocação nacional, não havia cartaz do governo pedindo que as mulheres se levantassem. Havia apenas uma mulher lutando a batalha sem fim pela verdade e a justiça, ela já era a melhor repórter da redação do editor George Taylor, que combatendo o mal sem poderes, sem traje e sem a menor paciência para os limites que o mundo masculino tentava impor a ela. Lois não esperou a Segunda Guerra Mundial para provar que mulheres podiam ocupar espaços de poder e competência. Ela meteu o pé na porta da frente anos antes, e ninguém a convidou. Lois veio antes mesmo de Rosalind Russell em His Girl Friday de 1940. Quando Rosie the Riveter apareceu em 1942 convocando mulheres americanas para os postos de trabalho deixados pelos homens que foram à guerra, Lois Lane já existia há quatro anos. Rosie representa um momento histórico. Lois representa algo anterior e mais fundamental: a recusa individual, cotidiana e sem fanfarra de aceitar um mundo construído para excluir você. E é isso que Byrne tenta recuperar.

A restauração de Lois por Byrne começa antes mesmo do Super-Homem aparecer na edição. Ela já está operando. Já é dominante. O Planeta Diário sob Byrne não é um escritório agradável onde jornalistas têm aventuras; é um ambiente competitivo de alta pressão onde a posição profissional é conquistada diariamente, e Lois claramente conquistou mais do que qualquer outra pessoa no prédio. Perry White não a bajula. Clark, quando chega, não a impressiona. Ela é o padrão pelo qual todos os outros são medidos.

A sequência em que o carro dela cai na água no porto de Metropolis, Lois se jogando em uma situação perigosa em busca de uma notícia, é o ponto de ação central da edição, e é cuidadosamente construída para significar algo específico. Lois não está em perigo por ser incompetente. Está em perigo por ser competente demais, determinada demais, incapaz de aceitar que algumas notícias não valem morrer por elas. O perigo é consequência de suas virtudes, não de suas falhas. Quando Super-Homem a resgata, ele não está resgatando uma vítima. Está resgatando alguém que precisava ser puxada de volta das consequências de seu próprio profissionalismo implacável. Esse é um tipo completamente diferente de resgate, e estabelece um tipo completamente diferente de relacionamento. A entrevista em seguida é claramente baseada na cena entre Christopher Reeve e Margot Kidder.

O mapa de influências aqui é instrutivo. A Lois de Byrne deve mais à versão de Margot Kidder do filme de 1978, a profissional moderna, independente e com a carreira em primeiro lugar e à versão durona de Phyllis Coates da televisão do início dos anos 1950. Apagando por completo a versão cômica, doce e apaixonada de Noel Neill, que muitos endeusam como a Lois Lane definitiva. Assim a Lois de Byrne também recupera algo da original da Era de Ouro, a mulher que se metia em encrencas por ser determinada em vez de tola. O que ela definitivamente não se parece é com a versão da Era de Prata, que Byrne completamente elimina.

A restauração de Lois Lane é, em miniatura, o que Byrne está fazendo em toda a minissérie. Ele não está criando algo novo, está realizando um trabalho de triagem em um personagem que havia sido gradualmente diminuído, removendo as acreções de cinco décadas, e devolvendo-a a algo que se aproxima de sua concepção original, atualizada para as expectativas de um público de 1986 sobre como uma mulher profissional poderia realmente se comportar.

A chegada de Clark no final da edição é estruturalmente precisa. O triângulo de duas pessoas: Lois, Super-Homem, Clark, está agora estabelecido. Mas Byrne o estabeleceu de uma forma que torna a ironia dramática mais sofisticada do que jamais havia sido. Lois quer Super-Homem. Clark é o Super-Homem. Mas Clark não está performando Clark para ficar perto de Lois. Clark é quem Clark é. Super-Homem é um trabalho. Essa distinção impulsionará a tensão romântica dos anos seguintes de quadrinhos de formas que a versão da Era de Prata, com sua comédia grosseira baseada em disfarces, jamais teria conseguido. Essa nova dinâmica dará coração a série de TV Lois & Clark de Deborah Joy Levine produzida 6 anos depois e a série animada de Bruce W. Timm e Paul Dini.

A terceira edição é a mais politicamente significativa das seis, embora não pelas razões geralmente citadas. A leitura convencional, de que Byrne importou o Batman de The Dark Knight Returns de Frank Miller para a continuidade principal, não está precisamente errada, mas confunde influência com origem. TDKR havia aparecido no início de 1986 e havia demonstravelmente mudado a conversa cultural sobre o que Batman poderia ser. Byrne absorveu a lição de que Batman deveria ser levado a sério. Ele não importou a caracterização específica de Miller, que era explicitamente um futuro alternativo e envolvia elementos, um Batman de sessenta anos preparando um movimento quase revolucionário, um relacionamento antagônico com um Super-Homem controlado pelo governo Reagan, completamente ausentes de Man of Steel #3.

O que Byrne realmente rejeita nesta edição é algo mais antigo e mais fundamental: o modelo World's Finest. Por décadas, Batman e Super-Homem foram retratados como grandes amigos, heróis complementares, o melhor da DC trabalhando em alegre conjunto. O relacionamento era tanto um exercício de branding quanto uma escolha narrativa. Havia produzido histórias encantadoras. Havia também produzido uma enorme quantidade de quadrinhos de aventura confortáveis e sem consequências, nos quais a tensão entre duas filosofias fundamentalmente opostas: uma heroica pelo poder e transparência, outra heroica pelo medo e sigilo, era permanentemente suprimida em favor da camaradagem. Vide os desenhos dos Super Amigos que ficaram no ar por mais de 10 anos. Byrne entendeu que a tensão era a história.

Seu Homem de Aço, na Edição #3, não está errado. Ele está genuinamente preocupado que um vigilante sem prestação de contas operando em Gotham City representa um precedente perigoso. Seus argumentos são razoáveis. Seu desconforto é proporcional. Ele não é retratado como ingênuo, é retratado como alguém com uma filosofia coerente sobre a relação entre poder individual e responsabilidade democrática. Ele acredita nas instituições. Confia na lei. Acha que um homem que se veste como um morcego e aterroriza criminosos em becos, por mais eficaz que seja, está fazendo algo que merece exame.

Seu Batman também não está errado. Ele opera do jeito que opera porque aprendeu, através da experiência, que as instituições falham, que as autoridades são corruptas, que a única responsabilização confiável é seu próprio julgamento aplicado a evidências que ele mesmo reuniu. Seu ceticismo em relação ao Super-Homem não é animosidade pessoal. O kryptoniano chega à sua cidade como representante, por mais involuntário que seja, de um tipo de autoridade que Batman passou a carreira inteira contornando. O confronto é ideológico antes de ser físico.

O famoso final, Batman revelando que garantiu sua proteção contra a interferência do Superman através de um dispositivo que explora a relutância do Superman em arriscar vidas inocentes, é a expressão mais nítida de algo que Byrne articula ao longo de toda a minissérie: a maior vulnerabilidade do Super-Homem é sua própria decência. Batman não derrota o Super-Homem sendo mais poderoso. Ele o derrota por compreendê-lo. Vence porque entende que a moralidade do Super-Homem cria restrições que podem ser antecipadas e exploradas. Esse é, incidentalmente, o modelo para quase todos os confrontos entre Super-Homem e Batman escritos nos trinta anos seguintes. Byrne o estabeleceu aqui.

O propósito mais profundo da edição, porém, não é definir Batman. É definir Super-Homem por contraste. Entendemos o que ele acredita ao vê-lo colidir com alguém que acredita de forma diferente. Entendemos seu compromisso com a abertura ao vê-lo encontrar alguém devotado ao sigilo. Entendemos sua fé nas instituições ao vê-la testada contra alguém que abandonou essa fé completamente. Batman, nesta edição, é um espelho. Superman olha para ele e se vê com mais clareza. Muito diferente do que foi feito por Miller em TDKR.

Se há um único momento em The Man of Steel que ilustra mais diretamente o argumento da "Marvelização", é a reimaginação de Lex Luthor na Edição #4, e ela merece o exame mais aprofundado. O Luthor pré-Crise era, em sua essência, um cientista. Sua característica definidora era o gênio: brilhante, obsessivo, capaz de construir máquinas que poderiam arrasar cidades. Mente sobre músculos. Seu ódio pelo Super-Homem era pessoal, enraizado em um backstory da Era de Prata envolvendo um acidente de laboratório e uma traição percebida na adolescência. Ele era um supervilão no sentido mais literal: um homem com tecnologia avançada usando-a para cometer crimes e perseguir vinganças. Ele também estava, na década de 1980, bastante entediante. O mundo havia mudado ao seu redor. Cientistas loucos com raios da morte haviam se tornado uma afetação de época.

O Luthor de Byrne não é um cientista. Segundo Byrne a sugestão veio de Marv Wolfman, Lex é um bilionário. Ele controla Metrópolis não através da tecnologia, mas através do dinheiro, da influência, de conexões políticas, de manobras jurídicas e do cultivo sistemático de todos na cidade que possam algum dia ameaçá-lo. Ele não constrói raios da morte. Ele constrói edifícios. Ele não luta contra Super-Homem por causa de uma mágoa pessoal. Ele odeia Super-Homem porque o Homem de Aço representa a única coisa que ele jamais encontrou: um ser de imenso poder que não pode ser comprado, intimidado ou cooptado. Essa é uma transformação profunda, e exige honestidade sobre de onde veio.

A vilania corporativa não foi um conceito que Byrne inventou. A Marvel vinha produzindo antagonistas ricos e protegidos institucionalmente por décadas. O Rei do Crime. Os vários antagonistas de Tony Stark na indústria de defesa. As nebulosas conspirações corporativas que cercavam a S.H.I.E.L.D. A premissa recorrente da Marvel de que os inimigos mais perigosos são aqueles cujo dinheiro e influência os tornam imunes aos mecanismos que restringem criminosos comuns, esse era um território bem estabelecido da Marvel em 1986.

O argumento de que Byrne "Marvelizou" Luthor não é, portanto, inteiramente injusto. Ele pegou um personagem que havia operado na tradição narrativa da DC, o supervilão colorido com uma especialidade e o reconcebeu em termos que seriam imediatamente familiares aos leitores de quadrinhos da Marvel. Luthor se torna, efetivamente, o dono de Metrópolis. Ele é perigoso não porque é mais poderoso que Super-Homem, mas porque os sistemas que Super-Homem respeita: lei, devido processo, responsabilidade democrática são sistemas que Luthor aprendeu a possuir. Em quem Wolfman e Byrne se inspiraram? O magnata do mercado imobiliário de New York e atual presidente dos EUA: Donald Trump. Com direito a um prédio da Lex Luthor inspirado no Trump Tower de Manhattan.

Há uma cena na Edição #4 que cristaliza isso. Quando Super-Homem e Luthor se encontram, e o encontro não é uma batalha. É uma conversa entre dois homens que se reconhecem como fundamentalmente opostos. Luthor explica, com perfeita confiança, que não fez nada ilegal. Super-Homem não pode tocá-lo, a menos que o prefeito de Metropolis interfira. A lei que Super-Homem honra é a lei que protege Luthor. A ordem moral que Super-Homem defende é a ordem moral que Luthor aprendeu a manipular.

Isso transforma o conflito Superman-Luthor de uma questão de poder físico para uma questão de justiça sistêmica, e é quase certamente a inovação individual mais consequente de Byrne. O Luthor corporativo foi tão bem-sucedido que se tornou efetivamente permanente. O cientista louco nunca voltou completamente. Toda história importante sobre Luthor subsequente: em quadrinhos, filme e televisão, foi construída sobre o alicerce que Byrne lançou nesta edição.

O contexto dos anos 1980 importa enormemente aqui. Byrne escreveu esse Luthor na era de Gordon Gekko, das aquisições corporativas hostis, de um momento cultural em que a figura do bilionário predador era o vilão dominante da imaginação nacional. "Ganância é bom" ainda não era uma frase: Wall Street chegaria em 1987, mas as condições culturais que fariam ressoar já existiam. O Luthor de Byrne é explicitamente um produto da América da era Reagan, um homem cujo sucesso é legível como sucesso dentro dos valores operacionais de seu momento. É isso que o torna assustador de uma forma que um homem com um raio da morte jamais poderia ser. Raios da morte são fantasia. A captura corporativa de instituições democráticas é algo que pode acontecer numa terça-feira.

A edição do Bizarro é a mais formalmente experimental das seis, e também a mais sofisticada emocionalmente, o que não é uma combinação que alguém teria previsto. O Bizarro pré-Crise era um conceito, o duplicata imperfeita, o mundo ao contrário, o antagonista de lógica invertida que quer o que Super-Homem tem e só consegue produzir paródias horríveis disso. Era frequentemente cômico. Às vezes pungente. Quase sempre usado como brinquedo filosófico para examinar ideias sobre identidade e imitação. O Bizarro da Era de Prata tinha pathos embutido nele.

O Bizarro de Byrne mantém o pathos e elimina todo o resto. Ele não é o falante ao contrário da Era de Prata. Ele não constrói um Mundo Bizarro nem o povoa com versões Bizarro do elenco de apoio do Super-Homem. Ele não tem filosofia, código ou civilização. Ele é uma falha biológica: um clone produzido pela arrogância de Lex Luthor que não consegue manter adequadamente sua própria estrutura celular, que possui os poderes do Super-Homem sem a compreensão do Superman sobre eles, que se aproxima das pessoas porque algo em seus instintos fragmentados anseia por conexão e as afugenta porque tudo nele está errado.

A decisão de parear a história do Bizarro com a de Lucy Lane é o golpe estrutural magistral da edição. Lucy, aeromoça nessa versão, foi cegada em um ataque terrorista. Ela perdeu sua carreira, sua independência, seu senso de futuro. Ela entende com perfeita clareza o que lhe foi tirado. Bizarro não entende quase nada. Ele existe. Age. Se desintegra. Sua tragédia é a tragédia de algo que nunca teve a chance de saber o que era. A tragédia de Lucy é a tragédia de alguém que sabe exatamente o que perdeu.

Essas são duas relações completamente diferentes com o sofrimento, e Byrne as justapõe sem melodrama ou falsa equivalência. Ele não sugere que são iguais. Sugere que se iluminam mutuamente, que a consciência da perda é sua própria espécie de dor, distinta mas nem maior nem menor que a dor de uma criatura que não consegue nem formar o conceito de perda.

O clímax, a dissolução do Bizarro liberando energia e matéria que restaura a visão de Lucy é operaticamente coincidente, e Byrne o merece porque passou a edição inteira tornando ambas as histórias emocionalmente reais e paralelas. A mecânica é de quadrinhos. As emoções não são. A recuperação de Lucy parece graça em vez de conveniência porque seu sofrimento foi escrito como sofrimento genuíno em vez de função de enredo.

Espreitando por trás de tudo isso está Luthor. Ele criou o Bizarro. Ele criou essa tragédia através de sua recusa em aceitar que há coisas no universo que não podem ser adquiridas ou replicadas. Sua obsessão em obter Super-Homem, em possuir, entender, controlar, copiar esse homem impossível, produz uma vida quebrada que vaga por Metrópolis causando dano e dor antes de se desintegrar. A edição é, entre outras coisas, um argumento sustentado sobre a ética da criação: do que você é responsável quando traz algo à existência, e o que acontece quando o que você cria acaba sendo algo que você não consegue controlar. Esse é talvez um território filosoficamente mais rico do que Byrne normalmente recebe crédito por explorar.

A sexta edição é o pagamento de tudo que a precedeu, e é a única edição em que a tese de Byrne é declarada explicitamente em vez de demonstrada estruturalmente. Clark retorna a Smallville. Ele encontra Lana Lang. Um flashback revela que ele contou a verdade para Lana anos atrás, que ela foi a primeira pessoa em quem Clark voluntariamente confiou seu segredo, antes mesmo de ter uma identidade secreta para proteger. E então Byrne faz algo notável: ele leva a sério o custo que essa revelação teria para ela.

Lana amava Clark. Esperava se casar com ele. Esperava a vida que casais de Smallville que se amam deveriam ter. E então aprendeu que o homem que amava pertencia ao mundo. Não abstratamente. Literalmente. Ele era um ser de poder infinito e, portanto, de obrigação infinita. Qualquer reivindicação que ela tinha sobre ele era menor do que a reivindicação que toda pessoa viva tinha sobre ele. Ela não podia vencer essa competição. Ninguém podia.

Sua depressão após a partida de Clark não é fraqueza. É uma resposta proporcional a uma perda real. E sua eventual recuperação, sua decisão de amá-lo o suficiente para deixá-lo ir, de entender que seu destino não era uma traição, mas simplesmente um fato, representa uma maturação emocional genuína. Byrne transforma Lana de uma figura no passado do Super-Homem em uma figura de complexidade moral por direito próprio, alguém que processou uma situação impossível e chegou a uma espécie de sabedoria sobre ela.

Essa é a conclusão emocional para a qual a minissérie vinha se construindo. O arco inteiro de Clark ao longo de seis edições foi sobre entender o que ele é ao encontrar o que não é, o que não pode ter, o que escolheu e o que foi escolhido por ele. As aparições de Jor-El nesta edição, o programa educacional armazenado no foguete kryptoniano, a transferência do conhecimento de Krypton para a mente de Clark, não são uma revelação de que Krypton era seu lar de verdade. São um teste dessa proposição que produz o resultado oposto.

Jonathan Kent atacando um holograma com uma pá é a imagem que cristaliza tudo. A Terra vence. O Kansas vence. Martha e Jonathan vencem. A fazenda vence. Não porque Krypton fosse ruim, alienígena ou fria, embora Byrne tenha estabelecido tudo isso na Edição #1, mas porque Clark é quem é e quem é foi moldado em Smallville. O conhecimento de Krypton o enriquece. Não o muda. Ele já estava completo.

A tese final de Byrne: Krypton lhe deu os poderes, a Terra lhe deu os valores, é simples a ponto da obviedade, mas não havia sido declarada com essa clareza antes. O Super-Homem da Era de Prata sempre foi ligeiramente ambivalente sobre sua herança, atraído por Krypton de formas que complicavam sua identidade terrestre. Byrne remove a ambivalência completamente. Clark não é meio-kryptoniano em qualquer sentido psicológico significativo. Ele é plenamente humano. A fisiologia alienígena é incidental. O coração humano é tudo.

Tendo percorrido as seis edições, vale examinar o argumento da "Marvelização" com seriedade, porque não é simplesmente uma crítica pejorativa. Descreve algo real. A grande inovação da Marvel nos anos 1960 foi tornar os quadrinhos de super-heróis sobre os problemas de ser um super-herói. Peter Parker se preocupa com dinheiro. O Quarteto Fantástico discute entre si. Os X-Men enfrentam discriminação institucional. Os quadrinistas Jack Kirby, Steve Ditko, e o editor Stan Lee tornaram seus personagens legíveis como pessoas ao dar-lhes a textura de preocupações humanas reais: competição profissional, conflito interpessoal, frustração romântica, ansiedade financeira, em vez da nobreza arquetípica limpa do estilo editorial da DC. O estilo editorial da DC havia produzido figuras míticas. Nem sempre havia produzido pessoas interessantes.

Byrne traz a abordagem Marvel para Metrópolis em The Man of Steel, e o resultado é uma transformação de toda a função do elenco de apoio. Perry White se torna um editor real com prioridades editoriais reais. Lois Lane se torna uma jornalista real com ambições profissionais reais e instintos competitivos reais. Clark navega pelas dinâmicas sociais reais de uma redação. Luthor funciona não como um antagonista fantasiado, mas como uma figura de poder institucional operando dentro de estruturas sociais reconhecíveis. O mundo ao redor do Homem de Aço começa a parecer um lugar onde pessoas reais vivem, em vez de um cenário para aventuras.

Essa é absolutamente uma técnica Marvel aplicada ao material DC. Os defensores de Byrne argumentam que a própria síntese foi inovadora, que pegar o realismo interpessoal da Marvel e aplicá-lo à mitologia do Super-Homem produziu algo maior do que qualquer uma das tradições havia alcançado separadamente. Os críticos argumentam que Byrne essencialmente passou o Super-Homem por um filtro Marvel e recebeu crédito por invenção quando estava realizando adaptação. Ambas as posições têm mérito. A síntese foi habilidosa. Também foi, demonstravelmente, uma síntese.

É aqui que o argumento se torna genuinamente interessante, filosoficamente em vez de factualmente. Se Byrne restaurou elementos da Era de Ouro, importou o Clark Kent de George Reeves, absorveu a gramática emocional do filme de 1978, reinventou Luthor ao estilo de vilão Marvel, e aplicou as dinâmicas interpessoais da Marvel ao elenco de apoio do Superman, e se todos esses movimentos podem ser rastreados a antecedentes específicos, em que sentido, se é que houve algum, ele reinventou algo?

A resposta depende inteiramente do que você acha que originalidade é. Uma visão: originalidade significa produzir algo sem antecedentes claros, criar material que não existe em nenhuma forma anterior. Por esse padrão, Byrne não reinventou o Super-Homem. Ele o recombinou.

Outra visão: originalidade significa encontrar uma nova relação entre elementos existentes, uma nova síntese que produz significados e efeitos que nenhum dos elementos poderia produzir independentemente. Por esse padrão, a conquista de Byrne foi genuína. A combinação específica: iniciativa da Era de Ouro mais profissionalismo de Reeves mais calor emocional de Donner mais realismo interpessoal da Marvel, menos toda a mitologia barroca da Era de Prata, organizada em torno da tese de que Clark Kent é a pessoa real, não havia existido antes. O todo era genuinamente diferente de qualquer uma de suas partes.

A versão mais forte do argumento contra a originalidade de Byrne é esta: sua maior contribuição foi reconhecer o que já funcionava e remover o que não funcionava. Isso é curadoria, não criação. Os ingredientes estavam disponíveis. A conquista de Byrne foi editorial. A versão mais forte do argumento a favor da originalidade de Byrne é esta: inteligência editorial em escala, aplicada a uma mitologia de cinquenta anos e produzindo uma síntese coerente o suficiente para definir essa mitologia pelos próximos quarenta anos, não é uma conquista menor. É exatamente o tipo de inteligência que a produção de arte duradoura exige. A síntese foi o trabalho.

A reputação de Byrne como revolucionário provavelmente é exagerada. Sua reputação como um reconstrutor habilidoso e inteligente, alguém que entendeu o que a mitologia do Super-Homem precisava ser, a escavou de sob décadas de acreção, e a reconstruiu com as técnicas que seu momento exigia, é inteiramente merecida. Ele repetiria isso novamente no Elseworlds Superman/Batman: Generations.

The Man of Steel funciona porque não parece arqueologia. Parece descoberta. Leitores em 1986 encontrando um Clark Kent genuinamente interessante, uma Lois Lane genuinamente formidável, um Lex Luthor genuinamente assustador, um Super-Homem genuinamente humano: eles não estavam conscientes de estar recebendo antiguidades restauradas. Vivenciaram como revelação.

Essa é a conquista final, e pode ser a mais importante. Byrne montou seu Super-Homem a partir de elementos que haviam existido, em várias formas, desde 1938. Mas os montou em um todo coerente, emocionalmente ressonante e ideologicamente consistente, organizado em torno de uma tese simples: Clark é a pessoa real, a humanidade é a origem real, a Terra é o lar real, que nenhuma das versões anteriores havia declarado com tanta clareza.

As seis edições de The Man of Steel são mais bem compreendidas não como seis capítulos de uma única história, mas como seis argumentos para a mesma proposição, cada um feito através de uma figura diferente no mundo do Superman. O próprio Clark. Lois. Batman. Luthor. Bizarro. Lana. Cada um circunda a questão central, que tipo de ser é o Super-Homem, realmente? De um ângulo diferente e chega à mesma resposta. Ele é um ser humano. Não metaforicamente. Não aspiracionalmente. Constitutivamente. Sua humanidade não é algo que o alienígena kryptoniano aprendeu. É algo que o menino de fazenda do Kansas sempre foi. Nature vs. Nurture.

Essa não era uma ideia nova. Era a ideia original, recuperada de sob quarenta anos de mitologia de ficção científica e barroco da Era de Prata, limpa, reparada onde necessário, e apresentada a uma geração que nunca a havia visto claramente. Podemos chamar isso de reinvenção é uma questão semântica. O que não é uma questão semântica é que funcionou, e que seus efeitos ainda são visíveis em todo tratamento sério do Homem de Aço que apareceu nas quatro décadas seguintes. Byrne não fez um Super-Homem novo. Ele encontrou o antigo e reconheceu o que era.

por Fabio Marques (18/6/2026)

quarta-feira, junho 03, 2026

O Super-Homem Escandinavo, o Gibi que Nunca Foi para Mim

O Super-Homem Escandinavo,
o Gibi que Nunca Foi para Mim
por Fabio Marques (Junho de 2026)

Existem muitas histórias raras do Super-Homem. Existem muitas histórias esquecidas do Super-Homem. E então existe Superman og Fredsbomben.

Publicado na Dinamarca em 1990 e posteriormente traduzido para algumas línguas europeias, Superman og Fredsbomben (Super-Homem e a Bomba da Paz, também conhecido como Um relato de Cinco Cidades) ocupa um lugar único na história do Homem de Aço. Até hoje, permanece como o único grahic novel original do Super-Homem concebido, escrito, desenhado e publicado pela primeira vez fora dos Estados Unidos com a plena autorização da DC Comics. Em quase noventa anos de história editorial do Super-Homem, essa distinção por si só o torna notável.

O que mais me fascina, porém, não é a sua raridade. É o fato de que este extraordinário gibi permanece quase invisível para grande parte dos leitores do Super-Homem, especialmente no mundo anglófono. Quase quatro décadas após a sua publicação, jamais recebeu uma edição oficial em inglês. Para uma obra que ganhou prêmios, lançou carreiras internacionais e demonstrou como um ícone quintessencialmente americano poderia ser reinterpretado por uma perspectiva distintamente europeia, essa ausência parece cada vez mais inexplicável.

Como colecionador de Super-Homem do Brasil que coleciona histórias em quadrinhos do personagem desde o início dos anos 1970, Superman og Fredsbomben tornou-se uma das grandes obsessões da minha vida como colecionador.

Ao longo dos anos, reuni todas as sete edições conhecidas do livro: as cinco edições originais publicadas nos países onde a história se passa: Holanda, Noruega, Suécia, Dinamarca e Finlândia, além das posteriores reedições espanhola e italiana. Encontrá-las não foi fácil. Algumas surgiram através de distribuidores europeus, outras em leilões online obscuros, e algumas exigiram anos de paciência. Colecionar Super-Homem frequentemente se torna uma forma de arqueologia, e Superman og Fredsbomben foi uma das escavações mais recompensadoras que já empreendi.

Minha relação com o livro começou no início dos anos 2000, quando obtive uma cópia da edição dinamarquesa original. Na época, eu não falava dinamarquês, e ainda não falo. Munido de pouco mais que um dicionário, determinação e um grau pouco saudável de curiosidade, fui trabalhando lentamente pelo texto. O que descobri era diferente de qualquer história do Super-Homem que eu havia lido.

Aquilo não era Metrópolis. Não era Smallville. Não era sequer a América. Não era sequer uma história em quadrinhos de super-heróis no sentido tradicional, lia-se como uma versão belga de bande dessinée do Super-Homem, repleta de humor, romance e política.

Em vez disso, Lois Lane e Clark Kent embarcam numa jornada pela Europa do Norte, seguindo um misterioso inventor e ativista pela paz chamado Theodore P. Wyatt, cuja máquina revolucionária supostamente transforma material radioativo em chumbo inofensivo. A invenção promete nada menos que o fim da era nuclear. Daí, a Bomba da Paz. Naturalmente, a história logo revela que as coisas não são o que parecem, e em pouco tempo o Super-Homem se vê confrontando uma conspiração envolvendo Lex Luthor, manipulação política e o espectro da ansiedade nuclear que ainda pairava sobre a Europa no fim da Guerra Fria. O que me impressionou imediatamente foi o quão profundamente europeia a história se sentia.

Como membro da Geração-X que cresceu durante a era Reagan, um dos aspectos de Superman og Fredsbomben que mais ressoou em mim foi o seu engajamento com a atmosfera política e cultural da Europa no final da Guerra Fria. Quando li o livro pela primeira vez, não estava me deparando com um período histórico abstrato; estava revisitando um mundo que havia vivido. Lembrei-me de assistir Der Himmel über Berlin, de Wim Wenders, nos anos 1980, com suas imagens assombrosas de uma Berlim dividida. Lembrei-me de acompanhar a ascensão de Mikhail Gorbachev e ouvir palavras desconhecidas como Perestroika e Glasnost de repente entrarem no vocabulário político cotidiano. Assisti à Queda do Muro de Berlim se desenrolar pela televisão, um momento que parecia marcar o fim de uma era e o início de algo inteiramente novo. Ler uma história do Super-Homem ambientada nesse contexto foi ao mesmo tempo apropriado e eletrizante. Ao contrário dos quadrinhos americanos do Super-Homem com que cresci, Superman og Fredsbomben encarava a Guerra Fria por uma perspectiva europeia, refletindo as esperanças, ansiedades e incertezas de nações que viviam muito mais próximas das linhas de fratura do confronto Leste-Oeste. Ainda hoje, sempre que volto ao livro, quase consigo ouvir Wind of Change, dos Scorpions, tocando ao fundo. O quadrinho e a canção se entrelaçaram na minha memória, ambos capturando aquele breve momento otimista em que parecia que antigas divisões estavam desaparecendo e um mundo mais pacífico poderia genuinamente se tornar possível.

As histórias americanas do Super-Homem giram tradicionalmente em torno do heroísmo individual. Superman og Fredsbomben se ocupa de sistemas, diplomacia, medos ambientais, retórica política e confiança pública. Lois e Clark estão sempre conversando entre si. A ameaça não é meramente física. É ideológica. A história reflete uma perspectiva escandinava distinta sobre a política internacional, moldada por nações menores que vivem à sombra das rivalidades entre superpotências.

Lida décadas depois, ainda é possível sentir a atmosfera do final dos anos 1980. A Guerra Fria se aproximava do seu fim, mas a ansiedade nuclear continuava muito real. O livro canaliza esses medos numa narrativa que é simultaneamente lúdica e séria, satírica e sincera. Em muitos aspectos, parece menos um quadrinho americano de super-heróis e mais uma graphic novel político européia que por acaso tem o Super-Homem como protagonista.

Essa singularidade vem diretamente dos seus criadores.

O escritor Niels Søndergaar é um dos mais respeitados roteiristas, tradutores e editores de quadrinhos da Dinamarca. Além do seu trabalho original em quadrinhos, é particularmente célebre por trazer grandes histórias em quadrinhos internacionais aos leitores dinamarqueses através das suas traduções de obras como Tintin e Calvin e Haroldo. Ao longo da sua carreira, foi uma figura central na cultura de quadrinhos escandinava, ajudando a construir pontes entre as tradições europeias e americanas.

Para Superman og Fredsbomben, Søndergaard concebeu uma história que desafiava a narrativa convencional de super-heróis ao mesmo tempo em que permanecia fiel aos valores centrais do Super-Homem. Seu roteiro demonstra uma compreensão de que a maior habilidade do Super-Homem não é sua capacidade de socar com mais força do que qualquer outro, mas seu papel como símbolo moral e cultural. A influência de "The Dark Knight Returns", de Frank Miller, é evidente, mas era uma versão solar do anarquismo de Miller.

Uma das minhas anedotas favoritas sobre o livro envolve as interações de Søndergaard com o editor da DC Comics, Mike Carlin. Ele recordou posteriormente que Carlin objetava ao fato de Clark Kent se transformar em Super-Homem em banheiros públicos de Amsterdã, em vez de cabines telefônicas. Søndergaard argumentou que os telefones públicos eram impraticáveis na Europa por serem muito expostos. Por fim, o editor americano cedeu. Parece um detalhe menor, mas ilustra perfeitamente a troca cultural que se processava nos bastidores: o realismo dinamarquês colidindo com a tradição americana de super-heróis.

Se Søndergaard forneceu o arcabouço intelectual, Teddy Kristianse forneceu a alma.

Hoje Kristiansen é internacionalmente reconhecido como um dos artistas mais talentosos a já trabalhar com o Super-Homem. Em 2005, ganhou o prestigioso Eisner Award pelo seu trabalho artístico em Superman: It's a Bird, escrito por Steven T. Seagle, uma exploração profundamente pessoal e aclamada do mito do Super-Homem.

Porém, quando Superman og Fredsbomben foi criado, Kristiansen ainda estava relativamente no início de sua carreira. Olhando para trás, é impressionante o quanto sua voz artística já se mostrava completamente formada.

A arte era uma mistura diferente do estilo de Moebius, Hugo Pratt e Lorenzo Mattotti. A arte de Teddy Kristianse desafia categorizações fáceis. Mesclando as tradições narrativas dos quadrinhos europeus com a intensidade emocional da ilustração expressionista, seu trabalho privilegia atmosfera, textura e personagem em detrimento do espetáculo convencional de super-heróis. Suas figuras frequentemente são ligeiramente distorcidas, suas composições cinematográficas e suas páginas impregnadas de uma qualidade pictórica que prioriza o clima tanto quanto a clareza narrativa. Em vez de buscar o realismo fotográfico, Kristiansen cria uma realidade emocional, uma em que arquitetura, paisagens, cor e linguagem corporal se tornam partes integrais da narrativa.

Suas páginas pouco se assemelham aos quadrinhos convencionais de super-heróis da época. Em vez de buscar o realismo polido popular nos quadrinhos americanos, Kristiansen abraça formas expressivas, superfícies texturizadas, composições pictóricas e encenação cinematográfica. O resultado se aproxima mais dos romances gráficos europeus do que do universo mainstream de super-heróis.

Anos depois, Bruce W. Timm elogiaria especificamente o estilo distintivo de Kristiansen em Superman og Fredsbomben, reconhecimento que sublinha o quanto a arte continua sendo valorizada entre os profissionais que melhor conhecem o meio. Os editores da DC também queriam que Teddy fosse capaz de desenhar o escudo S do Super-Homem com perfeição. Ele conseguiu, mas claramente nos seus próprios termos.

O que mais me impressiona é como Kristiansen faz o Super-Homem parecer simultaneamente mítico e vulnerável. O personagem se destaca acima das pessoas comuns, mas jamais parece distante delas. Esse equilíbrio é um dos desafios mais difíceis na narrativa do Super-Homem, e Kristiansen o alcança repetidamente ao longo do livro. Essa humanidade também pode ser vista em seu trabalho posterior com o Super-Homem ao lado de Steven T. Seagle em Superman: It's a Bird… e Superman: Metropolis com Chuck Austen.

Outro aspecto inegavelmente europeu são as cores pintadas. E embora de forma escandalosa não esteja creditado em nenhum lugar do romance gráfico: o colorista Søren Håkansso. Onde outro colorista poderia ter recorrido aos vermelhos e azuis primários da publicação convencional de super-heróis, Håkansson compreendeu que esta era um tipo diferente de história que exigia um tipo diferente de luz. Seria fácil dizer que ele foi influenciado pela aclamada pintura de Lynn Varley em TDKR, mas aqui as cores são muito mais sutis. Sua paleta sofisticada e contida, enraizada nos cinzas, âmbares e azuis frios da Europa do Norte, não simplesmente acompanha a narrativa. Ela argumenta a favor dela. Ele faz as cidades nórdicas parecerem habitadas em vez de meramente visitadas, ancoradas no clima e nas estações reais. Sua contribuição não é decoração. É atmosfera — e atmosfera neste livro é tudo.

Embora os coloristas frequentemente fossem ignorados e mal creditados nos quadrinhos europeus durante as décadas de 1980 e 1990, Søren Håkansso conquistou reputação como um dos melhores profissionais da arte na Dinamarca. Historiadores dinamarqueses de quadrinhos o colocam ao lado de coloristas renomados como Bjarne Hansen, Lars Vendelbo e Jesper Ejsing, reconhecendo seu papel em elevar a coloração de uma tarefa puramente técnica a uma ferramenta narrativa essencial. Seu trabalho em projetos aclamados, incluindo a série Valhalla de Peter Madsen, demonstrou uma abordagem pictórica sofisticada que ajudou a definir a identidade visual distintiva dos quadrinhos dinamarqueses do período. A contribuição de Håkansson para Superman og Fredsbomben também serve como um exemplo precoce da extraordinária tradição de coloração que mais tarde alcançaria públicos internacionais através do aclamado trabalho de Bjarne Hansen em Superman for All Seasons.

Nenhum trabalho criativo existe isolado, e Superman og Fredsbomben não é exceção. Por trás do roteiro de Søndergaard, do trabalho de Kristiansen e de Håkansson, encontra-se outra inteligência visual que serve de ponte diretamente para a prosa: a letrista Rebecca Løw. Os letristas eram frequentemente praticamente invisíveis nos créditos dos quadrinhos, especialmente nas publicações europeias, mas Løwe era uma presença constante nas edições dinamarquesas dos principais quadrinhos europeus publicados pela Interpresse e pela Carlsen Comics nesse mesmo período. Créditos associados a séries como Les Tuniques Bleues, conhecida em dinamarquês como Blåfrakkerne, indicam que ela fazia parte do pequeno grupo de especialistas em produção responsáveis pela adaptação de quadrinhos internacionais para o mercado dinamarquês.

Nada disso, evidentemente, acontece sem a infraestrutura editorial por trás. O editor Henning Kure, uma das figuras mais influentes da cultura de quadrinhos dinamarquesa do século XX, um homem que passou sua carreira construindo pontes entre os leitores escandinavos e o mundo mais amplo dos quadrinhos, forneceu a inteligência editorial que moldou o projeto. E o editor Arne Stenby teve a audácia de propô-lo em primeiro lugar. Numa época em que a ideia de a DC Comics autorizar uma editora estrangeira a criar uma história original do Super-Homem era, por assim dizer, improvável, a convicção de Stenby transformou uma ideia ambiciosa num livro acabado. O fato de Superman og Fredsbomben existir não é inevitável. É o resultado de pessoas específicas, num momento específico, recusando-se a aceitar que certas coisas simplesmente não eram feitas. Um deles é o superfã Ove Høyer, que ajudou e apoiou a produção deste título e recebe uma dedicatória especial no livro. Conhecido por gerações de leitores dinamarqueses como "Super-Ove", Ove Høyer foi o principal defensor do Super-Homem e dos quadrinhos de super-heróis na Dinamarca. Como tradutor, editor e colunista, passou décadas apresentando o Homem de Aço aos leitores e ajudando a moldar a cultura dinamarquesa de quadrinhos.

Talvez o aspecto mais fascinante de Superman og Fredsbomben seja a eficácia com que remove o Super-Homem do seu contexto cultural habitual.

A história se desenrola por Amsterdã, Oslo, Copenhague, Estocolmo e Helsinque. Essas cidades, no final dos anos 1980, eram amplamente associadas a movimentos pacifistas, desarmamento nuclear, diplomacia e uma visão mais internacionalista da política mundial. Não eram oficialmente conhecidas como "as capitais da paz do mundo", como a história implica, mas de uma perspectiva europeia frequentemente simbolizavam muitos dos valores associados ao movimento pacifista.

Marcos famosos aparecem ao longo da narrativa, alguns dos quais sofrem danos espetaculares durante as batalhas do Super-Homem. Segundo Søndergaard, Mike Carli e a DC ficaram inicialmente preocupados com a quantidade de destruição retratada. A solução foi simples: o livro afirma explicitamente que o Super-Homem posteriormente reconstrói tudo.

Novamente, isso parece um detalhe menor, mas revela algo importante sobre como a DC encarava o Super-Homem. Mesmo numa história produzida no exterior, certas expectativas morais permaneciam inegociáveis. O Super-Homem poderia lutar. O Super-Homem poderia cometer erros. Mas o Super-Homem tinha de assumir a responsabilidade. Essa insistência acabou fortalecendo a história.

Em julho de 2022, após carregar a ideia por quase vinte anos, finalmente transformei um sonho em realidade. Viajei pelos mesmos países retratados no romance gráfico, seguindo o mais de perto possível o roteiro percorrido por Lois Lane e Clark Kent. Não era simplesmente turismo. Era uma peregrinação.

Caminhando pelos Grachtenpanden ao longo dos canais de Amsterdã, fiquei impressionado com a fidelidade com que Kristiansen havia capturado a geometria daquelas fachadas estreitas refletidas nas águas escuras. Havia estudado seus painéis tantas vezes que a cidade parecia simultaneamente nova e profundamente familiar, como se estivesse visitando um lugar que havia sonhado em vez de lido. As casas dos canais eram exatamente como ele as havia desenhado, e ainda assim eram também mais: tinham cheiro, som e o frio de uma manhã nórdica que nenhuma página de quadrinho pode reter plenamente.

Strøget em Copenhague e os Jardins de Tivoli nas proximidades produziram uma sensação diferente. Esses eram lugares retratados no livro com uma leveza que correspondia ao seu caráter, e caminhando por eles compreendi por que Søndergaard os havia escolhido. Há algo inerentemente teatral no Tivoli, algo que pertence naturalmente a uma história que mistura política com humor, e estando dentro dele senti a lógica do livro se encaixar de um modo que a leitura sozinha jamais havia alcançado completamente.

O Parque Frogner em Oslo me exigiu algo diferente. Caminhando entre o Monolito e as esculturas de Vigeland, envolto naquela meditação estranha e monumental sobre a figura humana, pensei em como Kristiansen havia utilizado essas formas na história — como seu peso e estranheza se adequavam a uma narrativa que nunca era inteiramente confortável, nunca era inteiramente leve. As esculturas parecem algo sonhado em vez de esculpido, e o livro compartilha essa qualidade.

Estocolmo ofereceu seu próprio prazer. Parado em Stortorget, no coração medieval da cidade velha, Gamla Stan, e depois em Sergels torg com sua geometria modernista e suas multidões, senti o contraste que perpassa o próprio livro: a tensão entre a história e o presente, entre o monumental e o cotidiano, entre um mundo que se lembra e um mundo que segue em frente.

E então, Helsinque. Parado diante do Monumento a Sibelius — aquela extraordinária cascata de tubos de aço que parece simultaneamente um órgão de tubos desmontado pelo vento e uma figura que se dissolve em som puro —, senti algo que não havia antecipado: uma espécie de duplicação da realidade. 

Havia encontrado este lugar pela primeira vez não pessoalmente, mas em tinta, através da interpretação de Kristiansen, anos antes de ter qualquer razão para acreditar que algum dia estaria ali. E no entanto estava, comparando a luz real caindo sobre o aço real com a luz que um artista dinamarquês havia imaginado e retratado décadas antes. A Catedral de Helsinque, branca e vasta contra o céu, produziu a mesma sensação. Esses não eram simplesmente marcos turísticos. Eram lugares que eu havia carregado dentro de mim por anos, comprimidos em painéis de quadrinhos, e que de repente tinham volume, peso e clima. Foi, no sentido mais verdadeiro da palavra, avassalador. Não esmagador, mas expansivo — como se o mundo tivesse silenciosamente crescido ao meu redor.

Antes de fazer a viagem, tive a oportunidade de discutir online tanto o romance gráfico quanto meus planos de viagem com Niels Søndergaar e Teddy Kristianse. Também conversei com o ex-editor do Super-Homem, Mike Carlin, cujo entusiasmo pelo projeto refletia o respeito que ele continua a inspirar entre aqueles familiarizados com a sua história. Cheguei até a tentar convencer Dan Didio a reimprimi-lo nos EUA.

A experiência reforçou algo que há muito suspeitava: Superman og Fredsbomben não é meramente uma curiosidade. É uma obra genuinamente importante do Super-Homem. A questão que continua me intrigando é simples: por que este livro nunca foi publicado em inglês?

Quando a DC Comics estava disposta a publicar material japonês do Batman por Jiro Kuwata, quando os romances gráficos europeus têm encontrado cada vez mais público anglófono, e quando os estudos sobre o Super-Homem tornaram-se mais internacionais do que nunca, a ausência contínua de Superman og Fredsbomben parece cada vez mais estranha.

A explicação, na medida em que pude apurar ao longo de muitos anos de investigação, parece ser jurídica e não editorial. A Interpresse, a editora dinamarquesa que tornou o livro possível, deixou de existir. Nas décadas seguintes à sua dissolução, a situação dos direitos parece ter se tornado embaralhada no tipo de ambiguidade que assombra acordos editoriais orfanados, sem que nenhuma parte sobrevivente detenha ao mesmo tempo a autoridade e a motivação para buscar novas edições. O livro não foi suprimido. Foi simplesmente deixado cair pelas rachaduras da história corporativa.

Originalmente, Superman og Fredsbomben foi publicado em sete idiomas em sete mercados europeus por seis editoras diferentes. A edição dinamarquesa foi lançada pela Interpresse, a edição holandesa pela Baldakijn Boeken, as edições norueguesa e finlandesa pela Semic, a edição sueca pela Carlsen Comics, a edição espanhola pela Zinco e a edição italiana pela Rizzoli Milano. Esta publicação internacional excepcionalmente ampla refletia tanto a ambientação europeia da história quanto a confiança das editoras de que uma aventura escandinava do Super-Homem poderia atrair leitores além das fronteiras nacionais e linguísticas.

Isso não é incomum no mercado editorial de quadrinhos. O que é incomum é que tenha acontecido com uma obra desta importância. A DC Comics é hoje parte de uma das maiores empresas de entretenimento do mundo, com recursos jurídicos e de licenciamento que superam em muito qualquer coisa imaginável em 1990. Se houvesse vontade de recuperar este livro, os meios para fazê-lo quase certamente existiriam. Acredito nisso há vinte anos. É uma crença silenciosa, mas persistente, e não espero abandoná-la tão cedo.

No entanto, apesar de jamais ter aparecido em inglês, Superman og Fredsbomben recusa-se a desaparecer.

Colecionadores continuam em busca de exemplares. Scans digitais circulam entre entusiastas. Edições espanhola e italiana apresentaram a história a novos leitores. Fãs brasileiros chegaram a produzir uma tradução não oficial para o português. Em dezembro de 2024, Søndergaard e Kristiansen se reuniram para uma exposição em Copenhague celebrando o legado do romance gráfico, exibindo e vendendo obras originais enquanto discutiam sua criação mais de três décadas após a publicação. Esse evento ilustra perfeitamente a estranha e maravilhosa vida pós-publicação do livro. A maioria dos projetos licenciados é esquecida em poucos anos.

Superman og Fredsbomben continua atraindo leitores, colecionadores, pesquisadores e fãs em vários países e idiomas. Para um quadrinho que nunca recebeu uma edição em inglês, isso é uma conquista extraordinária. Talvez essa durabilidade decorra do fato de que o livro compreende algo fundamental sobre o Super-Homem.

O Super-Homem não pertence exclusivamente à América. Embora ele tenha se tornado um dos símbolos mais reconhecíveis da cultura popular americana, foi criado por Jerry Siegel e Joe Shuster, filhos de famílias imigrantes cujas raízes se estendiam muito além dos Estados Unidos. Os pais de Siegel eram imigrantes judeus da Lituânia, enquanto Shuster nasceu no Canadá, numa família judaica com origens tanto nos Países Baixos quanto na Ucrânia.

Recentemente, o presidente da DC, Jim Le, explicou que se identificou profundamente com o Super-Homem porque a história do personagem espelhava aspectos da sua própria experiência como estrangeiro tentando se adaptar a uma nova cultura. Refletindo sobre sua infância como imigrante coreano nos EUA, Lee disse que o Super-Homem ressoou nele porque era "o imigrante supremo", e que o personagem o ajudou a se assimilar à cultura americana ao mesmo tempo em que lhe dava um sentido de pertencimento.

Superman og Fredsbomben demonstra o que acontece quando esse mito passa por um filtro escandinavo. O resultado é reflexivo, engraçado, político, humano, visualmente deslumbrante e diferente de qualquer outra coisa na vasta história do Super-Homem. Mais de trinta anos após a sua publicação, continuo convicto de que merece ser reconhecido não meramente como uma peça de colecionador, mas como um dos romances gráficos do Super-Homem mais fascinantes já criados. Após décadas colecionando suas edições e viajando pela Europa do Norte em seus passos, posso afirmar com confiança que poucos quadrinhos recompensaram minha curiosidade de forma tão rica.

E me ensinou algo que décadas de quadrinhos americanos do Super-Homem, com toda a sua grandeza, jamais conseguiram: que este personagem pertence a qualquer pessoa que já se sentiu como um forasteiro em busca de um lugar no mundo, a qualquer pessoa que já carregou esperança através de fronteiras, a qualquer pessoa que acreditou que a distância entre onde se está e onde se quer chegar pode ser superada. Siegel e Shuster entenderam isso instintivamente, porque viveram assim. Søndergaard e Kristiansen também entenderam, porque a Escandinávia à sombra da Guerra Fria compreendia isso à sua maneira. E eu entendi, lendo um quadrinho dinamarquês com um dicionário no Brasil, decifrando lentamente uma história que nunca foi feita para mim e que, no entanto, desde a primeira página, parecia ter estado me esperando. Uma edição em inglês não apenas tornaria o livro mais acessível.

Devolveria ao debate que sempre mereceu participar. A história do Super-Homem é grande demais, e humana demais, para permanecer trancada em idiomas que a maioria dos seus leitores jamais aprenderá.

Fabio Marques lendo "Superman og Fredsbomben"
por Teddy Kristiansen e Niels Søndergaard


Lois & Clark conversando em"Superman Og Fredsbomben"

Super-Homem destroi o Monolith no Frogner Park em Olso

Lois Lane e o misterio Theo P. Wyatt em Amsterdam

Super-Homem nada nos canais de Amsterdam

Versões internacionais de Super-Homem e a Bomba da Paz

Versões internacionais de Superman og Fredsbomben


Superman e Il Pacificatore, Corto Maltese Magazine #102, Vol. 10 #3 (1992)

Superman og Fredsbomben

The Scandinavian Superman, the Comic That Was Never Meant for Me


The Scandinavian Superman,
the Comic That Was Never Meant for Me
by Fabio Marques (June 2026)

There are many rare Superman comics. There are many forgotten Superman comics. And then there is Superman og Fredsbomben.

Published in Denmark in 1990 and later translated into a handful of European languages, Superman og Fredsbomben (Superman and the Peace Bomb, also subtitled A Tale of Five Cities) occupies a unique place in the history of the Man of Steel. To this day, it remains the only original Superman graphic novel conceived, written, drawn, and first published outside the United States with the full authorization of DC Comics. In nearly ninety years of Superman publishing history, that distinction alone makes it remarkable.

Yet what fascinates me most is not its rarity. It is the fact that this extraordinary graphic novel remains almost invisible to much of the Superman readership, particularly in the English-speaking world. Almost four decades after its publication, it has never received an official English-language edition. For a work that won awards, launched international careers, and demonstrated how a quintessentially American icon could be reinterpreted through a distinctly European lens, that absence feels increasingly inexplicable.

As a Superman collector from Brazil who has been collecting Superman comics since the early 1970s, Superman og Fredsbomben became one of the great obsessions of my collecting life.

Over the years, I assembled all seven known editions of the book: the five original editions published in the countries where the story takes place: Netherlands, Norway, Sweden, Denmark and Finland, as well as the later Spanish and Italian reprints. Finding them was not easy. Some surfaced through European dealers, others through obscure online auctions, and a few required years of patience. Collecting Superman often becomes a form of archaeology, and Fredsbomben was one of the most rewarding excavations I have ever undertaken.

My relationship with the book began in the early 2000s when I obtained a copy of the original Danish edition. At the time I did not speak Danish and still don't. Armed with little more than a dictionary, determination, and an unhealthy degree of curiosity, I slowly worked through the text. What I discovered was unlike any Superman story I had ever read.

This was not Metropolis. This was not Smallville. This was not even America. It was not even a superhero genre comic book, it read like a Belgian bande dessinée version of Superman, filled with humor, romance and politics.

Instead, Lois Lane and Clark Kent embark on a journey across Northern Europe, following a mysterious inventor and peace activist named Theodore P. Wyatt, whose revolutionary machine supposedly transforms radioactive material into harmless lead. The invention promises nothing less than the end of the nuclear age. Ergo the Peace Bomb. Naturally, the story soon reveals that things are not what they seem, and before long Superman finds himself confronting a conspiracy involving Lex Luthor, political manipulation, and the specter of nuclear anxiety that still hung over Europe at the end of the Cold War. What struck me immediately was how deeply European the story felt.

As a member of Generation X who came of age during the Reagan era, one of the aspects of Superman og Fredsbomben that resonated most deeply with me was its engagement with the political and cultural atmosphere of late-Cold War Europe. When I first read the book, I was not encountering an abstract historical period; I was revisiting a world I had lived through. I remembered watching Wim Wender's Der Himmel über Berlin in the 1980s, with its haunting images of a divided Berlin. I remembered following the rise of Mikhail Gorbachev and hearing unfamiliar words such as Perestroika and Glasnost suddenly enter everyday political conversation. I watched the Fall of the Berlin Wall unfold on television, a moment that seemed to mark the end of an era and the beginning of something entirely new. Reading a Superman story set against that backdrop felt both fitting and exhilarating. Unlike the American Superman comics I grew up with, Superman og Fredsbomben viewed the Cold War from a European perspective, reflecting the hopes, anxieties, and uncertainties of nations that lived much closer to the fault lines of East-West confrontation. Even today, whenever I return to the book, I can almost hear Wind of Change by Scorpions playing in the background. The comic and the song have become intertwined in my memory, both capturing that brief, optimistic moment when it seemed as if old divisions were disappearing and a more peaceful world might genuinely be possible.

American Superman stories traditionally revolve around individual heroism. Superman og Fredsbomben is concerned with systems, diplomacy, environmental fears, political rhetoric, and public trust. Lois and Clark are always talking to each other. The threat is not merely physical. It is ideological. The story reflects a distinct Scandinavian perspective on international politics, one shaped by smaller nations living in the shadow of superpower rivalries.

Reading it decades later, one can still sense the atmosphere of the late 1980s. The Cold War was approaching its conclusion, but nuclear anxiety remained very real. The book channels those fears into a narrative that is simultaneously playful and serious, satirical and sincere. In many ways, it feels less like an American superhero comic and more like a European political graphic novel that happens to star Superman.

That uniqueness comes directly from its creators.

Writer Niels Søndergaard is one of Denmark's most respected comic writers, translators, and editors. Beyond his original comics work, he is particularly celebrated for bringing major international comics to Danish readers through his translations of works such as Tintin and Calvin and Hobbes. Throughout his career he has been a major figure in Scandinavian comics culture, helping bridge European and American traditions.

For Superman og Fredsbomben, Søndergaard conceived a story that challenged conventional superhero storytelling while remaining faithful to Superman's core values. His script demonstrates an understanding that Superman's greatest strength is not his ability to punch harder than anyone else, but his role as a moral and cultural symbol. The influence of Frank Miller's “The Dark Knight Returns” is obvious, but it was a solar version of Miller's anarchism.

One of my favorite anecdotes about the book involves Søndergaard's interactions with DC Comics editor Mike Carlin. He later recalled that Carlin would object to Clark Kent changing into Superman in public restrooms in Amsterdam, rather than telephone booths. Søndergaard argued that public telephones were impractical in Europe because they were too exposed. Eventually the American editor relented. It seems like a minor detail, but it perfectly illustrates the cultural exchange taking place behind the scenes: Danish realism colliding with American superhero tradition.

If Søndergaard provided the intellectual framework, Teddy Kristiansen supplied the soul.

Today Kristiansen is internationally recognized as one of the most accomplished artists ever to work on Superman. In 2005 he won the prestigious Eisner Award for his artwork on Superman: It's a Bird, written by Steven T. Seagle, a deeply personal and acclaimed exploration of Superman myth.

However, when Superman og Fredsbomben was created, Kristiansen was still relatively early in his career. Looking back, it is astonishing how fully formed his artistic voice already was.

The art was a different mix of the style of Moebius, Hugo Pratt and Lorenzo Mattotti. Teddy Kristiansen's art defies easy categorization. Blending the storytelling traditions of European graphic novels with the emotional intensity of expressionist illustration, his work favors atmosphere, texture, and character over conventional superhero spectacle. His figures are often slightly distorted, his compositions cinematic, and his pages infused with a painterly quality that prioritizes mood as much as narrative clarity. Rather than striving for photographic realism, Kristiansen creates an emotional reality, one where architecture, landscapes, color, and body language become integral parts of the storytelling.

His pages bear little resemblance to conventional superhero comics of the period. Rather than pursuing the polished realism popular in American comics, Kristiansen embraces expressive forms, textured surfaces, painterly compositions, and cinematic staging. The result feels closer to European graphic novels than mainstream superhero fare.

Years later, Bruce W. Timm would specifically praise Kristiansen's distinctive style on Superman og Fredsbomben, recognition that underscores how highly regarded the artwork remains among professionals who know the medium best. DC editors also wanted Teddy to be able to draw the Superman S-shield perfectly. He nailed but clearly on his own terms.

What impresses me most is how Kristiansen makes Superman feel simultaneously mythic and vulnerable. The character towers above ordinary people, yet he never feels detached from them. This balance is one of the most difficult challenges in Superman storytelling, and Kristiansen achieves it repeatedly throughout the book. That humanness can be seen also in his further Superman work with Steven T. Seagle in Superman: It’s a Bird… and Superman: Metropolis with Chuck Austen.

Another aspect that are undeniably European is the painted colors. And although outrageously not credited anywhere in the graphic novel: the colorist Søren Håkansson. Where another colorist might have defaulted to the primary reds and blues of conventional superhero publishing, Håkansson understood that this was a different kind of story demanding a different kind of light. It would be easy to say that he was influenced by Lynn Varley acclaimed painting in TDKR, but here the colors are much more subtle.  His sophisticated, restrained palette, rooted in the greys, ambers, and cold blues of Northern Europe, does not merely accompany the narrative. It argues for it. He makes the Nordic cities feel inhabited rather than merely visited, grounded in real weather and real seasons. His contribution is not decoration. It is atmosphere, and atmosphere in this book is everything.

Although colorists were often overlooked and poorly credited in European comics during the 1980s and 1990s, Søren Håkansson earned a reputation as one of Denmark's finest practitioners of the art. Danish comic historians place him alongside renowned colorists such as Bjarne Hansen, Lars Vendelbo, and Jesper Ejsing, recognizing his role in elevating coloring from a purely technical task to an essential storytelling tool. His work on acclaimed projects including Peter Madsen's Valhalla series showcased a sophisticated painterly approach that helped define the distinctive visual identity of Danish comics during the period. Håkansson's contribution to Superman og Fredsbomben also serves as an early example of the extraordinary coloring tradition that would later reach international audiences through Bjarne Hansen's acclaimed work on Superman for All Seasons.

No creative work exists in isolation, and Superman og Fredsbomben is no exception. Behind Søndergaard's script, Kristiansen's brushwork and Håkansson stands another visual intelligence that bridges directly into the prose: letterist Rebecca Løwe, and letterers were often virtually invisible in comic-book credits, especially in European publishing, but Løwe was a constant in Danish editions of major European comics published by Interpresse and Carlsen Comics around the same period. Credits associated with series such as Les Tuniques Bleues, aka Blåfrakkerne, points out that she was part of the small group of production specialists responsible for adapting international comics for the Danish market.

None of this, of course, happens without the infrastructure of publishing behind it. Editor Henning Kure, one of the most influential figures in Danish comics culture of the twentieth century, a man who spent his career building bridges between Scandinavian readers and the wider world of comics, provided the editorial intelligence that shaped the project. And publisher Arne Stenby had the audacity to propose it in the first place. At a time when the notion of DC Comics authorizing a foreign publisher to create an original Superman story was, charitably speaking, far-fetched, Stenby's conviction transformed an ambitious idea into a finished book. The fact that Superman og Fredsbomben exists at all is not inevitable. It is the result of specific people, at a specific moment, refusing to accept that certain things simply were not done. One of them is Super fan Ove Høyer who help and supported the production of this title and receives a special dedication in the book. Known to generations of Danish readers as "Super-Ove," Ove Høyer was the leading champion of Superman and superhero comics in Denmark. As a translator, editor, and columnist, he spent decades introducing readers to the Man of Steel and helping shape Danish comics culture.

Perhaps the most fascinating aspect of Superman og Fredsbomben is how effectively it removes Superman from his usual cultural context.

The story unfolds across Amsterdam, Oslo, Copenhagen, Stockholm and Helsinki, those cities, in the late 1980s, were widely associated with peace movements, nuclear disarmament, diplomacy, and a more internationalist vision of world politics. They were not officially known as "the peace capitals of the world," as the story implies, but from a European perspective they often symbolized many of the values associated with the peace movement.

 Famous landmarks appear throughout the narrative, some of which suffer spectacular damage during Superman's battles. According to Søndergaard, Mike Carlin and DC were initially concerned about the amount of destruction depicted. The solution was simple: the book explicitly notes that Superman later rebuilds everything.

Again, this sounds like a small detail, but it reveals something important about how DC viewed Superman. Even in a foreign-produced story, certain moral expectations remained non-negotiable. Superman could fight. Superman could make mistakes. But Superman had to take responsibility. That insistence ultimately strengthened the story.

In July 2022, after carrying the idea for nearly twenty years, I finally turned a dream into reality. I traveled through the same countries featured in the graphic novel, following as closely as possible the route taken by Lois Lane and Clark Kent. It was not simply tourism. It was a pilgrimage.

Walking through the Grachtenpanden along the canals of Amsterdam, I was struck by how faithfully Kristiansen had captured the geometry of those narrow facades reflected in dark water. I had studied his panels so many times that the city felt simultaneously new and deeply familiar, as though I were visiting a place I had dreamed about rather than read about. The canal houses were exactly as he had drawn them, and yet they were also more: they had smell and sound and the cold of a Northern morning that no comic page can fully hold.

Strøget in Copenhagen and the Tivoli Gardens nearby produced a different sensation. These were places rendered in the book with a lightness that matched their character, and walking through them I understood why Søndergaard had chosen them. There is something inherently theatrical about Tivoli, something that belongs naturally to a story mixing politics with humor and standing inside it I felt the logic of the book click into place in a way that reading alone had never quite achieved.

Frogner Park in Oslo asked something different from me. Walking between the Monolith and the Vigeland sculptures, surrounded by that strange and monumental meditation on the human figure, I thought about how Kristiansen had used these forms in the story, how their weight and strangeness suited a narrative that was never entirely comfortable, never entirely light. The sculptures look like something dreamed of rather than carved, and the book shares that quality.

Stockholm offered its own pleasure. Standing on Stortorget in Gamla Stan, the old city's medieval heart, and then at Sergels torg with its modernist geometry and its crowds, I felt the contrast that runs through the book itself: the tension between history and the present, between the monumental and the everyday, between a world that remembers and a world that moves on.

And then Helsinki. Standing before the Sibelius Monument, that extraordinary cascade of steel pipes that looks simultaneously like a pipe organ dismantled by the wind and a figure dissolving into pure sound, I felt something I had not anticipated: a kind of doubling of reality. I had first encountered this place not in person but in ink, through Kristiansen's interpretation of it, years before I had any reason to believe I would ever stand there myself. And yet there I was, comparing the actual light falling on actual steel to the light a Danish artist had imagined and rendered decades earlier. The Helsinki Cathedral, white and vast against the sky, produced the same sensation. These were not simply landmarks. They were places I had carried inside me for years, compressed into comic book panels, and now suddenly they had volume and weight and weather. It was, in the truest sense of the word, overwhelming. Not crushing, but expanding, as though the world had quietly grown larger around me.

Before making the trip, I had the opportunity to discuss online both the graphic novel and my travel plans with Niels Søndergaard and Teddy Kristiansen. I also talked with former Superman editor Mike Carlin, whose enthusiasm for the project reflected the respect it continues to command among those familiar with its history. I even tried to convince Dan Didio to reprint it in the USA.

The experience reinforced something I had long suspected: Superman og Fredsbomben is not merely a curiosity. It is a genuinely important Superman work. The question that continues to puzzle me is simple. Why has this book never been published in English?

When DC Comics was willing to publish Japanese Batman material by Jiro Kuwata, when European graphic novels have increasingly found English-speaking audiences, and when Superman scholarship has grown more international than ever before, the continued absence of Superman og Fredsbomben feels increasingly strange.

The explanation, as best I have been able to determine over many years of inquiry, appears to be legal rather than editorial. Interpresse, the Danish publisher that made the book possible, no longer exists. In the decades following its dissolution, the rights situation seems to have become tangled in the kind of ambiguity that haunts orphaned publishing agreements, with no single surviving party holding both the authority and the motivation to pursue new editions. The book has not been suppressed. It has simply been allowed to fall through the cracks of corporate history.

Originally, Superman og Fredsbomben was published in seven languages across seven European markets by six different publishers. The Danish edition was released by Interpresse, the Dutch edition by Baldakijn Boeken, the Norwegian and Finnish editions by Semic, the Swedish edition by Carlsen Comics, the Spanish edition by Zinco, and the Italian edition by Rizzoli Milano. This unusually broad international publication reflected both the story's European setting and the publishers' confidence that a distinctly Scandinavian Superman adventure could appeal to readers across national and linguistic borders.

This is not unusual in comics publishing. What is unusual is that it happened to a work of this significance. DC Comics is today part of one of the largest entertainment companies in the world, with legal and licensing resources that dwarf anything imaginable in 1990. If the will to recover this book existed, the means to do so almost certainly exist as well. I have believed that for twenty years. It is a quiet belief, but a persistent one, and I do not expect to abandon it anytime soon.

Yet despite never appearing in English, Superman og Fredsbomben refuses to disappear.

Collectors continue to search for copies. Digital scans circulate among enthusiasts. Spanish and Italian editions introduced the story to new readers. Brazilian fans even produced an unofficial Portuguese translation. In December 2024, Søndergaard and Kristiansen reunited for an exhibition in Copenhagen celebrating the graphic novel's legacy, displaying and selling original artwork while discussing its creation more than three decades after publication. That event perfectly illustrates the book's strange and wonderful afterlife. Most licensed tie-in projects are forgotten within a few years.

Superman og Fredsbomben continues to attract readers, collectors, scholars, and fans across multiple countries and languages. For a comic that never received an English edition, that is an extraordinary achievement. Perhaps that endurance stems from the fact that the book understands something fundamental about Superman.

Superman does not belong exclusively to America. Although he became one of the most recognizable symbols of American popular culture, he was created by Jerry Siegel and Joe Shuster, the sons of immigrant families whose roots stretched far beyond the United States. Siegel's parents were Jewish immigrants from Lithuania, while Shuster was born in Canada to a Jewish family whose origins lay in both the Netherlands and Ukraine.

Recently DC president Jim Lee has explained that he connected deeply with Superman because Superman's story mirrored aspects of his own experience as an outsider trying to fit into a new culture. Reflecting on his childhood as a Korean immigrant living in the US, Lee said that Superman resonated with him because he was "the ultimate immigrant", and that the character helped him assimilate into American culture while giving him a sense of belonging.

Superman og Fredsbomben demonstrates what happens when that myth passes through a Scandinavian filter. The result is thoughtful, funny, political, humane, visually stunning, and unlike anything else in Superman's vast history. More than thirty years after its publication, I remain convinced that it deserves to be recognized not merely as a collector's item, but as one of the most fascinating Superman graphic novels ever created. After spending decades collecting its editions and traveling across Northern Europe in its footsteps, I can say with confidence that few comics have rewarded my curiosity more richly.

And it taught me something that decades of American Superman comics, for all their greatness, never quite managed: that this character belongs to anyone who has ever felt like an outsider looking for a place in the world, anyone who has carried hope across borders, anyone who has believed that the distance between where you are and where you want to be can be crossed. Siegel and Shuster understood that instinctively, because they lived it. Søndergaard and Kristiansen understood it too, because Scandinavia in the shadow of the Cold War understood it in its own way. And I understood it, reading a Danish comic with a dictionary in Brazil, slowly decoding a story that was never meant for me and yet felt, from the very first page, like it had been waiting for me all along. An English edition would not simply make the book more accessible. It would return it to the conversation it always deserved to be part of. Superman's story is too large, and too human, to remain locked in languages that most of his readers will never learn.