Existe um
momento preciso, assistível frame a frame, que resume o arco de seis anos da
série Supergirl: é a estreia em outubro de 2015, quando quase 13 milhões de
americanos sintonizaram a CBS para ver Melissa Benoist voar pela primeira vez.
E existe outro momento, igualmente preciso, que completa o diagnóstico: o final
na sexta temporada, em novembro de 2021, assistido por pouco mais de um milhão
de espectadores na CW. Entre esses dois números: 12,96 milhões e 1,17 milhão,
há uma trajetória que não é apenas a história de uma audiência que diminuiu. É
a história de uma série que tentou sobreviver mudando tudo o que a havia feito
funcionar, e que no processo foi se tornando uma versão cada vez mais diluída
de si mesma.
O que
Supergirl conseguiu nesses seis anos, apesar de tudo, é real e merece
reconhecimento honesto. Mas entender o que a série perdeu ao longo do caminho
é, hoje, tão importante quanto celebrar o que ela conquistou, especialmente num
momento em que Kara Zor-El está prestes a retornar às telas em sua segunda
aventura cinematográfica, com Milly Alcock, Craig Gillespie e uma ambição
narrativa que o Arrowverse raramente pôde se dar ao luxo de ter.
Para
compreender Supergirl (2015), é preciso compreender onde ela nasceu e por que
isso importava. A rede CBS de 2015 não era o lar óbvio para uma série de
super-heroína. Era uma rede aberta conhecida por procedurais policiais,
demografias mais velhas e uma aversão histórica ao risco criativo. Mas foi
exatamente por isso que a escolha foi interessante: colocar Kara Zor-El numa
rede de TV aberta de grande alcance, num horário nobre, com a ambição de
atingir não apenas fãs de quadrinhos, mas o público geral, da mesma forma que
Lois & Clark fez na década de 90 na rede ABC, especialmente mulheres jovens
que nunca haviam encontrado uma heroína de capa com quem se identificar de
verdade.
Greg
Berlanti, o produtor executivo que havia construído o Arrowverse com Arrow e
The Flash, trouxe para Supergirl uma proposta radicalmente diferente das
produções anteriores do universo: menos sombria que Arrow, mais emotiva que
Flash, com uma protagonista cuja força maior não era a musculatura kryptoniana,
mas a capacidade de se importar. A série seria explicitamente feminina num
gênero que raramente se permitia sê-lo, não apenas por ter uma mulher no
centro, mas por organizar sua gramática narrativa em torno de relacionamentos,
crescimento pessoal e identidade, em vez de combates e escalada de ameaças.
O episódio
piloto foi um sucesso estrondoso. Aqueles quase 13 milhões de espectadores na
estreia empataram com Blindspot como a maior estreia de série da temporada
2015–2016 da televisão americana. Para uma série de super-herói protagonizada
por mulheres, algo que Hollywood havia tratado como risco comercial proibitivo
durante décadas, o número era uma declaração: havia público para isso. Havia
fome.
O problema
é que a CBS não soube o que fazer com o que havia criado. A primeira temporada
de Supergirl, exibida na CBS entre outubro de 2015 e abril de 2016, é um
produto televisivo genuinamente bem construído, e sua qualidade se sustenta
numa combinação de elementos que a série jamais voltaria a ter todos
simultaneamente.
O primeiro
e mais importante é Melissa Benoist. A atriz havia se tornado conhecida por
Glee, onde interpretava Rachel Berry, personagem que compartilhava com Kara uma
certa qualidade de entusiasmo vulnerável, de pessoa que quer muito demais e às
vezes isso a torna alvo fácil. Benoist trouxe essa textura para Kara Danvers
com uma precisão que poucos previam: uma heroína que era genuinamente jovem,
genuinamente insegura, genuinamente aprendendo, e que ao mesmo tempo, quando
precisava ser Supergirl, encontrava uma dignidade física e moral que não
parecia performática. Era uma das poucas heroínas de televisão que conseguia
ser simultaneamente engraçada, emocionante e intimidante na mesma cena.
O segundo
elemento era Calista Flockhart como Cat Grant, e é impossível exagerar o quanto
essa personagem era essencial para o DNA da primeira temporada. Cat Grant era,
na superfície, uma variação da Miranda Priestly de O Diabo Veste Prada: chefe
exigente, impiedosa, obcecada com poder e imagem, capaz de destruir a
autoestima de um assistente com uma única frase. Mas a série fazia algo mais
inteligente do que simplesmente reciclar esse arquétipo. Cat Grant era uma
mulher que havia chegado ao topo num mundo que não queria que ela chegasse, e
que havia pagado um preço real por isso e por isso mesmo, funcionava como
espelho para Kara: a versão de quem Kara poderia se tornar se deixasse o mundo
moldá-la pelo atrito, em vez de moldá-lo pela esperança.
A relação
entre as duas era o coração emocional da série. Não o romance com Jimmy Olsen,
não os combates com Fort Rozz, não a trama da DEO. Era aquela dinâmica entre a
jovem que ainda estava aprendendo o que era ser poderosa e a mulher que sabia o
custo disso. Quando Cat Grant dizia a Kara que o nome "Supergirl" não
era diminutivo, mas declaração, que ser "girl" era ser exatamente o
que ela precisava ser, sem pedir desculpas, era um dos momentos de escrita mais
precisos que o Arrowverse jamais produziu.
O terceiro
elemento era o tom. A primeira temporada de Supergirl tinha consciência de ser
uma mistura de drama profissional, comédia romântica e aventura de super-herói,
e abraçava essa mistura sem vergonha. Era leveza calculada, não
superficialidade acidental. Era uma série que entendia que Kara Danvers ser
desajeitada com o chefe e Supergirl salvar aviões eram duas expressões da mesma
jornada de autoconfiança, e que as tratava com igual seriedade.
A CBS
cancelou Supergirl ao final da primeira temporada. Não porque a série fosse
ruim, era, consistentemente, uma das produções mais cuidadosas da rede. Mas
porque os números haviam caído da estreia de 12,96 milhões para uma média de
9,81 milhões na temporada, e a CBS, na era Les Moonves, mede o sucesso em
escala absoluta de audiência, não em qualidade de público ou lealdade
demográfica. Para a rede que liderava o horário nobre americano por décadas,
9,81 milhões era decepcionante. Parte do mesmo grupo, a CW a resgatou. E esse
resgate foi, simultaneamente, a salvação e a sentença da série.
A salvação
é óbvia: sem a CW, Supergirl simplesmente não existiria a partir da segunda
temporada. A continuidade, a possibilidade de Melissa Benoist completar sua
jornada com Kara, a existência de seis temporadas em vez de uma, tudo isso é
consequência direta da transferência.
A sentença
é mais sutil, mas igualmente real. A CW exigiu, como condição prática da
mudança, que a produção se transferisse de Los Angeles para Vancouver, onde
todo o Arrowverse era filmado, reduzindo custos através de infraestrutura
compartilhada. Essa mudança geográfica teve consequências que vão além do
orçamento.
Calista
Flockhart, baseada em Los Angeles e casada com Harrison Ford, não poderia se
relocar para Vancouver por seis meses por temporada. Essa condição estava no
seu contrato. Sua saída como regular foi determinada não por decisão criativa,
mas por logística financeira e com ela foi embora a personagem que mais
importava para a identidade única da série. Cat Grant retornaria em episódios
esparsos ao longo das temporadas seguintes, mas nunca recuperaria o espaço
central que havia ocupado na primeira. A série perdeu seu melhor personagem por
causa de um contrato de produção.
Mas havia
algo mais. A CW era a casa do Arrowverse, e esse universo de Greg Berlanti
tinha uma gramática própria, uma estética própria, uma mitologia própria que
havia sido construída ao longo de anos com Arrow e The Flash. Trazer Supergirl
para dentro dessa arquitetura significava, gradualmente, que a série precisava
falar a mesma língua narrativa dos outros shows: invasões alienígenas de escala
crescente, tramas de multiverso, crossovers anuais, episódios musicais, vilões
que retornavam de mortes improváveis. Era uma língua que Supergirl sabia falar,
mas que não era a sua língua materna.
Um dos
argumentos mais inteligentes que a série fazia, especialmente nas primeiras
temporadas, era o de que Kara Zor-El não precisava do Super-Homem para existir.
Era uma tese correta e necessária, mas a forma como a série a executou criou,
por vários anos, uma contradição que o público sentia sem conseguir sempre
nomear.
Durante as
duas primeiras temporadas, a série evitou mostrar o Homem de Aço de maneira
consistente. Havia referências constantes ao primo famoso, conversas por
mensagem, menções de outros personagens, mas o Último Filho de Krypton
permanecia fora de quadro, uma presença definida pela ausência. A justificativa
criativa era legítima: os produtores temiam que a chegada do Super-Homem deslocasse
o foco narrativo de Kara, repetindo o erro estrutural do filme de 1984.
O problema
é que a ausência funcionava de maneira inversa ao pretendido. Em vez de afirmar
a independência de Kara, a ausência explicitamente gerenciada dele, a constante
necessidade de explicar por que ele não estava lá, tornava-o onipresente de
outra forma. Era uma sombra que o show projetava sobre si mesmo ao tentar
evitá-la.
Quando
Tyler Hoechlin finalmente apareceu como Super-Homem na segunda temporada, a
recepção do público foi entusiasmada de uma forma que revelava algo: as pessoas
queriam vê-lo. Não porque duvidassem de Kara, mas porque o universo da série
havia criado uma expectativa que a própria série relutava em satisfazer. A
chegada de Hoechlin, e depois de Bitsie Tulloch como Lois Lane, e de Jon Cryer
num Lex Luthor que se tornaria um dos melhores da história da televisão, não
diminuiu Kara. Pelo contrário: a colocou num universo mais rico, com
antagonistas mais interessantes e relações mais complexas. A série passou anos
provando que não precisava de Super-Homem. Quando finalmente parou de provar,
ficou até mais forte e coesa.
Outra coisa
que o Super-Homem de Tyler Hoechlin fez foi expor um Super-Homem diametralmente
oposto daquele que estava sendo descontruído por Henry Cavill, David S. Goyer,
Christopher Nolan e Zack Snyder nos cinemas. Não que isso fosse um problema, aliás
não é, quanto mais Super-Homem melhor. Mas essa discussão fica para outra
oportunidade.
A partir da
terceira temporada, Supergirl assumiu uma agenda temática cada vez mais
explícita. A saída do armário de Alex Danvers, interpretada com uma
vulnerabilidade precisa por Chyler Leigh, foi um dos arcos mais bem escritos da
série inteira, trabalhado com cuidado e sem condescendência, e teve impacto
real no público que se identificava com a experiência da personagem. A quarta
temporada usou a ascensão do personagem de Agente Liberty como metáfora clara
para o ressurgimento do populismo e da xenofobia, numa série cujo personagem
central é, literalmente, uma imigrante alienígena que esconde sua identidade
verdadeira para ser aceita.
Essas
escolhas não eram gratuitas. Faziam sentido para a personagem, para o universo
e para o momento histórico em que a série existia. A pergunta crítica não é se
esses temas pertenciam a Supergirl, pertenciam por ela ser uma imigrante
refugiada, mas como eles foram integrados à narrativa ao longo do tempo.
E aqui a
série encontrou seu problema mais persistente: a crescente dificuldade de
equilibrar mensagem e aventura. Nas melhores temporadas, os temas emergiam da
trama, a história de Alex era antes de tudo uma história de personagem, e a
mensagem nascia dela. Nas temporadas mais fracas, a relação se invertia: a
mensagem vinha primeiro, e a trama era construída para sustentá-la. Quando a
escrita chegava a esse ponto, os personagens paravam de ser pessoas e começavam
a ser porta-vozes, e nenhuma mensagem, por mais correta que seja, sobrevive
intacta a esse processo.
A
polarização que a série gerou no público ao longo das temporadas finais não foi
causada pelo fato de ter abordado temas políticos e sociais. Foi causada, em
parte, pela percepção de que esses temas haviam consumido o espaço narrativo
que antes pertencia ao desenvolvimento de personagens e à aventura. Não é uma
crítica à substância do que a série defendia. É uma observação sobre ritmo,
proporção e confiança: quando uma série precisa afirmar constantemente suas
teses em vez de incorporá-las na ação e nas relações, ela está sinalizando que
não confia que seu público vai encontrá-las por conta própria.
Os
crossovers do Arrowverse eram eventos anuais que mobilizavam os fãs de toda a
franquia e geralmente resultavam nos episódios mais assistidos de cada
temporada individual. Para Supergirl, eram ao mesmo tempo tábua de salvação e
armadilha.
Tábua de
salvação porque traziam visibilidade renovada, conectavam a série a uma
audiência maior do que a sua própria base, e produziam momentos genuinamente
memoráveis, o encontro inicial com The Flash na primeira temporada permanece,
anos depois, como um dos episódios mais charmosos que o Arrowverse produziu, e
o episódio musical da segunda temporada foi uma celebração generosa dos
talentos de um elenco vindo em grande parte de Glee e do teatro musical. Jeremy
Jordan é um showman completo e magistral.
Armadilha
porque cada crossover reposicionava Supergirl como peça de um universo maior em
vez de protagonista de seu próprio universo. Kara dividia espaço com Arrow,
Flash, Legends of Tomorrow, Batwoman, Constantine, e em cada um desses eventos,
precisava ser redimensionada para caber numa narrativa que não havia sido
construída ao redor dela. O resultado, ao longo de anos, era uma heroína que o
público via com mais frequência como coadjuvante de eventos coletivos do que
como protagonista de sua própria história. Por exemplo quando Lois Lane, na pele
da divertidíssima Bitsie Tulloch, surge ao som da canção “Save Me” da banda
Remy Zero em Smallville durante o crossover Elseworlds, ela rouba a cena, provando
que Lois é a verdadeira primeira-dama do universo DC e todos os universos de super-heróis.
Criada por Jerry Siegel e Joe Shuster junto com Clark e o Super-Homem em 1938, antes
mesmo dos medalhões Batman e Mulher-Maravilha, a melhor repórter do Planeta
Diário, é a maior heroína da DC, pois luta pela verdade e justiça com as
próprias mãos, jornalismo e intelecto, sem precisa de superpoderes, e muito
vezes sozinha e a pergunta vem: Pra quê precisamos da Supergirl?!
Havia
também o problema estrutural mais amplo: o Arrowverse havia desenvolvido, ao
longo de anos, uma gramática de escalonamento que tornava cada ameaça maior que
a anterior. Arrow havia começado com um arqueiro combatendo crime organizado em
uma cidade; anos depois, o universo enfrentava extinção multiversal. Supergirl,
ao entrar tarde nessa dinâmica, precisou comprimir essa escalada de maneira
artificial, e as temporadas finais sofreram visivelmente da necessidade de
produzir ameaças cósmicas num orçamento que não havia crescido
proporcionalmente à ambição narrativa.
Um dos
aspectos mais generosos e genuinamente emocionantes da série foi seu tratamento
da história audiovisual da DC. Em vários momentos ao longo de seis temporadas,
Supergirl convidou as atrizes que haviam dado vida a personagens do universo do
Superman antes dela, e o fez com uma reverência que nunca soou como nostalgia
decorativa.
Helen
Slater, a Supergirl original de 1984, apareceu como Eliza Danvers, a mãe
adotiva de Kara, uma escolha de casting que era simultaneamente um aceno ao
passado e uma declaração de continuidade: a atriz que havia sido a primeira
Kara Zor-El nas telas agora habitava o universo como a mulher que criou a nova
Kara. Teri Hatcher, que havia interpretado Lois Lane na série Lois & Clark
nos anos 1990, apareceu como vilã alienígena na segunda temporada. Lynda
Carter, a Mulher-Maravilha definitiva da televisão americana, interpretou a
presidente dos Estados Unidos, uma escolha que tinha camadas de significado que
o público da série não precisava de notas de rodapé para entender.
Havia também as pontes com Smallville, a série
que havia dominado a televisão de super-heróis na primeira década dos anos 2000,
através de aparições de atores daquele elenco em novos papéis. A série
funcionava, nesses momentos, como uma espécie de museu vivo da ficção
científica heroína da DC na televisão: não apenas celebrando o passado, mas
ativando-o dentro de uma narrativa presente. Laura Vandervoort que interpretou
Kara Zor-El e Supergirl em Smallville veio ser a vilã Indigo, uma versão
feminina de Brainiac. Erica Durance, a Lois Lane de Tom Welling, interpretou
Alura Zor-El, mãe biológica de Kara, depois da saída da atriz Laura Benanti no
papel. A veterana Sarah Douglas, famosa Ursa dos filmes do Christopher Reeve, fez
participação especial em Supergirl como a líder kryptoniana Jindah Kol
Rozz. Isso não era nostalgia pelo passado. Era uma afirmação de que Kara Zor-El
tinha uma história, e que essa história merecia ser honrada.
Por exemplo, a escalação de Jon Cryer como Lex
Luthor foi uma das maiores surpresas e acertos criativos de Supergirl. A
escolha possuía um sabor histórico peculiar: mais de três décadas antes, Cryer
havia participado de Superman IV: The Quest for Peace interpretando Lenny
Luthor, o sobrinho atrapalhado de Lex Luthor na versão vivida por Gene Hackman.
O que poderia parecer apenas uma curiosidade nostálgica transformou-se em uma
verdadeira reinvenção. Cryer entregou um Lex brilhante, manipulador, sarcástico
e perigosamente inteligente, frequentemente roubando a cena mesmo em episódios
que não giravam diretamente em torno dele. Seu enorme talento como ator cômico
permitiu que trouxesse humor e ironia ao personagem sem diminuir sua ameaça,
enquanto sua experiência dramática deu profundidade a um dos maiores vilões da
DC. Para muitos fãs, sua interpretação tornou-se uma das melhores versões
live-action de Lex Luthor já produzidas para televisão, rivalizando com nomes
consagrados como Michael Rosenbaum e até mesmo algumas encarnações
cinematográficas.
Já o crossover Crisis on Infinite Earths
representou o ápice da ambição do Arrowverse e uma celebração sem precedentes
da história audiovisual da DC. Pela primeira vez, diferentes gerações de Super-Homem
coexistiram na mesma narrativa: Brandon Routh retornou ao papel que havia
interpretado em Superman Returns, agora incorporando uma versão inspirada em Kingdom
Come; Tom Welling reapareceu como o Clark Kent de Smallville,
encerrando simbolicamente uma jornada iniciada quase vinte anos antes; e Tyler
Hoechlin consolidou-se como o Superman principal do universo compartilhado,
abrindo caminho para Superman & Lois. A reunião desses intérpretes
demonstrou como a figura do Homem de Aço permanecia central para a identidade
da DC, mesmo em uma série concebida para destacar sua prima. Notou-se,
entretanto, a ausência de Dean Cain, o Homem de Aço de Lois & Clark.
Embora nunca tenha sido oficialmente explicado como uma exclusão deliberada,
Cain já havia se tornado uma figura altamente controversa por suas posições
políticas e seu alinhamento com setores da direita radical americana, o que o
afastou de parte significativa da comunidade criativa de Hollywood e tornou
improvável sua participação em um evento que celebrava justamente a diversidade
e a inclusão promovidas pelo Arrowverse. Cain já havia sido removido da série
Supergirl onde interpretava o pai adotivo da personagem, Jeremiah Danvers.
A presença de Dean Cain em Supergirl possuía
forte valor simbólico. Após interpretar o Super-Homem por quatro temporadas em
Lois & Clark, Cain retornou ao universo do Homem de Aço como Jeremiah
Danvers, pai adotivo de Kara e Alex. Inicialmente tratado como um herói
desaparecido, Jeremiah retorna carregando traumas e segredos, tornando-se uma
figura ambígua por sua ligação com a Cadmus. Seu arco cruza diretamente com o
de Hank Henshaw, que na série é transformado no vilão Cyborg Superman, uma
adaptação livre de um dos mais famosos inimigos dos quadrinhos da Triangle Era.
Nos quadrinhos, Henshaw é um dos protagonistas da saga da morte e retorno do
Homem de Aço, chegando a se passar pelo próprio Super-Homem após sua morte. Em
Supergirl, o personagem foi reinterpretado como um agente reconstruído pela
Cadmus e consumido pelo ódio aos alienígenas, tornando-se um dos principais
antagonistas da segunda temporada. Embora Jeremiah fosse importante para a
dinâmica familiar das protagonistas, seu arco acabou encerrado de forma abrupta.
Fora das telas, as posições políticas cada vez mais controversas de Dean Cain
contrastavam com a linha progressista adotada pela série e pelo produtor Greg
Berlanti. Embora nunca tenha havido confirmação oficial de uma relação entre
esses fatos, a redução de sua presença e sua ausência em eventos posteriores do
Arrowverse alimentaram a percepção de que suas relações com parte do universo
criativo da DC haviam se desgastado. A verdade é que Dean Cain foi sumariamente
demitido, e perdeu uma chance de ouro de retornar como Super-Homem na Crise.
Ao final de
seis temporadas e 126 episódios, o legado mais sólido de Supergirl é o que era
ao mesmo tempo seu elemento mais simples e mais difícil de definir: Melissa
Benoist.
A atriz
construiu, ao longo de seis anos, uma Kara Danvers que era simultaneamente a
mais humana e a mais poderosa de suas versões. Não porque o roteiro fosse
consistentemente à altura, não era, mas porque Benoist encontrava, em cada
temporada, novas camadas para uma personagem que o material às vezes tratava
com mais superficialidade do que merecia. Havia uma qualidade específica em sua
performance: a capacidade de fazer Kara parecer genuinamente afetada pelos
eventos ao redor dela, como se cada batalha custasse algo real e não pudesse
ser simplesmente resolvida com força kryptoniana.
O discurso
final de Kara no episódio final da série, em que ela redefine o que significa
ser heroína não como salvadora, mas como inspiradora, como alguém que acredita
no potencial humano em vez de substituí-lo, é um dos melhores momentos de
escrita da série inteira. E funciona não apenas pelo que diz, mas por quem o
diz: uma atriz que passou seis anos construindo a credibilidade emocional para
que aquelas palavras parecessem ganhas, não proclamadas.
Nenhuma
outra Kara Zor-El, antes ou depois, passou tanto tempo com o personagem. E esse
tempo acumulado, aquela familiaridade de seis anos entre atriz e papel, criou
algo que nenhum longa-metragem pode replicar: a sensação de conhecer uma
heroína, de ter crescido com ela, de tê-la visto falhar e recuperar e mudar.
Uma das
consequências mais interessantes e menos discutidas da série foi sua influência
sobre os próprios quadrinhos da DC. Em 2016, quando a DC relançou sua linha
como parte do evento Rebirth, a nova série de Supergirl, escrita por Steve
Orlando e com arte de Brian Ching, incorporou explicitamente elementos da
versão televisiva: a protagonista trabalhando numa metrópole disfarçada de
civil, a relação com uma figura de autoridade que funciona como mentora, um tom
mais esperançoso e menos conflituado do que a Kara dos anos anteriores. Os
quadrinhos, historicamente a fonte das adaptações, estavam sendo influenciados
pela adaptação. Essa via de mão dupla é significativa porque sugere que a série
havia feito algo raro: havia criado uma versão da personagem convincente o
suficiente para retroalimentar o material original. Personagens criados
especificamente para a televisão, como Alex Danvers, a irmã adotiva de Kara,
que não existia nos quadrinhos, migrou para as histórias em quadrinhos e
encontraram leitores que os aceitaram. A série havia expandido a mitologia da
personagem em vez de apenas adaptá-la.
Também há
uma forma simples e impiedosa de contar a história de Supergirl como série: os
números de audiência por temporada. Primeira temporada, CBS: média de 9,81
milhões de espectadores. Segunda temporada, CW: 3,12 milhões. Terceira: 2,82
milhões. Quarta: 1,67 milhão. Quinta: 1,58 milhão. Sexta e última: 1,17 milhão.
Cada número
é uma queda. Cada queda tem causas diferentes, a mudança de rede, a saída de
Flockhart, a fragmentação do público de televisão aberta, a saturação do gênero
de super-heróis, a pandemia, o crescimento do streaming como concorrente direto
ao consumo linear de séries. Seria injusto atribuir todo o declínio a decisões
criativas, porque parte significativa dele reflete transformações estruturais
na indústria televisiva que nenhuma série isolada poderia ter resistido.
Mas seria
igualmente injusto fingir que apenas fatores externos explicam a queda. Séries
que mantêm qualidade narrativa consistente constroem lealdade que resiste a
mudanças de plataforma e saturação de mercado. Supergirl, ao mudar de
identidade para sobreviver, ao se tornar mais Arrowverse e menos a si mesma,
foi perdendo, temporada a temporada, parte da audiência que havia se apaixonado
por aquilo que ela havia sido.
O novo
filme de Supergirl chega em junho de 2026 com uma vantagem estrutural que a
série nunca teve: não precisa sobreviver. Não precisa negociar sua identidade
com uma rede de televisão, não precisa compartilhar protagonismo com doze
outros heróis num crossover de seis partes, não precisa justificar sua
existência temporada após temporada diante de métricas de audiência que caem
independentemente de sua qualidade.
Tem, por
outro lado, a responsabilidade de entregar numa única tela e em duas horas o
que a série entregou em seis temporadas e 126 episódios: uma razão para o
público se importar com Kara Zor-El como protagonista independente. A série de
Melissa Benoist provou que esse público existe. Provou que uma super-heroína
pode sustentar uma franquia própria. Provou que a versão feminina da maior
franquia de super-heróis da história não era um risco comercial inviável, mas
uma oportunidade que a indústria havia subestimado por décadas.
O que a
série não conseguiu provar, ou conseguiu provar apenas em fragmentos, é que
Kara Zor-El é um personagem com profundidade trágica suficiente para uma
narrativa verdadeiramente adulta. Não porque a atriz faltasse, Benoist
demonstrou essa capacidade repetidamente. Mas porque o formato televisivo, com
suas exigências de ritmo semanal e escalada de temporada, raramente permite que
um personagem permaneça num estado de genuína vulnerabilidade por tempo
suficiente para que a audiência sinta o peso do que está em jogo.
Supergirl:
Woman of Tomorrow, a minissérie de Tom King que inspira o novo filme, é
exatamente sobre esse peso. É uma história sobre uma Kara em crise, sem seus
poderes, no aniversário da destruição de Krypton, confrontando não uma invasão alienígena,
mas a pergunta mais difícil que uma heroína pode enfrentar: o que significa ser
boa num universo que não precisa de bondade?
A série
televisiva nunca chegou lá. Tinha os instrumentos, tinha a atriz, mas não tinha
o espaço narrativo ou a coragem dramatúrgica necessários para ir até o fundo. Milly
Alcock, com Craig Gillespie e o material de Tom King, tem a chance de ir.
Supergirl
(2015–2021) foi, na melhor versão de si mesma, uma das séries de super-herói
mais humanas já produzidas para a televisão, uma história sobre uma jovem
aprendendo a existir num mundo que não foi construído para ela, sustentada por
uma protagonista de talento genuíno e por uma dinâmica de mentoria que o gênero
raramente havia explorado com tanta elegância.
Na versão
mais comprometida de si mesma, foi uma série que negociou sua identidade para
sobreviver, que trocou a especificidade que a havia tornado especial pela
integração num universo que lhe dava visibilidade, mas lhe custava
singularidade, e que por vezes confundiu ter mensagens importantes com contar
histórias importantes.
O legado
real está em algum ponto entre essas duas versões. Melissa Benoist se tornou,
para uma geração inteira, a imagem definitiva de Kara Zor-El, uma performance
que não pode ser apagada por críticas à escrita das temporadas finais. A série
transformou uma personagem historicamente secundária em ícone de televisão
reconhecível globalmente. E abriu espaço, cultural e comercialmente, para que o
filme de 2026 pudesse existir com a ambição que tem.
Às vezes o
que uma obra faz para o que vem depois importar mais do que o que ela consegue
para si mesma. Supergirl a série fez isso. Abriu o espaço. Pagou o preço.
Passou o bastão.
Milly
Alcock, agora o palco é seu.

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