Supergirl (2026) não é
um filme ruim. É algo mais frustrante do que isso: é um filme mediano que tinha
todas as condições de ser extraordinário.
A minissérie de King e Evely é uma obra de rara
beleza visual e emocional. Bilquis Evely criou um universo fantástico, onírico
e feminino, com uma paleta de arte que transborda sensibilidade. O filme de
Craig Gillespie, sob influência pesada de James Gunn, escolhe o caminho oposto:
um visual sujo, punk rock, que remete inevitavelmente aos Guardiões da
Galáxia, só que sem a leveza e o humor que tornaram aquela franquia amada.
O resultado é um universo que parece emprestado, não habitado. Os cenários e
figurinos carregam a impressão digital de Gunn por toda parte, sufocando
qualquer identidade própria que o filme pudesse construir.
A espada, objeto central e carregado de
simbolismo na narrativa original, perde aqui boa parte do seu peso. Eixo moral
da minissérie Supergirl: Woman of Tomorrow, ela é o catalisador da
história, instrumento causador do assassinato do pai de Ruthye e seu voto de encontrar o assassino e
matá-lo com a própria espada deixada cravada no cadáver. Ela é o preço da
justiça que Ruthye carrega, o símbolo do pai morto e da dor não resolvida, e é
a disputa por esse objeto que une as duas protagonistas logo no primeiro
encontro. A tensão entre vingança e justiça, debatida por Supergirl e Ruthye ao
longo de toda a jornada, tem a espada como seu símbolo físico permanente.
Eve Ridley empresta carisma e presença a Ruthye
Marye Knoll, mas a riqueza do arco familiar da personagem, tão central nos
quadrinhos, é praticamente ignorada. A história do pai, Ferdinand Kingsley no
papel de Elias Knoll, que deveria ser o motor emocional da vingança, passa como
nota de rodapé. Drom Baxton (Diarmaid Murtagh), figura de peso na história
original, reduz-se aqui a pretexto para que Lobo apareça em cena.
Emily Beecham como Alura tem pouquíssimo tempo de
tela: e o que é pior, não é por falta de material: a série de TV Supergirl
(2015), nas encarnações de Erica Durance e Laura Benanti, soube explorar a
personagem com muito mais profundidade emocional. David Krumholtz como Zor-El
carrega uma ambiguidade filosófica interessante: Jor-El como vilão em
potencial, o irmão que pensa diferente, mas o roteiro nunca desenvolve essa
tensão até as últimas consequências, deixando o personagem em território de
esboço.
Talvez o problema mais sintomático do filme seja
a proporção de espaço concedida a personagens masculinos num filme que, pela
sua própria natureza, deveria ser uma celebração da protagonista e de sua
jornada. Jason Momoa como Lobo é divertido, ninguém nega. Mas o personagem, que
não existe sequer na minissérie original (foi adicionado para o filme), acaba
por ocupar espaço que pertencia a Kara, salvando-a em momentos em que ela
deveria ser a autora do seu próprio destino. É uma contradição estrutural que
enfraquece precisamente aquilo que o filme deveria defender.
David Corenswet retorna como Super-Homem, em
flashbacks e no final, e sua presença é ainda mais problemática: num filme que
deveria ser a afirmação independente de Kara Zor-El, é o primo quem aparece
para resolver o dilema da protagonista, em tese, deveria resolver sozinha. É
como se o filme não confiasse inteiramente na sua própria heroína.
Craig Gillespie é um diretor que sabe narrar
mulheres. Lars and the Real Girl (2007) e, especialmente, I, Tonya
(2017) demonstram uma capacidade rara de retratar feminilidade com ironia,
violência e ternura simultaneamente. Em Supergirl, porém, ele parece
engolido pelas exigências do gênero: as sequências de ação são pesadas,
confusas, e a trilha pop em câmera lenta, tão característica do universo Gunn,
perde a graça na segunda vez e se torna mecânica na terceira. A direção não é
desastrosa, mas é impessoal. E impessoalidade é o pior pecado para um filme que
deveria ter alma.
Vale registrar o afeto genuíno embutido no filme:
um dos planetas se chama Bilquis, em homenagem à artista brasileira que
desenhou os quadrinhos, e logo em seguida Garota de Ipanema toca numa
cena. A roteirista Ana Nogueira colocou o Brasil no espaço, literalmente, e
isso é bonito. Só que o fan servisse, por mais caloroso que seja, não substitui
profundidade dramática.
Tudo isso dito, Milly Alcock é a razão mais
sólida para sentar-se na poltrona. A sua Kara Zor-El é diferente de tudo que se
viu antes na personagem: nem a doçura de Helen Slater em 1984, nem o calor sincero
de Melissa Benoist na série. É uma Supergirl raivosa, traumatizada, com um
"foda-se" legítimo nos olhos, uma sobrevivente que ainda não aprendeu
a ser heroína. Alcock carrega o filme mesmo quando o roteiro a abandona.
É precisamente por isso que o saldo final é
amargo. Supergirl (2026) tem, no centro, uma performance que merecia um
filme à altura. O que ela recebeu foi um produto competente, visualmente
barulhento e emocionalmente superficial: uma continuação obrigatória que, em
vez de nascer do desejo de contar uma história, parece ter nascido do
calendário de lançamentos de um estúdio. A Mulher do Amanhã merecia mais do que
o cinema de hoje conseguiu oferecer.
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