segunda-feira, junho 01, 2026

Supergirl (1984) e o peso de uma sombra

 


Supergirl (1984) e o peso de uma sombra
por Fabio Marques (01/06/2026)

Existem filmes que fracassam por incompetência. Existem filmes que fracassam por falta de recursos. E existem filmes que fracassam por algo muito mais interessante: por serem tecnicamente capazes, visualmente elegantes, musicalmente brilhantes e, ainda assim, fundamentalmente vazios no lugar onde mais importa. Supergirl, de 1984, pertence a essa terceira categoria. É um fracasso de rara sofisticação, um monumento ao que acontece quando todos os ingredientes certos se reúnem ao redor de um roteiro que não está à altura de nenhum deles.

Quarenta e dois anos depois de seu lançamento, com um novo filme da Kara Zor-El prestes a chegar às telas, produzido por James Gunn e Peter Safran, dirigido por Craig Gillespie, protagonizado por Milly Alcock, parece não apenas oportuno mas necessário revisitar essa primeira tentativa. Não por nostalgia barata. Não para rir dos efeitos especiais datados ou das decisões de moda dos anos 1980. Mas porque entender por que Supergirl (1984) fracassou é, em larga medida, entender o que um filme de super-heroína precisava ser para sobreviver.

Para compreender Supergirl (1984), é preciso antes compreender os produtores que o fizeram. Alexander Salkind e seu filho Ilya haviam produzido Superman: The Movie em 1978 e a sequencia direta Superman II, dois filmes que redefiniriam para sempre a linguagem dos super-heróis no cinema. Mais do que isso, haviam desenvolvido uma estratégia de produção que parecia à prova de falhas: escalar uma estrela desconhecida para o papel principal, cercá-la de atores consagrados e premiados, e dar ao projeto uma aparência de grande evento cinematográfico. Com Christopher Reeve, havia funcionado de maneira extraordinária. Por que não repetiria com Helen Slater?

O problema central, aquele que os Salkind não parecem ter compreendido, ou compreenderam tarde demais, é que essa fórmula não funcionou em 1978 por causa de seus componentes superficiais. Funcionou porque havia, por baixo de toda aquela arquitetura de produção, um roteiro genial desenvolvido por Tom Mankiewicz, herdeiro da linhagem Mankiewicz, que criou Cidadão Kane e A Malvada. Tom foi escalado por Richard Donner para corrigir a monstruosidade escrita por Mario Puzo, David Newman, Leslie Newman e Robert Benton. Recebendo a alcunha de consultor criativo, ele criou um texto inteligente com magnitude, romance e humor que sabia exatamente o que era e o que queria ser. Um roteiro que entendia o mito de Super-Homem não apenas como história de origem, mas como tragédia clássica disfarçada de aventura popular. Que entendia que Clark Kent não era uma piada, mas precisa e leveza para ser levado a sério, uma metáfora sobre a dupla vida que todos nós levamos. Que entendia que o romance com Lois Lane precisava funcionar de verdade para que o sacrifício do final fizesse sentido.

Em Supergirl, os Salkind reproduziram a arquitetura mas abandonaram a fundação. Contrataram Faye Dunaway como vilã, Peter O'Toole como mentor, Mia Farrow como mãe amorosa, Brenda Vaccaro como cúmplice cômica. Escalaram Hart Bochner como interesse romântico. Trouxeram de volta Marc McClure como Jimmy Olsen, o único elo vivo com os filmes do Superman. Colocaram um pôster de Christopher Reeve na parede. Construíram um universo visual coerente com o que vinha antes. E então entregaram tudo isso a um roteiro de David Odell que não conseguia decidir o que o filme queria ser.

Há algo perturbador no modo como Supergirl (1984) lida com a ausência do Homem de Aço. Logo de cara, numa notícia de rário, o filme explica que o herói está "em missão espacial", uma solução narrativa que resolve o problema de continuidade mas cria outro, muito maior: a ausência de Christopher Reeve não é apenas logística. É emocional.

A cada referência ao primo famoso, cada referência feita por Lucy Lane e Jimmy Olsen, cada menção àquele que a heroína vai um dia encontrar, cada alusão ao universo maior do qual este filme tenta desesperadamente fazer parte, o público é lembrado de que está assistindo a um substituto. Não a uma protagonista em seu próprio direito, com sua própria história urgente e seu próprio mundo, mas a um personagem definido em relação a outro personagem que escolheu não aparecer.

Isso não é culpa de Helen Slater. É uma decisão estrutural que contamina o filme inteiro, porque sinaliza que seus próprios criadores não tinham plena confiança na protagonista que estavam vendendo. Em vez de construir Kara Zor-El como heroína independente, com sua própria mitologia, seus próprios antagonistas, sua própria cosmologia emocional, optaram por ancorá-la em permanência à sombra do primo. O resultado é uma personagem que passa o filme inteiro provando que merece existir, em vez de simplesmente existir.

Compare isso com o que Superman: The Movie fez com Clark Kent. Ali, não havia nenhum super-herói maior cuja presença o filme sentisse necessidade de invocar para se legitimar. O filme criava seu próprio mundo e convidava o público a habitá-lo. Supergirl, ao contrário, parece um projeto que desconfia de si mesmo desde a primeira cena. Esperemos que a aventura de Milly Alcock não sofra da mesma mazela.

Faye Dunaway venceu o Oscar por Rede de Intrigas em 1977. Vinha completa depois Chinatown. Era, no momento da produção de Supergirl, uma das atrizes mais respeitadas e temidas de Hollywood, uma presença que poderia ter produzido um antagonismo de verdadeiro peso dramático. O que o roteiro lhe deu? Uma feiticeira chamada Selena que quer conquistar o mundo usando um amuleto de poder cósmico chamado Omegaedro, com planos que nunca ficam exatamente claros, motivações que nunca transcendem o capricho, e como interesse subjacente a conquista de um jardineiro inconsciente com quem ela se encantou. Patético.

Não é que Dunaway seja má no filme. Ela faz o que pode, projeta ameaça, mastiga cenas com apetite genuíno, encontra momentos de humor negro que o roteiro não merecia. Mas não há nada ali para ela sustentar. Selena é uma vilã de desenho animado numa produção que quer ser tratada com seriedade.

Peter O'Toole, em situação semelhante, interpreta Zaltar, um artista excêntrico de Argo City que funciona como mentor e figura trágica, com a dignidade cansada de quem sabe que está em território aquém do seu talento. Há uma cena de O'Toole, em exílio na Zona Fantasma, que contém a melhor atuação do filme inteiro: o ator encontra, em poucos minutos, uma dimensão de fracasso e redenção que a história principal nunca consegue alcançar. É como assistir a um ator de teatro shakespeariano num papel que pede muito menos do que ele tem a oferecer: e que, ainda assim, entrega mais do que o material merecia. Mia Farrow aparece tão brevemente que mal deixa marca. Brenda Vaccaro faz a cúmplice cômica com competência mecânica.

O roteiro não sabe o que fazer com nenhum deles porque não sabe o que quer ser. É parte ficção científica kryptoniana, parte fantasia mágica urbana, parte comédia de adaptação, parte romance adolescente, e cada uma dessas camadas compete com as outras em vez de se alimentar mutuamente.

Uma das críticas mais injustas que Supergirl recebeu à época foi a que mirou no diretor Jeannot Szwarc como responsável principal pelo fracasso. É uma acusação que não resiste a uma análise cuidadosa. Szwarc havia dirigido Jaws 2 em 1978, um filme que tinha a missão impossível de ser a sequência de Tubarão sem a presença do midas Spielberg, e que, contra as expectativas, entregou um thriller competente e funcional. Mais revelador ainda: havia dirigido Em Algum no Passado in Time em 1980, um lindo romance fantástico com o próprio Super-Homem, Christopher Reeve e Jane Seymour que se tornaria, ao longo dos anos, um cult de imensa beleza melancólica, um filme sobre memória, amor e o peso do tempo que demonstrou que Szwarc sabia trabalhar com emoção e com atores de maneira genuinamente sofisticada.

Em Supergirl, Szwarc mantém o ritmo, constrói sequências visualmente elegantes, trabalha bem com Helen Slater e extrai dela uma performance consistente onde um diretor menos atento poderia ter obtido apenas superficialidade. Há uma qualidade nas cenas de voo, especialmente as primeiras, quando Kara descobre seus poderes, que é genuinamente encantadora, com uma leveza quase poética que ecoa o espírito dos melhores momentos de Superman: The Movie. O filme não parece amador. Não parece mal dirigido. Parece um filme cuja direção é melhor do que seu roteiro, o que é um tipo diferente de problema, e, para o diretor, um tipo diferente de injustiça.

Roger Ebert, em sua crítica ao filme, fez uma observação que o tempo só tornaria mais precisa: Helen Slater possuía um charme genuíno, uma qualidade luminosa e uma presença simpática que tornavam a personagem imediatamente agradável. Era uma observação generosa e, crucialmente, correta.

Slater tinha 21 anos quando o filme estreou. Era sua primeira aparição no cinema, um ano antes de A Lenda de Billie Jean. E, contra todas as probabilidades, em cenas frequentemente absurdas ou mal escritas, ela conseguia transmitir algo difícil de fabricar: uma inocência autêntica, uma coragem que não parecia performática, um entusiasmo que não virava caricatura. Quando Kara descobria que podia voar, a câmera de Szwarc capturava no rosto de Slater algo que parecia surpresa real, um deleite físico com o impossível que não precisava de nenhuma linha de diálogo para se comunicar.

O problema é o mesmo de O'Toole: ela era boa demais para o que tinha para fazer. Kara Zor-El, no roteiro de Odell, nunca recebe uma jornada emocional de verdade. Não há conflito interno suficientemente desenvolvido. Não há escolha impossível que a defina como personagem. Não há momento em que ela seja posta à prova de uma forma que faça a audiência duvidar, por um segundo sequer, de que ela vai prevalecer. Uma heroína que nunca parece em perigo real, não apenas físico, mas moral e emocional. Ela é uma heroína que não cresce, e uma heroína que não cresce não chega ao coração de ninguém.

Slater fez o máximo com o que recebeu. Décadas depois, sua breve aparição em The Flash de 2023 em CGI ao lado, ironicamente, de Christopher Reeve também renderizado artificialmente foi recebida com uma emoção que o filme de 1984 nunca completamente justificou, mas que a performance de Slater, em toda a sua fragilidade, havia plantado nos espectadores que estavam dispostos a encontrá-la.

Se há um elemento de Supergirl (1984) que não precisa de nenhuma concessão nem de nenhum qualificativo, é sua trilha sonora. Jerry Goldsmith, compositor de A Profecia, Alien, Chinatown, Patton, Papillon, Planeta dos Macacos, Star Trek, entre dezenas de obras-primas, foi escolhido para uma missão de rara dificuldade técnica e criativa: como criar uma identidade musical para a prima do Superman sem simplesmente copiar John Williams?

Williams havia composto, para Superman: The Movie, um dos temas heroicos mais reconhecíveis da história do cinema moderno, uma fanfarra majestosa que se tornara inseparável do personagem, de sua mitologia, de sua promessa. Qualquer tentativa de replicá-la soaria pastiche. Qualquer afastamento radical soaria desconexo do universo que o filme precisava habitar.

Goldsmith encontrou uma solução elegante: seu tema principal para Supergirl possui o mesmo espírito heroico e o mesmo senso de aventura dos temas de Williams, mas com uma personalidade própria, mais lírica e menos marcial, que sugere não o Super-Homem como símbolo mas a Kara como pessoa. Há uma qualidade mais íntima e ao mesmo tempo mais etérea na música de Goldsmith, como se a heroína voasse não pelo poder mas pelo desejo, não pela força mas pela leveza.

A ironia mais elegante de Supergirl (1984) é que sua trilha sonora frequentemente entrega a grandiosidade que seu roteiro não consegue alcançar. Há sequências em que a música transforma cenas medíocres em algo que parece, por alguns minutos, à beira da emoção genuína, e o crédito por isso pertence inteiramente a Goldsmith.

Uma observação que a história tendeu a negligenciar: os efeitos especiais de Supergirl (1984) são, frequentemente, comparáveis aos dos filmes de Superman que vieram antes. As cenas de voo, especialmente as exteriores, com composições ópticas que colocam Helen Slater contra céus e paisagens reais, possuem uma fluidez que não desmerece a tradição da franquia. Houve um cuidado técnico genuíno na execução dessas sequências.

Isso importa porque desfaz uma narrativa conveniente: a de que Supergirl foi um produto apressado e barato que apenas explorava o nome da franquia. Não foi. Foi um produto caro o suficiente, cuidadoso o suficiente tecnicamente, com talento suficiente à sua disposição, para ter sido muito melhor do que foi. O fracasso não veio da falta de recursos. Veio de como esses recursos foram empregados, e de que não havia, no centro de tudo, uma história capaz de justificar o investimento.

Um dos aspectos mais importantes, e frequentemente esquecido, na avaliação de Supergirl é a existência de diferentes versões do filme. A edição lançada nos cinemas americanos pela Tri-Star Pictures em novembro de 1984 possuía apenas 105 minutos e foi resultado de cortes significativos realizados durante a pós-produção, reduzindo drasticamente uma montagem muito mais extensa preparada originalmente pelo diretor Jeannot Szwarc e pelo editor Malcolm Cooke. A intenção da distribuidora era tornar o filme mais rápido, comercial e acessível ao público norte-americano, mas o resultado foi uma narrativa fragmentada, com transições abruptas, desenvolvimento insuficiente de personagens e perda de elementos importantes da mitologia kryptoniana. Em contraste, a chamada International Version, com aproximadamente 124 minutos, preservava uma quantidade muito maior de material narrativo e foi a versão exibida em diversos mercados fora dos Estados Unidos, oferecendo uma experiência mais coerente e próxima da concepção original da produção. Décadas depois, a descoberta de uma versão ainda mais longa, conhecida como Director's Cut de 138 minutos, reforçou a percepção de que o lançamento americano havia mutilado significativamente a visão de Szwarc. Embora nenhuma das versões resolva os problemas fundamentais do roteiro, as edições mais extensas demonstram que parte da má reputação do filme nasceu não apenas de suas fragilidades narrativas, mas também da intervenção da Tri-Star, que sacrificou a construção dramática e o desenvolvimento do universo da personagem em favor de um corte mais curto para as salas de cinema.

Os Salkind, vale lembrar, chegavam a Supergirl fragilizados. Superman III de 1983 havia decepcionado crítica e público, abalando a confiança na franquia. A aposta na comédia com Richard Pryor e na direção cómica de Richard Lester haviam se provado erradas. O orçamento disponível para Supergirl era menor do que o dos primeiros filmes.


Christopher Reeve decidiu não participar de Supergirl durante a pré-produção do filme, aproximadamente três meses antes do início das filmagens em 1983. Inicialmente, os planos dos produtores Alexander Salkind e Ilya Salkind previam uma participação importante de Superman na história, funcionando como mentor de Kara e estabelecendo a transição da franquia para Helen Slater. O próprio diretor Jeannot Szwarc revelou posteriormente que Reeve chegou a apoiar o projeto e até sugeriu seu nome para dirigir o filme, após os dois trabalharem juntos em Somewhere in Time. No entanto, pouco antes da produção começar, o ator comunicou que “não se sentia confortável” com o spin-off e desistiu da participação planejada. A decisão ocorreu em um momento em que Reeve já demonstrava insatisfação crescente com os rumos da franquia após Superman III, especialmente pelo tom cômico adotado pelo filme, e começava a manifestar publicamente o desejo de se afastar do personagem para evitar ser permanentemente associado ao papel. Sua saída obrigou os roteiristas a remover Superman da trama e criar a explicação de que o herói estaria em uma missão de paz em outra galáxia, justificando sua ausência através de referências indiretas, fotografias e da presença de Jimmy Olsen interpretado por Marc McClure.


A perda de Christopher Reeve como âncora central criava uma vulnerabilidade estrutural que os produtores tentavam compensar com elenco de apoio e fidelidade visual ao universo já estabelecido. Eram decisões que faziam sentido defensivamente, mas que nunca substituíam o que estava faltando: uma razão para o filme existir que não fosse apenas a extensão comercial de uma franquia.


Há mais um mérito em Supergirl (1984) que raramente recebe o crédito merecido: sua fidelidade a elementos relativamente obscuros da mitologia kryptoniana dos quadrinhos. O filme utiliza Argo City, a cidade sobrevivente de Krypton que deriva pelo espaço numa bolha atmosférica, tema recorrente nos quadrinhos da era Weisinger, incorpora referências visuais a Kandor, a cidade engarrafada, e apresenta o conceito do "inter-espaço" como dimensão alternativa de exílio, e conecta a história de Kara com Metropolis de maneira que os leitores dos quadrinhos podiam reconhecer com satisfação. Além do uso da Zona Fantasma.


Para 1984, essa fidelidade era incomum. O cinema de super-heróis da época tratava os quadrinhos, em geral, como matéria-prima a ser radicalmente simplificada ou descartada. O fato de Supergirl ter tentado preservar elementos específicos e rebuscados da continuidade Era de Prata do personagem kryptoniano é, a seu modo, um sinal de respeito pelo material-fonte que merece ser notado. Novamente, não suficiente para salvar o filme. Mas é uma distinção que o separa do adaptação preguiçosa e meramente oportunista que seus críticos às vezes supõem que ele é.


Supergirl (1984) foi um fracasso comercial e crítico. Isso, a essa altura, não é novidade. Mas as consequências desse fracasso foram mais amplas do que a simples morte de uma franquia. No ano seguinte ao lançamento do filme, a DC Comics iniciaria A Crise nas Infinitas Terras, a maxi-série de Marv Wolfman e George Pérez que redefiniria a continuidade do universo DC de maneira fundamental. No final dessa, Kara Zor-El, a Supergirl original, a mesma cujas origens o filme havia tentado explorar, morreria em batalha, vítima do Anti-Monitor, e seria removida da continuidade principal da DC por alguns anos. A personagem desapareceria dos quadrinhos por quase duas décadas, substituída por versões alternativas que nunca capturaram o mesmo afeto.


É difícil afirmar com certeza que o fracasso do filme de 1984 influenciou diretamente a decisão editorial de matar Supergirl nos quadrinhos. A decisão de matar Supergirl durante a Crisis não foi exclusivamente de Wolfman ou Pérez. Pelo próprio relato de Wolfman, a pressão principal veio do então vice-presidente e editor executivo da DC, Dick Giordano. A ideia fazia parte do grande projeto editorial de simplificação do universo DC: transformar Super-Homem novamente no único sobrevivente de Krypton. Segundo Wolfman, a morte de Kara foi considerada necessária porque a editora queria eliminar o excesso de elementos kryptonianos acumulados ao longo das décadas, como Supergirl, Krypto, a cidade engarrafada de Kandor e outros sobreviventes do planeta. E quando John Byrne assumiu a reformulação do herói após a Crise, essa diretriz tornou-se ainda mais rígida. Byrne acreditava que parte da força dramática do personagem vinha justamente de sua solidão. Para ele, o Homem de Aço deveria ser literalmente o último kryptoniano vivo. Isso significava que trazer Kara de volta destruiria um dos pilares da reconstrução que ele estava realizando na sua série The Man of Steel. Por esse motivo, Byrne não apenas recusou o retorno da Supergirl clássica, mas também removeu ou reinterpretou diversos elementos tradicionais da mitologia kryptoniana.



É igualmente difícil ignorar o fracasso do filme e que a personagem desapareceria em seguida tanto do cinema quanto dos quadrinhos, como se, após um esforço de valorização que não dera o resultado esperado, o mercado e editora tivesse decidido que Supergirl não tinha futuro independente. O que essa história sugere é algo sobre a interdependência entre adaptação e personagem-fonte: quando um filme fracassa em estabelecer a relevância de um super-herói, os danos não se limitam à bilheteria. Podem contaminar, por anos ou décadas, a percepção daquele personagem como protagonista viável, tanto para a indústria quanto para o público.


Em 2023, The Flash ofereceu algo inesperado: um gesto de reconciliação com a história do cinema DC. Num universo de multiverso onde diferentes versões de personagens podiam coexistir, o filme trouxe de volta tanto Christopher Reeve quanto Helen Slater, brevemente ambos em CGI, mas com um peso simbólico considerável. Há algo de emocionante nessa reabilitação, exatamente porque ela não reescreve a história. Supergirl (1984) continua sendo o que é: um filme que prometia demais e entregava de menos no lugar que mais importava.


O novo Supergirl está inspirado na premiada minissérie Supergirl: Woman of Tomorrow (2021-2022), de Tom King e da brasileira Bilquis Evely, um material radicalmente diferente em tom e ambição do que serviu de base para o filme de 1984. A série redefiniu radicalmente o papel de Kara no Universo DC, apresentando a heroína num momento de crise e amadurecimento, longe da inocência luminosa do filme original, mais perto de uma personagem com complexidade moral genuína.


O filme é dirigido por Craig Gillespie, com roteiro da também brazuca Ana Nogueira, produzido por Peter Safran e James Gunn. Gillespie construiu uma carreira dirigindo filmes sobre vilãs incompreendidas e combativas, de Eu, Tonya a Cruella, uma trajetória que sugere uma sensibilidade genuína para protagonistas femininas que carregam contradição, em vez de virtude ou malignidade.


Milly Alcock protagoniza como Kara Zor-El, ao lado de Matthias Schoenaerts, Eve Ridley, David Krumholtz, Emily Beecham, e com David Corenswet e Jason Momoa. Crucialmente e isso importa diretamente como lição do filme de 1984, a estrutura do novo DCU posiciona Kara não como substituta de Super-Homem, mas como personagem independente com sua própria jornada. Super-Homem na pele de David Corenswet já foi estabelecido em seu próprio filme. Supergirl será o quarto projeto do Capítulo Um: Deuses e Monstros do DCU, parte de uma arquitetura narrativa maior, mas com identidade própria.


A lição central que o fracasso de 1984 oferece à produção de 2026 é simples mas fundamental: uma super-heroína não precisa de nenhum super-herói para se justificar. Ela precisa de uma história que faça as perguntas certas sobre quem ela é, o que ela quer, e o que está disposta a sacrificar. Precisa de antagonistas à sua altura. Precisa de um arco emocional que exija algo verdadeiro dela, não apenas a demonstração de poderes físicos, mas o enfrentamento de algo que a ponha em risco como pessoa.


Helen Slater tinha o talento para ter feito isso em 1984. O material não lhe deu a oportunidade. Milly Alcock, que demonstrou, em House of the Dragon, uma capacidade de habitar contradições emocionais com precisão rara, tem a chance que Slater não teve.


Para a nova geração que chega ao Supergirl de 2026 sem conhecer o de 1984, a história que você acabou de ler é um mapa de armadilhas. É o registro de todas as coisas que podem dar errado quando a indústria trata uma super-heroína como propriedade intelectual a ser explorada em vez de personagem a ser explorada.


Para quem conhece o de 1984, e carrega, talvez, uma ternura residual por Helen Slater e por aquele voo primeiro sobre os campos ensolarados, o novo filme chega carregando o peso de uma dívida histórica: a de finalmente dar a Kara Zor-El a história que ela merece.


Daqui a poucas semanas, saberemos se foi paga.



Crisis on Infinite Earths #7 by Marv Wolfman and George Pérez.

Arte por Bilquis Evely e Mat Lopes de Supergirl: Woman of Tomorrow.

Supergirl: Woman of Tomorrow by Tom King, Bilquis Evely e Mat Lopes.

Action figure da Supergirl de Flash (2023) interpretada por Sasha Calle.

Trilha sonora de Supergirl (2024) por Jerry Goldsmith. 

Versões encadernadas de Supergirl: Woman of Tomorrow.



 

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