As Melhores Histórias de Quadrinhos do Super-Homem
Action Comics #775 (March 2001)
Escrita por Joe Kelly
Desenhada por Doug Manhke e Lee BermejoArte final por Tom Nguyen, Dexter Vines, Jim Royal, José Marzan Jr, Wade von Grawbadger
Cores por Rob Schwager
Letras por Comicraft
Editada por Eddie Berganza
Capa por Tim Bradstreet
Republicada em portuguës no Brasil pela Panini Comics Brasil:
Superman #8 (Julho de 2003), Coleção DC 70 Anos #1 (Maio de 2008), Superman: Antologia (Novembro de 2020) e Superman: O Que Há de Errado Com Verdade, Justiça e Um Futuro Melhor? (Agosto de 2025)
Action Comics #775 é uma daquelas histórias que parecem simples até o momento em que você percebe que ela não está contando exatamente o que você acha que está contando. Na superfície, é o Super-Homem enfrentando um grupo de anti-heróis violentos, resolvendo uma crise internacional e reafirmando seus valores. Mas isso é só o invólucro. Por dentro, ela funciona como uma resposta direta, quase irritada, a tudo que os quadrinhos de super-herói haviam se tornado ao longo dos anos 90. Não é coincidência. Não é leitura posterior. É intencional. Joe Kelly criou essa edição como quem está olhando para uma década inteira e dizendo: “isso aqui saiu do eixo”. E, mais importante do que isso, ele não tenta consertar o Super-Homem. Ele usa o Primeiro e Maior Super-Herói de Todos para expor o problema.
Porque o problema nunca foi o personagem. O problema foi o ambiente ao redor dele. Durante os anos 90, a indústria passou a confundir maturidade com brutalidade, complexidade com cinismo, impacto com violência gráfica. A lógica era quase infantil na sua simplificação: quanto mais extremo, mais relevante; quanto mais letal, mais “realista”. Nesse cenário, o Super-Homem passou a ser visto como uma relíquia, não dentro das histórias, mas no discurso crítico em torno delas. Ele era “bom demais”, “correto demais”, “ingênuo demais”. E é exatamente essa percepção que Action Comics #775 decide atacar, não com nostalgia, mas com confronto direto.
A criação da Elite é o movimento central dessa estratégia. À primeira vista, eles são apenas a versão “atualizada” do que o Super-Homem deveria ser: eficientes, pragmáticos, livres de qualquer amarra moral que atrase a resolução de problemas. Mas essa leitura se desfaz rapidamente quando fica claro que eles não são uma evolução, são uma crítica. Uma crítica bastante específica, aliás, à proposta de The Authority dos britânicos Warren Ellis e Bryan Hitch, que em 1999, havia redefinido o gênero ao apresentar super-heróis como forças de intervenção absoluta, capazes de impor soluções ao mundo sem pedir licença. O que Joe Kelly faz não é negar essa proposta. Ele a leva até o limite lógico, e no limite ela deixa de parecer sofisticada e passa a parecer grotesca. Execuções televisionadas, justiça como espetáculo, violência como linguagem padrão, tudo aquilo que parecia moderno revela seu custo.
É nesse ponto que Manchester Black, o líder da Elite, deixa de ser apenas um antagonista e passa a funcionar como uma tese ambulante. Ele não é só o líder da Elite; ele é a voz que articula o desprezo pelo idealismo do Homem de Aço. E o fato de ele ser britânico, vestir a Union Jack e carregar uma postura cínica e intelectualmente agressiva não é detalhe estético, é comentário. Existe ali uma provocação clara à chamada invasão britânica dos quadrinhos dos anos 80, representada por nomes como Alan Moore e Grant Morrison, autores que elevaram o nível do meio, mas também ajudaram a consolidar uma visão mais desconstrutiva, mais irônica e, em muitos casos, mais cínica do heroísmo. Manchester Black é a caricatura desse excesso: alguém que acredita ter ultrapassado a ingenuidade a ponto de não precisar mais de princípios.
O que torna a história realmente desconfortável, no entanto, não é a existência da Elite, mas a reação do mundo a ela. As pessoas aprovam. Celebram. Preferem aquele tipo de solução. E é aqui que a história deixa de ser apenas uma crítica interna aos quadrinhos e passa a ser uma crítica ao próprio leitor. Porque, de certa forma, a Elite só existe porque há demanda por ela. Porque houve, ao longo de anos, uma aceitação crescente da ideia de que heróis que matam são mais interessantes, mais eficazes, mais “honestos” com a realidade. O Super-Homem, criado de Siegel e Shuster, nesse contexto, não está lutando apenas contra um grupo de personagens, ele está lutando contra uma mudança cultural.
Se três anos antes, em 1996, Kingdom Come, de Mark Waid e Alex Ross, já funcionava como um alerta sobre o colapso moral do universo dos super-heróis, Action Comics #775 parece quase uma resposta mais direta, mais cirúrgica, ao mesmo problema. Em Kingdom Come, um Super-Homem idoso retorna a um mundo dominado por heróis irresponsáveis, violentos, sem código, uma geração que já não reconhece limites e que trata poder como espetáculo, não como responsabilidade. A semelhança com a Elite é evidente, mas há também um desconforto mais profundo: a própria trajetória do Homem de Aço editorialmente já havia flertado com esse desvio, especialmente na fase de John Byrne, que buscou “modernizar” o personagem aproximando-o de um arquétipo mais emocional, mais falível, mais, para usar o termo inevitável, “marvelizado”. O ponto de ruptura talvez esteja em Superman #22, quando ele executa três kryptonianos do Universo Pocket, um gesto que até hoje ecoa como um desvio ético difícil de reconciliar com a essência do personagem. Tanto Kingdom Come quanto Action Comics #775 orbitam essa mesma tensão: o que acontece quando o ele, o maior de todos, começa a se parecer com o mundo ao redor em vez de funcionar como contraponto a ele. E, em ambos os casos, a resposta não é confortável, porque implica reconhecer que, em algum momento, o próprio personagem foi empurrado na direção errada antes de ser resgatado.
O clímax da história de Action Comics #775 é construído justamente para explorar essa tensão até o ponto de ruptura. Quando o Kal-El enfrenta a Elite e aparentemente adota os mesmos métodos que eles, a narrativa parece ceder à lógica dominante. Ele é mais rápido, mais forte, mais implacável. Ele derrota o grupo com uma facilidade quase assustadora. E por um instante, tudo parece fazer sentido dentro daquela lógica: claro que o Super-Homem poderia ser assim, claro que ele poderia resolver tudo de forma definitiva, claro que isso seria mais eficiente. É exatamente isso que torna a revelação tão poderosa. Porque não é verdade. Nunca foi. Aquilo é uma encenação, uma escolha consciente de demonstrar até onde ele poderia ir. E para deixar claro por que ele não vai.
E é nesse momento que a história faz algo raro: ela redefine o personagem sem mudar absolutamente nada nele. Ela apenas reposiciona o olhar do leitor. O que antes podia ser interpretado como limitação passa a ser entendido como escolha. O que parecia ingenuidade revela-se disciplina moral. O que era visto como fraqueza se impõe como a maior forma de força possível dentro daquele universo. Não é que o Homem de Aço possa ser como a Elite. É que ele entende exatamente o que se perde quando alguém escolhe ser assim.
Dentro da própria DC, o impacto disso foi imediato, ainda que silencioso. Durante aquele período, sob o editor Eddie Berganza, o escritor principal era Jeph Loeb, responsável por arcos maiores, mais visíveis, mais alinhados com o que se esperava de histórias “importantes”. Mas Action Comics #775 desloca esse eixo de atenção. De repente, a discussão mais relevante sobre o personagem não está nas grandes sagas, mas em uma história única, fechada, escrita por alguém que até então não ocupava esse lugar central. Joe Kelly deixa de ser apenas mais um roteirista da linha e passa a ser reconhecido como alguém que compreendeu o personagem em um nível mais fundamental.
A arte de Action Comics #775 é, por si só, um campo de batalha estético, e isso começa antes mesmo da primeira página, já na capa. Enquanto o miolo traz lápis de Doug Mahnke e Lee Bermejo, com uma linha de finalização quase industrial: Tom Nguyen, Dexter Vines, Jim Royal, José Marzán Jr., Wade von Grawbadger e Wayne Faucher, e as cores de Rob Schwager, a capa já estabelece o tom com uma proposta completamente diferente: arte e arte-final de Tim Bradstreet, com cores de Grant Goleash, Tanya Horie e Richard Horie. E essa escolha não é trivial. Bradstreet vem de uma estética quase fotográfica, hiper-realista, com forte influência noir, e sua capa não vende um Super-Homem clássico, ela vende tensão, confronto, quase ameaça. O personagem não é um ícone confortável; é uma presença carregada, densa, como se algo estivesse prestes a quebrar.
Quando se abre a revista, o impacto é imediato, porque o interior não tenta seguir essa linha, ele reage a ela. E é aqui que a combinação entre Mahnke e Bermejo se torna fundamental. Mahnke traz um traço nervoso, distorcido, quase expressionista, onde tudo parece em excesso: expressões faciais levadas ao limite, corpos que parecem sempre prestes a se romper, ação desenhada com peso e agressividade. Não há idealização. Não há limpeza. Há energia bruta. Já Bermejo, ainda no início da carreira, introduz um outro tipo de peso — menos elástico, mais físico. Seu traço sugere volume, textura, materialidade; há uma tentativa clara de tornar aquele mundo mais tangível, mais “real”, quase sujo. Quando esses dois estilos se encontram, o resultado não é harmonia: é pura fricção. E essa fricção é exatamente o que a história precisa.
A Elite parece emergir desse lado mais pesado, mais instável, mais contaminado visualmente. Eles não cabem na estética tradicional de um gibi do Homem de Aço, e nem deveriam. Há algo neles que invade o enquadramento, que quebra a composição, que transforma cada cena em algo desconfortável. Já o Super-Homem oscila. Em alguns momentos, ele é puxado para o exagero de Mahnke, quase deformado pela violência ao redor; em outros, ele recupera uma certa solidez, uma presença mais estável, quase clássica, mas nunca completamente. Ele nunca está totalmente “em casa” naquele mundo visual, e isso é crucial.
A presença de múltiplos arte-finalistas não suaviza essa tensão, ela a amplifica. Cada mão adiciona uma pequena variação, uma leve irregularidade, uma textura diferente. O resultado é uma superfície visual fragmentada, que reforça a ideia de um mundo fora de equilíbrio. E as cores de Rob Schwager não tentam corrigir isso com brilho ou uniformidade; elas acompanham o tom mais pesado, mais opaco, mais dramático, sustentando a atmosfera de conflito constante.
O que Action Comics #775 faz visualmente é raro: ela não apenas ilustra uma história sobre choque de valores, ela encena esse choque em cada página. A capa promete uma coisa, o interior tensiona outra, os estilos colidem, os personagens parecem deslocados dentro do próprio traço. Nada ali busca conforto. E é exatamente por isso que funciona tão bem.
Talvez por isso a história tenha acumulado, ao longo dos anos, uma reputação tão intensa e ao mesmo tempo tão dividida. Foi considerada a melhor edição de 2001, eleita a melhor história curta da década, posicionada entre as maiores dos últimos 30 anos e chamada de a maior história do Super-Homem pela revista Wizard. Ao mesmo tempo, apareceu em listas de histórias superestimadas. Essa tensão não é um defeito, é um sintoma. Histórias que apenas funcionam não geram esse tipo de reação. Histórias que confrontam, sim.
O fato de ser uma história curta, autocontida, só reforça tudo isso. Não há dependência de continuidade, não há necessidade de contexto prévio, não há preparação longa. Ela entra, faz o que precisa fazer e sai, deixando um efeito que se prolonga muito além das suas páginas. Não por acaso, foi adaptada em outras mídias, como o longa de animação Superman vs. The Elite, inspirou um episódio de série da Supergirl e foi republicada em português quatro vezes no Brasil ao longo de duas décadas. Não é apenas uma história lembrada; é uma história constantemente revisitada.
Existe também um fator de timing que ajuda a explicar por que Action Comics #775 nunca “explodiu” para o grande público na mesma medida em que sua importância justificaria: ela saiu em 2001, literalmente às vésperas da estreia de Smallville, série que redefiniria a presença do Homem de Aço na cultura pop ao reposicionar o personagem para uma nova geração, mais jovem e televisiva, deslocando o eixo de atenção dos quadrinhos para a TV. Nesse contexto, a história de Joe Kelly acabou se consolidando menos como fenômeno de massa e mais como obra de prestígio, um clássico cult, debatido, reverenciado e constantemente revisitado dentro do nicho que, no fim das contas, mais importa: o dos leitores de quadrinhos. É ali que ela construiu sua reputação quase incontestável, longe do ruído midiático mais amplo. E talvez por isso mesmo seu impacto tenha sido mais duradouro do que explosivo, infiltrando-se lentamente na forma como o personagem é compreendido, algo que ainda ecoa, décadas depois, em interpretações contemporâneas como a de James Gunn em Superman (2025), que recupera essa mesma ideia central de um herói que não precisa se adaptar ao cinismo do mundo para continuar relevante, mas sim confrontá-lo.
Friamente, Action Comics #775 não está interessada em provar que o Super-Homem está certo. Ela parte do pressuposto de que ele já está. O que ela faz é algo mais incômodo: ela expõe por que o mundo ao redor dele passou a achar que ele estava errado. E ao fazer isso, ela não apenas resgata o personagem, ela coloca em xeque toda uma fase dos quadrinhos que, por um tempo, confundiu escuridão com profundidade. O Super-Homem não precisava mudar. Era o olhar sobre ele que precisava ser corrigido.
por Fabio Marques (24 de março de 2026)