O primeiro episódio de Lanterns abre com dois policiais investigando um assassinato no Nebraska. Sem grandes construções de energia verde, sem uma aula expositiva sobre os Guardiões do Universo, sem Oa no horizonte. Para uma parcela dos fãs, isso já foi motivo de desconfiança: onde estava o Lanterna Verde que eles esperavam ver?
Há algo
curioso em estranhar que uma série sobre a Tropa dos Lanternas Verdes comece
como um drama policial, porque a Tropa é, afinal, uma força policial
intergaláctica. Seus membros recebem autoridade, investigam crimes, perseguem
criminosos, impõem leis e patrulham setores do universo. Remova os anéis e os
alienígenas, e ainda sobra algo bastante reconhecível: policiais investigando
crimes. O que Lanterns fez foi levar essa premissa a sério. Hal Jordan
não é um piloto de testes que encontrou um anel por acaso e passou a fazer
esculturas de luz; ele é um policial. John Stewart, veterano de guerra, entra
para uma organização com hierarquia, disciplina e código de conduta. Colocar
esses dois homens investigando um crime não é desviar do conceito. É explorar
exatamente aquilo que o conceito sempre foi.
E aqui vale
lembrar de onde John Stewart veio, porque isso diz muito sobre o que Lanterns
está tentando fazer. Ele não nasceu como um coadjuvante qualquer. John Stewart
foi criado em 1971 por Denny O'Neil e Neal Adams, na revista Green Lantern
#87, dentro daquela que é provavelmente a fase mais importante e mais política dos
quadrinhos do Lanterna Verde. Adams queria um Lanterna negro, e resumiu a
decisão numa frase que ainda soa afiada meio século depois: não por serem
liberais, mas porque, dada a composição racial do mundo, aquilo simplesmente
fazia sentido. O design de Stewart foi baseado em Sidney Poitier, e sua
primeira aparição já vinha carregada de atrito, um personagem que confrontava
abertamente o racismo americano e a arrogância complacente de Hal Jordan.
Esse John
Stewart não surgiu num vácuo. Ele nasceu dentro de Green Lantern/Green Arrow,
título construído por Julie Schwartz, para usar a parceria entre O'Neil e Adams
que, no início dos anos 1970, pegou Hal Jordan e Oliver Queen e os colocou
literalmente na estrada, atravessando os Estados Unidos de carro no rescaldo do
Watergate. As histórias, hoje reunidas sob o nome Hard-Traveling Heroes,
abandonaram deliberadamente a escala cósmica para confrontar racismo, pobreza,
superpopulação e dependência química, num dos arcos mais lembrados sendo
justamente sobre o vício em heroína do Ricardito, parceiro de Arqueiro Verde.
Foi uma das primeiras vezes que um quadrinho mainstream de super-herói decidiu
que o verdadeiro teste de um personagem não era o vilão cósmico da vez, mas a
América real do lado de fora da janela.
O Lanterna Verde
sempre foi, estruturalmente, sobre isso: usar a fantasia para atravessar o
concreto. O anel que transforma vontade em matéria sempre existiu ao lado de um
Hal Jordan que precisava responder pela ordem que jurou proteger, e Arqueiro
Verde sempre esteve ali para perguntar, sem cerimônia, se um herói deveria se
importar mais com uma galáxia distante do que com o próprio quintal. Lanterns
não está inventando uma abordagem estranha ao personagem. Está redescobrindo
uma que já é canônica, só que trocando a estrada pelo Nebraska e o carro pela
investigação de um homicídio.
Existe uma
tendência, entre parte do público de quadrinhos, de tratar fidelidade como uma
lista de checkboxes: uniforme correto, vilão certo, escala cósmica, frequência
mínima de efeitos visuais reconhecíveis. Se esses elementos não aparecem logo
de cara, a conclusão precipitada é que os realizadores estão constrangidos com
o material original. Mas a DC passou décadas provando o contrário. Batman já
foi thriller psicológico, comédia, tragédia familiar e aventura pulp, e
continua sendo Batman em todas elas. O Super-Homem já foi ficção científica,
romance e drama sobre identidade, sem deixar de ser o Super-Homem. Um
personagem não desaparece porque o diretor decidiu mudar de gênero. Essa
flexibilidade é uma das grandes qualidades do universo DC, mesmo quando
incomoda quem prefere uma única fórmula repetida indefinidamente.
O Lanterna
Verde, aliás, é um dos personagens mais bem posicionados para esse tipo de
experimento, e não por acaso: O'Neil e Adams já tinham provado isso há mais de
cinquenta anos. Seu conceito é praticamente uma caixa de ferramentas narrativa.
Ficção científica, com a polícia intergaláctica. Fantasia, com um anel que
transforma vontade em matéria. Horror cósmico, com ameaças capazes de
atravessar o universo. Aventura espacial, política, drama social, drama
policial. A única limitação real seria acreditar que existe apenas uma forma
correta de contar essa história, quando a própria história dos quadrinhos já
desmentiu isso décadas atrás.
A mitologia
dos Lanternas é imensa: Guardiões, Oa, setores espaciais, o espectro emocional,
Sinestro, dezenas de outras tropas. Há duas formas de apresentar isso ao
espectador. Uma é despejar tudo nos primeiros vinte minutos e torcer para que
ele acompanhe. A outra é começar com dois homens investigando um assassinato,
um que já conhece aquele universo, outro que está apenas entrando nele, e
deixar o público entrar junto. Essa é uma das funções mais antigas da ficção:
usar o familiar para introduzir o extraordinário. A investigação policial é um
território conhecido. O universo dos Lanternas não é. A série pode usar o
primeiro para abrir a porta para o segundo, sem que isso signifique diluir a
mitologia. É justamente o oposto: é torná-la acessível sem sacrificar sua
escala.
O fato de a
história começar pequena também não significa que o universo seja pequeno. O
Nebraska não substitui Oa, pode ser a porta de entrada para Oa. O assassinato
não precisa ser a história inteira, pode ser apenas a primeira pista. Hal não
precisa gastar oito episódios explicando o funcionamento da Tropa; ele pode
descobrir junto com John, e quando o espectador finalmente entender a real
dimensão do que está em jogo, essa revelação terá peso porque, antes disso, já
aprendemos a nos importar com essas pessoas. Essa é a vantagem estrutural de um
thriller: ele permite controlar a informação. Em vez de uma placa dizendo
"agora vamos explicar os Guardiões do Universo", a série deixa o
público perceber aos poucos que existe algo errado, depois que esse algo é
maior do que parecia, e por fim que um crime aparentemente local está conectado
a uma estrutura cósmica. Isso não é hesitação. É construção narrativa.
A ausência
inicial de grandes demonstrações de poder também costuma ser lida como sinal de
insegurança com o material. É uma leitura estranha da linguagem audiovisual:
uma série não precisa mostrar tudo o que possui logo de cara para provar que
possui aquilo. Se cada episódio precisasse lembrar o espectador, a cada quinze
minutos, de que o anel pode criar helicópteros, martelos e dragões, o resultado
seria uma vitrine de brinquedos, não uma história. O poder do anel é
extraordinário justamente porque a imaginação é a arma. E isso rende muito mais
quando usado dramaticamente, no momento certo, do que quando distribuído como
espetáculo constante.
O que Lanterns
parece entender é que não precisa gritar "isto é Lanterna Verde" a
cada cena para de fato ser Lanterna Verde. Ela trata seus protagonistas como
personagens: Kyle Chandler como um Hal Jordan veterano e cansado, marcado pela
própria experiência; Aaron Pierre como um John Stewart que ainda está
descobrindo que tipo de homem e de Lanterna pretende ser, décadas depois de
O'Neil e Adams terem estabelecido que esse personagem nunca foi pensado para
ser confortável; Nathan Fillion como Guy Gardner, trazendo o componente mais
irreverente que lembra o espectador de que, sim, isso ainda é o universo DC.
Não é uma produção que esqueceu de onde veio. É uma produção que confia no
material o suficiente para não precisar sublinhá-lo o tempo todo, e que parece
ter prestado atenção exatamente na fase dos quadrinhos onde Green Lantern foi
mais corajoso.
O ponto
central não é se Lanterns se parece exatamente com a versão dos
quadrinhos que cada fã tem na cabeça, mas se a série consegue usar os elementos
do personagem para construir uma boa história. Se ela entrega um bom drama
policial, desenvolve Hal Jordan e John Stewart com profundidade, introduz a
mitologia dos Lanternas de forma orgânica e ainda deixa espaço para um universo
que pode se expandir para o espaço nas temporadas seguintes, então ela não está
fugindo do material original. Está fazendo o que O'Neil e Adams já faziam em 1971:
pegar um conceito cósmico e usá-lo para olhar de frente para o mundo real, sem
medo de que isso torne o personagem menor. Muito pelo contrário.
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